RETORNANDO À MINHA CUIABÁ

A Cuiabá de 1971 era uma cidade diferente daquela que deixei alguns anos atrás. A cidade dos casarões estava começando a dar lugar à metrópole dos edifícios, com os novos bairros transformando as distâncias. O que antes era bem ali passou a ser longe, acolá, como diziam os mais antigos e as famílias tradicionais que moravam no centro ainda não haviam percebido o crescimento vertiginoso que se avizinhava, o que iria mudar seu cotidiano para sempre. Assim, a cuiabania seguia sua vida na tranquilidade que desde sempre determinou seu caráter pacífico e receptivo.

Naquele dia, assim que acordei fui dar uma volta pelos arredores à procura dos lugares por onde havia passado boa parte de minha infância. Ansioso, sai do Edifício Maria Joaquina, prédio que estava em fase inicial de construção quando nos mudamos e desci a Rua Cândido Mariano até a esquina da Pedro Celestino, do outo lado do antigo prédio do Banco da Lavoura de Minas Gerais onde meu pai foi gerente. A visão trouxe consigo a estranha sensação das mudanças nas dimensões das coisas, aquela que a gente só percebe quando volta a um lugar onde esteve na infância e se choca com as diferenças em relação à percepção espacial que ainda guardamos do passado. A edificação ainda transmitia sua imponência, mas perdera o gigantismo ante meus olhos de adolescente.

De onde estava pude rever pela primeira vez uma boa parte do meu passado de menino. Olhando para a esquerda, na sequência da Rua Pedro Celestino, busquei as casas do Roberto, do Willian e do Ivo, meus amigos que moravam por ali, e lá estavam elas. A do Roberto então, ainda mantinha sua porta alta e janelões em madeira pintada naquele vermelhão caindo para o vinho, bem característico das edificações da parte mais antiga da cidade. Virando para a direita, passei a vista pelo prédio do banco e encontrei a Praça Alencastro com a Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá aparecendo ao fundo. Estas duas estruturas guardavam em si os maiores impactos à minha visão. Quanta mudança!

A reforma na praça havia modificado radicalmente sua aparência e na Igreja então, meu Deus, o que significava aquilo, quanta diferença. Foi como se a tristeza chegasse com a realidade até meu coração.

Confesso que quando papai me disse que voltaríamos a morar em Cuiabá elas foram as primeiras recordações que vieram a minha memória. A proximidade da Igreja Matriz e a fé católica com que fomos educados nos fizeram frequentadores assíduos de suas instalações. Lá fiz minha primeira comunhão e juntamente com meus irmãos participei como coroinha nas suas missas e eventos tradicionais. Foi nela que aprendi as primeiras lições sobre a importância de Jesus em nossas vidas.

Já a Praça Alencastro, assim como a Praça da República, eu as tinha como os play-grounds da minha infância. Eram minhas principais referências de espaço relacionado à diversão principalmente quando as comparava com as praças das outras cidades onde morei em função das mudanças que fiz com meus pais. Eu as reconhecia como os lugares onde a alegria passeava, posto que estavam a alguns passos de onde morávamos.

Na antiga Praça Alencastro encontrava os amigos para combinar o que fazer, em seus bancos e largas muretas arredondadas trocávamos figurinhas de álbuns de futebol e jogávamos bafo, suas calçadas, coreto e chafariz eram por onde nos divertíamos a correr nas brincadeiras de pique, principalmente após a missa de domingo a noite. Lá reuníamos os amigos para ir ao Cine Teatro Cuiabá e depois, já em meados de 1965, ao Cine Tropical assistir aos filmes das matinês. Foi nela que busquei refúgio para os momentos de introspecção quando as indagações inocentes de minha infância começaram a aparecer. Passeando em suas calçadas conheci como muitos daqueles tempos minhas primeiras paixões.

Algum tempo depois, em 1965 ela foi totalmente desfigurada com a justificativa de lhe dar ares de modernidade, algo que nunca encontrou nem encontrará guarida nos corações dos cuiabanos mais antigos. Por mais que a fonte luminosa com suas águas coloridas dançantes fosse um atrativo aos olhos dos curiosos não substituiu o charme que o velho chafariz e o antigo coreto, hoje residindo desajeitado, mau usado e abandonado na Praça Ipiranga lhe davam. Tão pouco a retirada do Gasômetro será esquecida vez que seu valor histórico sequer foi considerado por aqueles que o demoliram, pois lá era seu lugar. Tudo sumiu da vista, mas não da memória e não foi suficiente recoloca-los onde hoje estão porque suas raízes ficaram para trás, enterradas como tudo que havia na antiga Praça Alencastro que reside no meu coração.

Muito antes daquela reforma o antigo Jardim Alencastro, depois Praça Alencastro, já era o ponto de encontro das famílias cuiabanas. Era lá que passeavam após a missa das sete da noite dos domingos para encontrar os amigos e namorar.

Descendo mais um pouco a Cândido estava a Rua do Meio onde morei naquele outro tempo que vivi em Cuiabá. Lembro que seu nome foi motivo de interesse peculiar quando aqui chegamos pela primeira no início dos anos sessenta. A curiosidade natural frente ao fato de a chamarem por um nome diferente daquele que estava nas placas fixadas nas paredes das casas das esquinas foi respondida por meu pai falando sobre a época da fundação do antigo vilarejo, quando os nomes do arruamento estavam diretamente relacionados às suas posições na malha urbana original do vila que se tornou cidade. Dai a razão pela qual ela ficou conhecida inicialmente como a Rua do Meio e depois recebeu outros nomes até ser finalmente denominada Rua Ricardo Franco. Em Cuiabá a forma antiga de chamamento das ruas sempre foi característica marcante, tanto quanto ao costume de apelidar as pessoas em função de alguma particularidade engraçada ou mesmo de sua família. Neste caso, a Rua do Meio era assim conhecida porque ficava entre a Rua de Baixo ou Galdino Pimentel e a Rua de Cima ou Pedro Celestino.

Estreita e pavimentada em paralelepípedo como quase todas as ruas da cidade naquela época a Rua do Meio era habitada em sua maioria por comerciantes que geralmente moravam nos fundos das lojas além de outros tipos de negócios nela instalados. Era uma mescla de origens muito interessante porque além dos cuiabanos nativos ali estavam, entre outros, turcos, sírios, libaneses chilenos, portugueses, japoneses e Lázaro Papazian ou Seu Chau, um fotografo de origem armênia muito conhecido e querido que recebeu este apelido graças a forma peculiar com que cumprimentava a todos. Nós morávamos em um dos apartamentos do prédio de três andares localizado bem em frente ao Foto Chau que naturalmente também era a residência da família Papazian.

Continuando minha busca de reminiscências me vi parado na frente da porta da casa da família Boabaid, bem na esquina da Rua Cândido com a Rua do Meio e com o Armazém Chileno do outro lado da rua. Ali tive de respirar fundo enquanto meus olhos piscavam quase no mesmo compasso com que meu acelerado coração palpitava. Dali para frente a Cândido Mariano ficava ainda mais estreita, praticamente um beco, com estreitíssimas calçadas seguindo em ladeira até a Rua de Baixo, passando pela Praça Caetano de Albuquerque até chegar ao Córrego da Prainha ou Avenida Tenente Coronel Duarte. Quando mudamos de Cuiabá a Prainha ainda era um córrego onde em dias de chuva era comum encontrar pessoas procurando por ouro nos cascalhos de seu leito, resultado da lavagem das ruas pelas águas das chuvas que desembocavam nas suas margens.

A esquerda de onde eu estava a Rua do Meio seguia e logo começava a fazer uma curva suave rumo a Rua de Cima o que impedia a visão de seu final. Para lá também moravam vários de meus amigos de infância, entre eles o Henrique (Urubu) e o Raul (Zezé) , o Tércio e o Beto (Cabeça de Melancia). Eu já falei sobre a mania dos cuiabanos com apelidos, o Beto e o Henrique são um exemplo típico dessa forma pitoresca e até amável de tratar as pessoas. Ao virar para o outro lado procurei alcançar com os olhos a Praça da República onde a rua tem seu início. Nesse momento meu coração que já estava agitado ficou ainda mais acelerado. É que avistei Dona Nana e Seu Raul Vieira vindo em minha direção, provavelmente haviam acabado de sair de sua residência e estavam a caminho da casa de seu filho Augusto Mário, pai de meus inseparáveis amigos Raul e Henrique. Como que dentro de uma moldura de quadro antigo lá também estavam Seu Chau e sua esposa Dona Adelaide que vinham a ser pais do Gonçalo Papazian e do Pedro, outros dos meus inesquecíveis amigos de infância. A Praça da República aparecia por detrás deles como pano de fundo.

Fiquei ali estático enquanto Dona Nana e Seu Raul passavam sorrindo sem saber quem era aquele rapazote magricela, sorridente e visivelmente emocionado que amavelmente os cumprimentava com um abaixar de cabeça. Esperei alguns instantes até a adrenalina baixar, voltei a respirar fundo e segui na direção da Praça da República.

Recuperando o fôlego fui ao encontro dos pais do Gonçalo, nossos vizinhos muito queridos, principalmente pela grande amizade de mamãe e Dona Adelaide. No Foto Chau assistimos muitas vezes aos filmes de desenho animado que o fotógrafo passava para seus filhos e a gurizada da rua. Dona Adelaide logo me reconheceu, percebi através de seus emocionados olhos umedecidos pelas lágrimas enquanto perguntava por meus pais.

Não foi difícil começar a me sentir novamente em casa, afinal os anos haviam se passado, mas tudo estava em seu antigo lugar. Seu Raul e Dona Nana, Seu Chau e Dona Adelaide, meus amigos, o prédio onde morei, o Foto Chau, a alfaiataria do Seu Pedroso, a Casa Carmem, o Bilhar do Pinheiro, os paralelepípedos do calçamento, quase tudo daquele trecho da Rua do Meio estava lá como eu a tinha na memória.

Naquela época a maioria das ruas de Cuiabá ainda guardava o pavimento em paralelepípedo, mas em alguns trechos já começavam a desaparecer cobertos pelo asfalto. O calçamento antigo estava sendo literalmente sepultado, assim como muitas outras características da cidade que ainda restavam em minha memória.

É interessante perceber a relação da cidade com seu calçamento. Certamente os mais antigos ainda se lembram de que a cidade era bem mais fresca e segura com as ruas em paralelepípedo. Asfaltá-las foi um equivoco que poucos administradores públicos aceitariam reconhecer. Além de prejudicar as questões de segurança e temperatura ambiental pavimentar as ruas do centro da cidade com asfalto desfigura sua história e pouco traz de benefício, exceto tornar a passagem dos veículos menos trepidante.

Salvo engano, naqueles tempos, exceto por um trecho da Avenida Getúlio Vargas até hoje pavimentada em concreto e um trecho da Rua Barão do Melgaço que havia sido pavimentado em blocos sextavados de concreto as outras eram de paralelepípedos ou em pedras cristal como o trecho da Rua Campo Grande entre a Igreja da Boa Morte e a rua Comandante Costa, na esquina onde morava seu Julio Müller.

A cidade era bem menos quente e por consequência da rudeza do piso tinha o transito mais lento ou como prefiro dizer, mais tranquilo. Eram outros tempos, outra vida e porque não dizer outra cultura, pois a cidade era praticamente só dos cuiabanos, de outros mato-grossenses que aqui viviam e de alguns paus rodados como eu e minha família.

Nós que vinhamos de fora e éramos chamados de “paus rodados” (no dizer da gente da terra ao nos relacionar às galhadas que descem pela correnteza do rio Cuiabá e acabam engastadas nas praias e no saranzal, vegetação típica das margens do rio que emprestou seu nome à cidade nascida em suas margens) e aqui encontramos um povo receptivo, alegre e na sua quase totalidade despossuído dos modos e mazelas dos grandes centros do sul-sudeste. Os costumes da cuiabania sempre foram bucolicamente tranquilos, eram hábitos locais sobre os quais muitos que para cá vieram não compreendiam de início.  – Para de ser violento, isso é coisa de dgente de fora, era o sonorizado modo de dizer tipicamente cuiabano quando se referiam a necessidade de fazer alguma coisa com pressa. Esta forma de se expressar pela voz é ainda preservada nos cuiabanos mais enraizados e lhes garante charme próprio no jeito de se comunicar, característica do amor e respeito às tradições locais.

A Praça da República, diferentemente da Alencastro não tinha coreto, mas sim um monumento, um pequeno obelisco de ferro representando a justiça e cercado de uma mureta circular. De seu setor central circular partiam alamedas que se interligavam a outros setores circulares menores localizados em cada canto de seus cantos onde existiam bancos com árvores a sombreá-los. Era nela que brincávamos a correr nas tardes de chuva para nos refrescar do calor típico da cidade nos dias de verão das férias de final de ano.

Cercado por prédios importantes como o dos Correios, o Palácio da Instrução, a Escola Modelo Barão do Melgaço, o Hotel Esplanada a Praça da República também determinava o início da Rua 13 de Junho, mas seu principal papel sempre foi o de fazer as vezes de Praça da Matriz, posto que em suas largas e baixas muretas serviam e ainda servem para as pessoas aguardarem o início das funções religiosas na Catedral Metropolitana de Cuiabá.

Aqui estou desde então.

Marcelo augusto Portocarrero – jan/2015

DIZEM QUE A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

DIZEM QUE A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

Quando finalmente nos conhecemos, ela diz ter tido uma péssima impressão a meu respeito. Na ocasião nós literalmente havíamos cercado as meninas em seu passeio de bicicleta bem na esquina das ruas Campo Grande com Barão de Melgaço, quase na frente da casa de Clarita.

Como era costume nos sábados pela manhã saí de casa na companhia de Henrique para dar umas voltas e nos dirigíamos à pracinha da Igreja Boa Morte para encontrar a turma e combinar o que fazer no resto do final de semana. Scalzile morava por ali e a frente se sua casa era nosso ponto de encontro.

No caminho, Henrique avistou um grupo de meninas passeando de bicicleta e entre elas viu Clarita. Havia se passado mais de um ano desde que havíamos falado sobre ela quando a mostrei da janela do apartamento onde eu morava na Praça Alencastro.

– Vamos lá, me apresenta, disse ele e assim fizemos. Passamos por elas bem devagar e Henrique, colocando a cabeça para fora do carro chamou por “Cleri”, com seu jeito peculiar de pronúncia.

As meninas pararam, mas não chegaram perto do carro, ficaram lá, à distância, olhando para nós até entender o que se passava e de quem se tratava. Só depois fomos apresentados.

– Cleri, este é Marcelo, amigo meu que quer te conhecer!

– Marcelo esta é Cleri!

Pairou então aquele lapso de tempo, silencioso, curioso e indeterminado que acontece nessas ocasiões.

– Olá, como vai? Disse eu.

– Prazer,… Clara Maria e complementou a apresentação com um sonoro tchau!

Foi assim, curto e rápido, ocasionado principalmente pela natural timidez e recato de Clarita, características que a acompanham até agora.

O rosto continuava angelical, mas a agora adolescente estava ainda mais radiante. Seus cabelos presos mantinham a franja esvoaçante, marca registrada desde criança como mostram as fotos de família. Clarita havia crescido e foi assim que ouvi sua voz pela primeira vez. Clarita, seu apelido sempre fez mais justiça a ela. A sonoridade do apelido traduz com correção sua personalidade.

Sua primeira impressão a meu respeito não foi nada boa. Afinal quem era aquele sujeito magricelo, cabeludo, barba por fazer, com espinhas no rosto e acima de tudo petulante, a ponto de cortar nosso caminho bem em frente ao portão de minha casa. O que Henrique está pensando quando vem me apresentar essa pessoa com a conversa mole de que ele queria me conhecer!

Foi assim rápido e marcante. Para mim em um sentido, para ela em outro. O que importa é que o tempo nunca apagou aquele momento de nossas memórias.

Na versão de Clarita, eu a olhei de cima embaixo com a expressão de quem concentra a visão buscando mais os detalhes fisiológicos que os aspectos sociais de uma apresentação. Quando nossos olhares se cruzaram ela já demonstrava sua irritação, e a palavra prazer veio logo acompanhada de um seco tchau, determinando o final de nossa curta conversa.

Ferrou Marcelo, ela não gostou nadinha de você! Disse Henrique com seu sorriso irônico e fomos nos encontrar com o pessoal na frente da casa do Scal.

Só voltei a encontrá-la novamente no ano seguinte quando ela passou a estudar na Escola Técnica Federal, onde eu já era aluno. Foi no intervalo das aulas que a vi em um grupo de novas alunas, todas vindas do Colégio Coração de Jesus. Clarita estava radiante, tinha os cabelos presos de um jeito que pareciam soltos, onde parecia que apenas uma pequena quantidade vinda das laterais passava por uma presilha atrás da cabeça.Vimo-nos quase que ao mesmo tempo e foi bastante intensa aquela nossa troca de olhares, deu para sentir o coração bater descompassado e os milésimos de segundos passarem lentamente, bem diferente da nosso primeiro encontro. Com certeza ela se lembrou de mim, restava saber se isto era bom ou ruim e só tinha um jeito de saber.

Decidi me aproximar enquanto elas conversavam distraídas, exceto Clarita que me acompanhava com os cantos dos olhos, passei ao lado dando um oi geral, mas olhando somente para ela, segui em frente e após me afastar alguns passos pude ouvir um longo “hummmm”, acompanhado do murmurinho que denunciou sua reação ao meu comprimento.

No final das aulas daquele dia fiquei aguardando por ela no portão de saída da escola. Daquela vez, sem desvios, nos olhamos por alguns segundos, o suficiente para ter certeza que sua segunda impressão a meu respeito era outra.

A primeira impressão não havia ficado…

Marcelo Augusto Portocarrero – 28/10/2013

CLARITA MENINA

CRONICA – I

CLARITA MENINA

Sempre ao final da tarde, caminhando lentamente, como que distraída, mas sempre atenta a tudo, ela descia a rua rumo à padaria que ficava do outro lado da Praça Alencastro. Nesta hora de fim de tarde, o pão quentinho estava saindo dos fornos das padarias para compor o lanche da tarde das famílias cuiabanas.

Às vezes Clarita vinha acompanhada de uma de suas irmãs, mas quase sempre estava só. É que também era hora do banho, assim ela, como a mais velha da prole, tinha a função de buscar o pão e o maço de cigarros do pai. Para muitas crianças essa tarefa parecia mesmo chata. Não para ela. Desde cedo Clarita gostava das saídas e toda oportunidade era encarada como um passeio, nunca como uma coisa enfadonha, bastava olhar seu jeito alegre de ser para logo perceber isto.

Eu a vi assim na primeira vez, quando retornamos para Cuiabá, passados 10 anos desde que havíamos nos mudado daqui. Estávamos acabando de nos instalar em um dos apartamentos do Edifício Maria Joaquina, bem de frente para a Praça Alencastro, esquina das ruas Candido Mariano e Pedro Celestino. Da janela dava para ver a praça em toda sua extensão e os prédios que ficavam no entorno. Lá estava a Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá, meio destruída ou meio acabada, ponto de vista que dependia de quem fosse a favor da construção da nova igreja ou da preservação da antiga edificação. Dava para ver também prédio do BEMAT (Banco do Estado de Mato Grosso), o Palácio Alencastro, sede do Governo Estadual e outras tantas edificações, entre elas a padaria.

Voltando a minha primeira visão de Clarita, lembro que na ocasião estava acompanhado de um amigo para quem perguntei se sabia quem era aquela menina que tanto chamava minha atenção. Recordo também que a pergunta foi acompanhada de uma expressão referente ao futuro, algo como que prevendo ou mesmo premeditando nossa vida em comum.

Henrique, em seu modo peculiar de pronunciar certar palavras, disse se tratar de sua amiga “Cleri”, era assim mesmo que ele pronunciava seu nome, e mostrou que da área de serviço do apartamento onde estávamos dava para ver onde ela morava. De lá avistamos um enorme quintal, encravado bem no meio da quadra formada pelas ruas Candido Mariano, Pedro Celestino, Campo Grande e Barão do Melgaço. Por esta última se chegava ao portão daquele belo espaço que tinha a casa em sua área central. Um verdadeiro parque de diversões, que muito tempo depois nossos filhos também puderam desfrutar, mas este é outro assunto.

Silhueta esguia, quase sempre de shortinho xadrez a pequena Clara Maria ou Clarita, tinha os cabelos castanhos ondulados e compridos presos em rabo de cavalo, deixando uma pequena franja solta ao vento. A pele clara, como que confirmando seu próprio nome, já emprestava a seu rosto a beleza suave e ao mesmo tempo irradiante. Seus olhos ágeis buscavam captar ao mesmo tempo tudo que se passava ao redor não lhe permitindo se concentrar mais que alguns décimos de segundo em cada imagem. A ela não interessavam os detalhes, mas sim o todo, o conjunto. Por isso não me percebia na paisagem. Naquele tempo eu era apenas uma pessoa a passar, ninguém a merecer sua atenção de menina, o que permitiu vê-la como descrevo agora.

Marcelo Augusto Portocarrero- 25/10/2013

A PERMISSIVIDADE ESTÁ NOS LEVANDO AO DESRESPEITO

A PERMISSIVIDADE ESTÁ NOS LEVANDO AO DESRESPEITO

Todas as vezes que somos tolerantes com situações as quais sabemos estar erradas somos permissivos.

É o que acontece quando observamos nosso comportamento em relação ao transito. Quanto a este assunto somos pródigos em permissividade.

A cada esquina nos a praticamos e vemos ser praticada abertamente. Seja na calçada ou na rua somos permissivos a todo instante. A total falta de respeito a que estamos sujeitos assusta e, consequentemente, mata. Acredite, a falta de respeito no transito é considerada por muitos um equívoco permissível.

Triste verdade até para os que se dizem bem instruídos. Sejamos nós de qualquer credo, raça ou situação social, ninguém respeita nada quando se trata de transito. Neste quesito todos queremos mais é ganhar tempo, como se agindo assim levássemos vantagem.

Sinceramente, é melhor reconhecer que não respeitamos nada, ante assumir que não aprendemos tudo. O resultado disto é o estado de permissividade com que nos habituamos conviver.

A começar como pedestres. Como pedestres, invariavelmente atravessamos as ruas em qualquer lugar. Para nós as faixas exclusivas são um estorvo que se prestam mais à perda de tempo.

O que dizer de nosso comportamento como usuários de transporte coletivo. Aí então, somos mais que pródigos no desrespeito a tudo e a todos. Para que esperar o ônibus no ponto de parada? Eles não costumam parar lá mesmo. Para as empresas concessionárias a parada obrigatória é uma mera formalidade, já que o sinal de transito fica bem ali na esquina e é lá que eles eventualmente param. Dai, aproveitarmos a oportunidade porque os motoristas abrem as portas tanto para quem quiser subir, como para quem quiser descer. Esta situação está tão imiscuída em nossas mentes que chegamos a reclamar quando não acontece. Não é um primor de permissividade?

Quando nos dispomos ir ao ponto de ônibus o agravante é que não vamos com a intenção de respeitar as prioridades. Nestas ocasiões vale a Lei de Gerson, aplicada pelos que primeiro correm para chegar à porta do coletivo. O pior é que o motorista vai abrir a porta para estes cidadãos exemplares de qualquer jeito. Danem-se os que ficaram no “lugar certo” do ponto, Danem-se os mais velhos, danem-se aqueles com problema de locomoção, as grávidas, mães e pais acompanhados de seus filhos menores. Danem-se todos. Que esperem o próximo ônibus!  Olha a permissividade ai, ainda mais escancarada.

Motoqueiros e ciclistas. Nestas condições, como temos certeza da impunidade seguimos rua a fora na contramão, em cima da calçada e sem dar muita importância aos sinais de transito. Aos motoqueiros e ciclista tudo é permitido,… ou será permissível? Sinal de transito é para otários. Quanto à calçada, esse espaço é nosso terreno desde sempre, os pedestres que se danem ou saiam da frente. Pra que faixas exclusivas se nós só a utilizamos quando não estamos com pressa ou passeando nos feriados e finais de semana.

Como as leis de transito consideram os veículos com quatro ou mais rodas os responsáveis pelas vidas dos mais frágeis (nestes casos os pedestres, ciclistas, motoqueiros e passageiros), cabe a eles a obrigação de dirigir para si e para todos. Pois é justamente ai que mora o maior perigo.

Alguém discorda que ao pedestre, ao ciclista e ao motoqueiro tudo e permissível?

Motoristas. Sejam condutores de veículos pequenos ou grandes, particulares ou públicos, quando dirigindo não respeitam nada que não se mostre perigoso aos seus raciocínios permissivistas.

Vejamos um caso emblemático e corriqueiro.

O sinal de transito. Quando nos deparamos como o sinal amarelo ao invés de reduzirmos a velocidade para parar antes da faixa de pedestre, é quase certo que vamos acelerar para passar antes que fique vermelho. A sensação é a de que estamos em uma corrida onde o cruzamento é a linha de chagada e precisamos atravessá-la antes que o sinal feche para ganhar o grande prêmio. Nesta ocasião nossa inversão de valores morais nos faz acreditar que ao passarmos por último seremos os primeiros, os vencedores da corrida contra a hipotética perda de tempo.

Chega a ter torcida dentro do carro, com os passageiros gritando vai, vai, vai que dá… e assim vamos. Incrível e tragicômicamente quase sempre optamos por furar o sinal. Afinal, seria uma perda de tempo inconcebível aguardar o momento correto de ir em frente. Egoisticamente alguns segundos são mais importantes para nós que nossas próprias vidas, que dizer a dos outros.

É triste constatar, mas a permissividade generalizada coloca em risco tudo e todos.

Esta situação é resultado da contaminação pela permissividade existente nos poderes executivo, legislativo e judiciário (em letras minúsculas mesmo, pois assim o são). O pior é que somos estimulados por eles à permissividade quando coíbem a aplicação das leis em benefício de seus mandatos. Basta lembrar o que aconteceu nas manifestações públicas recentes e que continua a  acontecer em qualquer dessas ocasiões que permeiam pelo país afora. Ao manifestante tudo foi e é permitido, afinal trata-se de manifestação espontânea de desagrado com o estado de permissividade reinante. Pelo visto, uma permissividade leva a outra.

Vejamos a situação em que a educação do Brasil se encontra. O conhecimento e a cultura parecem estar sendo transmitidos por uma espécie de difusão por osmose, como se para tanto bastasse frequentar as salas de aulas. Aos alunos tudo é permitido. Estes não podem ser coibidos na pratica de sua criatividade, seja ela construtiva ou destrutiva e pior, não podem repetir o ano letivo. Nossos jovens estão sendo empurrados para frente atendendo a necessidade de melhorar as estatísticas do setor.

Onde foi parar o respeito aos professores e a disciplina? Estes temas não são mais prioridade. Sem respeito e disciplina nada resta senão a falta de educação. Situação esta constatada na qualidade dos homens e mulheres que estamos formando. Há exceções, quando deveriam ser a regra.

O que dizer da saúde, onde permitimos que os parcos recursos sejam destinados a investimentos que priorizam a construções de hospitais megalômanos, preferencialmente implantados nos grandes centros urbanos em detrimento das pequenas unidades hospitalares que, se construídas mais próximas das populações localizadas no interior dos estados resolveriam a maior parte das carências deste setor e, por incrível que possa parecer, trariam benefícios até para os políticos em troca de favores financeiros e eleitorais.

De maneira geral, é isto que acontece com os investimentos públicos quando da contratação de obras públicas voltadas ás instalações e prédios próprios.

A cada dia vemos serem construído suntuosos castelos onde reinam suas excelências para nada ou muito pouco devolverem em troca. Aos milhões gastos na exuberância das edificações públicas sobram centavos destinados à saúde e educação.

No país onde tudo é permissível, o que mais podemos esperar. Respeito?

Marcelo Augusto Portocarrero

Em 27-09-2015.

 

QUANDO OLHO PARA TRÁS

QUANDO OLHO PARA TRÁS

Quando olho para trás,
Percebo a verdade do tempo, que passou gentil, até bondoso em seus instantes.

Quando olho para trás,
Vejo que Ele escreveu este romance com ternura para a cumplicidade dos amantes.

Quando olho para trás,
Sinto que ficaram marcas, mas somente as boas, aquelas que nasceram e vivem em nossos corações.

Quando olho para trás,
Sei que testemunhas existem, basta ver a ternura dos filhos, frutos nascidos no pomar de nossa paixão.

Quando olho para trás,
Recordo a história de duas almas gêmeas, que nasceram distantes e qual amálgama tornaram-se uma só, fundidas pelo amor.

Quando olho para trás,
Volta em minha memória o esforço conjunto no percurso da estrada para vencermos o vazio do futuro desconhecido.

Quando olho para trás,
Refaço nosso caminho percorrido quando um iluminava e o outro guiava os passos seguidos juntos até agora.

Quando olho para trás,
Não há como não pensar no que vem pela frente tendo a certeza de que tudo será bom, vida afora, sempre com você.

Marcelo Augusto Portocarrero 17/02/2016 (Para Clarita, com todo o meu amor)

EU TE AGRADEÇO SENHOR

Eu te agradeço Senhor

Eu te agradeço Senhor,

Pelas Almas que nos destes e pelos corpos com que as vestes.

Eu te agradeço Senhor,

Por nos mostrar que para ter fé é preciso antes acreditar.

Eu te agradeço Senhor,

Por nos fazer entender que o amor que recebermos é fruto da nossa capacidade de amar.

Eu te agradeço Senhor

Por iluminares nosso caminho e por guiares nossos passos ao percorrê-lo.

Eu te agradeço Senhor

Por termos aonde ir e por estarmos onde estamos.

Eu te agradeço Senhor,

Por chegarmos aonde chegamos e por podermos ir onde quisermos.

Eu te agradeço Senhor,

Por dar razão a nossas vidas e nos fazer entender que sem Ti nada tem sentido.

Eu te agradeço Senhor,

Por tuas bênçãos que protegem nossos corpos e acalentam nossas almas.

Eu te agradeço Senhor, enfim,

Por sermos quem somos e termos que temos.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

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ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

Nas décadas de 60 e 70 o centro de Cuiabá era uma mistura de residências, comércio e serviços, além, naturalmente, dos prédios públicos municipais e estaduais, razão de ser da capital, onde tudo acontecia em torno da Igreja Matriz Catedral do Bom Jesus e demais igrejas não menos importantes. Herança do modelo de povoado que cresceu com sua origem em um garimpo e dos costumes europeus trazido para estas bandas pelos colonizadores portugueses através das “Entradas e Bandeiras”.

Diz a história, vieram bater aqui a cata de índios para escravizar e se depararam como o ouro aflorando nos pedregulhos do Rio Coxipó e Córrego da Prainha. O mesmo enredo conta que ao indagar por locais onde houvesse mais daquelas pedras amareladas foram então primeiro apresentados aos favos de mel do serrado para, só depois, ao ouro do que seriam as lavras do Sutil. Essa historia virou até enredo da Escola de Samba Mocidade Independente Universitária, dos bons tempos do Carnaval de Rua em Cuiabá.

O paralelepípedo ainda predominava no calçamento das ruas do centro, exceto pelo trecho da Avenida Getúlio Vargas na altura do Colégio Estadual. Durante o dia as calçadas eram somente dos pedestres, sem o atrapalho de barraquinhas e vendedores ambulantes. Naquela época, apenas vendedores de peixe, frutas e verduras, em seus carrinhos de madeira ou mesmo cavalo e carroças, perambulavam pelas ruas atendendo clientela certa e encomendas. Quando em vez passava alguém vendendo pixé, pirulitos, picolés e quebra-queixo.

Já o leite, este era preferencialmente buscado nas casas dos produtores. Exemplo do saudoso Júlio Müller, no casarão da família, na esquina da Rua Campo Grande com a Comandante Costa. Quem chegasse por lá para buscar leite era premiado, dependendo da época, com bocaiúvas, jabuticabas ou nacos de rapadura das mãos dele mesmo, do Seu Júlio.

O que mais importava era se divertir com a gurizada. Aproveitávamos qualquer oportunidade para passear de bicicleta, fazendo percursos pelas praças e ruas pouco movimentadas, principalmente nos fins de semana, desfrutando da temperatura amena das manhãs.

Outra diversão era esperar pela chuva do fim de tarde e correr para as Praças da República. Ipiranga e Alencastro para refrescar o calor do corpo. Era uma algazarra só, jogávamos bola, queimada, bolita (bola de gude para os paus rodados), pião e bafo. Brincamos de capa-espada, car-men (assim apelidada a brincadeira de bandido x mocinho) pegador e esconde-esconde, estas preferencialmente em volta do coreto da Alencastro.

Antes do fim da tarde de domingo não dava para perder o Cine Teatro Cuiabá, mesmo que o filme fosse repetido. A intenção maior era mesmo aproveitar a chance de trocar figurinhas e gibis com a gurizada que vinha assistir a matinê. Finalizando os fins de semana tínhamos os passeios pelas calçadas da Praça Alencastro, logo após a última missa do domingo.

Assim eram os meninos das ruas do Meio, de Cima e de Baixo. Só quem estava lá pôde aproveitar. Quem não foi coroinha não sabe da missa metade.

Pois é, acabou-se o que era doce.

Marcelo Augusto Portocarrero – 17/02/2016