Entre o VLT, o BRT e a Paciência do Cuiabano

Após anos de institucionalização da corrupção, chegamos a um ponto em que o suborno, parece, passou a ser um elemento considerado aceitável nas preliminares dos processos de contratação de obras e serviços públicos. Nestes, os desvios éticos e morais são fruto da paulatina introdução da chamada “Lei de Gerson”, em que a resposta à pergunta “o que é que eu ganho com isso?” passou a ser parte integrante de negociatas de contratação, emendas parlamentares e até mesmo nos julgamentos sobre o uso do erário.

Aqui, em nossa calorosa capital, há um exemplo claro disso. Basta olhar com atenção, ou seja, ler o que está descrito abaixo, de preferência com os mesmos olhos que leram o que está acima, para presumir que isso tenha ocorrido com os contratos das obras e serviços voltados à realização da última Copa do Mundo no Brasil. Deparamo-nos, então, com o VLT, que virou BRT e que ainda poderá ser modificado, dependendo das articulações sobre o que transitará pela impoluta, reforçada e resistente pista de concreto especial, em implantação na quase totalidade de seu sistema troncal, exceto …é, tem um “exceto”, num trecho que não será pavimentado dessa forma.

Para mim e, creio, para os futuros usuários do sistema e cuiabanos em geral, seja qual for o modal adotado, o trecho central da cidade — a Avenida Coronel Duarte, nossa Prainha —, comenta-se, não receberá o pavimento em concreto de alta durabilidade destinado ao transito das composições (uso aqui o termo genérico, “composição”, porque até agora não se sabe exatamente qual será o tipo de veículo de transporte). Pois é, dizem que o pavimento a ser utilizado é uma questão de ajuste de orçamento ou, quem sabe, de cara de pau.

Teria sido desconsiderado que o canalizado Córrego da Prainha passa exatamente por baixo desse bendito trecho e que, por isso mesmo, precisaria de um projeto específico, de difícil execução e, consequentemente, demorado para ser implantado? Teria sido isso ou é a pressa em entregar uma obra, mesmo que inadequadamente concluída, em um ano de eleições?

Quem não se lembra da mesma pressa em entregar a urbanização da margem cuiabana do rio que empresta seu nome à cidade, a Avenida Beira Rio? É, essa mesma: aquela que está desmoronando, que tem boa parte interditada devido ao risco de queda a qualquer momento, fruto da má execução e da falta de manutenção preventiva; que, desde a inauguração, tem o piso trincado, soltando e caindo. Quem terá sido o “apressadinho” que fez aquela porcaria? Um problemão que, desde então, passou por duas administrações municipais, entrou na terceira e chegou a 2026 sem solução.

Vamos deixar acontecer o mesmo com o BRT, ou no que quer que vire essa obra de mobilidade urbana inacabada? Ela é a maior dívida pública do governo do Estado de Mato Grosso para com sua Capital, e já dura mais de 15 anos.

Haja paciência!

Princípios: a Bússula para a Governança

O que nos move, ou deveria nos mover, são os princípios!

Os princípios são fundamentos, regras indispensáveis, motivadoras e guias para o início de qualquer ação pessoal ou organizacional, principalmente em se tratando de contextos como a política e a administração pública. A simples leitura do conceito sugere que os princípios são as bases sobre as quais devem ser tomadas decisões e escolhas, o que deveria determinar o afastamento definitivo de interesses pessoais ou escusos. Portanto, espero que o texto a seguir seja entendido como um lembrete de que preceitos fundamentais, como a justiça, a igualdade e a transparência, são prioritários em qualquer circunstância.

Assim, princípios como ética, moral e conduta são importantes para estabelecer padrões comportamentais, avaliar situações e decidir o que fazer, desde que sejam coerentes com os valores e objetivos de um indivíduo, grupo, organização ou país. Quando citamos ética, moral e conduta, os exemplos que logo nos vêm ao pensamento são: honestidade, integridade, respeito, justiça e responsabilidade.

Os princípios tidos como essenciais variam conforme o contexto, a cultura ou a área de atuação. Os acima citados são comuns a praticamente qualquer circunstância; no entanto, há muitos outros, como no caso da Declaração Universal dos Direitos Humanos, na qual os princípios fundamentais incluem a dignidade, a igualdade e a liberdade. Da mesma forma, nas questões éticas profissionais, a confidencialidade, a imparcialidade e a competência são exigências primordiais.

Já na política, os princípios fundamentais variam de acordo com o sistema e a ideologia, conforme os exemplos a seguir:

  • Democracia: governo do povo, pelo povo e para o povo.
  • Liberdade: proteção dos direitos individuais e das liberdades civis.
  • Igualdade: igualdade de direitos e oportunidades para todos.
  • Justiça: justiça social e igualdade perante a lei.
  • Responsabilidade: dever do governo perante o povo.
  • Transparência: clareza na gestão pública e na tomada de decisões.
  • Participação: engajamento cidadão nas decisões políticas.

No caso da nossa Constituição Federal de 1988, os princípios fundamentais incluem, entre outros: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o pluralismo político.

Chegamos, então, ao Princípio da Harmonia e Independência dos Poderes, também aplicado à Administração Pública para garantir que os três poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário — atuem de forma independente e sem hierarquia, evitando a concentração de poder. Somam-se a isso os Princípios da Administração Pública (LIMPE): Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, que deveriam garantir a harmonia e a complementaridade entre os poderes, além de assegurar a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos.

No entanto, as mudanças comportamentais advindas de processos progressistas, em contraposição aos fundamentos conservadores contidos nos princípios considerados nesta análise, estão tensionando as regras e valores acima citados. Isso põe em dúvida se o sub-título deste artigo — “O que nos move ou deveria nos mover são os princípios” — é um reflexo da realidade política atual no Brasil ou apenas um ideal a ser alcançado.

Ambas as situações parecem relevantes ao se considerar o conjunto de circunstâncias atuais. O Brasil atravessa um período de grandes desafios, como crise política e economia estagnada — esta última devido à falta de garantias para novos investimentos —, além da necessidade de reformas estruturais em um ano em que distrações como o Carnaval, a Copa do Mundo e as eleições estarão presentes. Nesse contexto, é fundamental que os líderes políticos e a sociedade sejam guiados por princípios sólidos. A ausência destes pode levar a decisões errôneas que prejudicam o país coletivamente. Além disso, o mundo enfrenta desafios globais, como desigualdade econômica, disputas territoriais, guerras e terrorismo, o que exige compreensão, cooperação e princípios compartilhados para que possam ser superados.

Todo ano é um bom ano.

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“A vida, se bem empregada, é suficientemente longa.” (Sêneca)

É preciso aprender a viver com o que nos é dado a cada dia, não importa se por Deus, em quem creio, se por outra entidade na qual você acredite ou por alguma outra razão, no entender de quem não crê em uma Divindade Criadora.

É preciso haver satisfação no que se faz durante esse interregno – que se repete um após o outro – infinito e indiferente a cada um de nós, a cada coisa e a cada situação.

A vida é longa se você souber como usá-la, disse Sêneca. Seguindo seu ensinamento, não podemos desperdiçá-la no correr do dia. É preciso bem viver cada dia sem se preocupar quantos serão, mas sim com o que nos permitirem, com o que de bom e bem aproveitarmos para nele fazer.

Façamos dos dias oportunidades para resolver as questões que nos afligem, ocasiões para dizer a quem amamos que os amamos, para deixar de lado aquilo que nos perturba e, com isso, prepararmos bons amanhãs.

Todo dia existe para que aprendamos algo de bom, aperfeiçoemos nossas qualidades e preparemos um novo dia, ou seja, o futuro.

Assim, quando a morte chegar, já terá sido adiada o suficiente, não importa quão pouco ou muito tenhamos vivido. Ela também não precisará ser explicada ou esperada, por isso não haverá motivo para temê-la.

Todo dia é um bom dia, assim como todo ano é um bom ano. Só precisamos entendê-lo como oportunidade para fazer o bem.

Pois é! Se já é difícil entender a vida, ainda mais será encontrar explicação para a morte.

Sêneca foi um filósofo estoico que defendia que a qualidade da vida importa mais que sua duração. Este texto busca aplicar essa sabedoria ao nosso cotidiano atual.

A Ilusão Política

Este texto é uma reflexão honesta sobre autorresponsabilidade e a diferença fundamental entre o ato de errar e a reação diante das suas consequências.

“A diferença entre quem erra e corrige o erro e quem erra e permanece nele é a mesma entre quem faz ‘caca’ e senta em cima e quem sabe limpar a bunda. O pior é que todo mundo percebe; basta usar um dos sentidos para notar.”

Várias situações sustentam esse pensamento. Entre elas, a ilusão de quem acha que consegue esconder um erro — quem faz ‘caca’ — acreditando que, ao ocultar o ato ou se recusar a admiti-lo, ele deixará de existir. No entanto, os sentidos não costumam enganar. O “mau cheiro” contamina o ambiente, afeta as relações e destrói a confiança. O erro admitido é um problema; o erro escondido é um desvio de caráter.

Aquele que desenvolve resiliência e humildade reconhece o erro e reage positivamente ao buscar formas de resolvê-lo, saindo da situação mais experiente. Por outro lado, quem permanece no erro fica estagnado, gastando mais energia para sustentar a farsa ou negar a realidade do que gastaria para corrigi-la.

Do ponto de vista social — observando o que acontece ao nosso redor — percebe-se que em qualquer grupo (familiar, profissional ou social) todos notam quando alguém está “sentado sobre o erro”. O silêncio alheio nem sempre significa ignorância; muitas vezes é apenas o tempo necessário para que o sujeito perca, aos poucos, toda a sua credibilidade. No fim das contas, a limpeza do que se fez exige coragem, pois obriga o indivíduo a encarar a própria sujeira.

No cenário político, essa analogia é ainda mais poderosa. O “sentar em cima” é, na maioria das vezes, uma estratégia deliberada de negação para manter o apoio do eleitorado. Quando focamos na falta de atenção ao votar, a frase atua como um alerta contra a complacência. Resumindo: errar é humano, mas persistir no erro é uma escolha. Nesse ambiente, quem não corrige o erro contamina todo o resto. E o pior: o eleitor nem sempre percebe isso de imediato.

Em política, o erro raramente nasce da ignorância; costuma ser uma escolha baseada em orgulho ou conveniência. Nela, “sentar em cima” representa a negação de escândalos, a manutenção de alianças espúrias e a insistência em projetos fracassados. O eleitor pode até ignorar os fatos, mas não consegue escapar das consequências: o “mau cheiro” da gestão pública no dia a dia.

Na brasileira, quando um representante comete um equívoco — seja por má gestão, corrupção ou incompetência — a estratégia comum não é a correção, mas a negação sistemática através de narrativas acreditando que, se ignorar o problema, o povo também o fará. O que deveria ser um erro de cálculo óbvio já que a inflação, a insegurança e o mau serviço público são sentidos por todos, infelizmente nem sempre é compreendido pelo público.

O eleitor que ignora esses sinais sensoriais, muitas vezes por falta de base educacional, e vota novamente em quem não corrige os próprios erros, torna-se cúmplice da estagnação. Corrigir o curso é o que separa o líder do oportunista.

Em qualquer situação, nenhum erro se apaga com o tempo; eles apenas se acumulam até que o ambiente se torne insuportável. “Limpar a própria bunda”, neste contexto, significa ter a humildade de mudar a rota quando ela se prova desastrosa. Quem não tem competência para reconhecer e limpar as porcarias que faz, não serve para liderar. Qualquer liderança baseada nisso não passa de uma perigosa ilusão.

A diferença entre o erro corrigido e o erro persistente é a mesma entre a honestidade e o cinismo.