A PERMISSIVIDADE ESTÁ NOS LEVANDO AO DESRESPEITO
Todas as vezes que somos tolerantes com situações as quais sabemos estar erradas somos permissivos.
É o que acontece quando observamos nosso comportamento em relação ao transito. Quanto a este assunto somos pródigos em permissividade.
A cada esquina nos a praticamos e vemos ser praticada abertamente. Seja na calçada ou na rua somos permissivos a todo instante. A total falta de respeito a que estamos sujeitos assusta e, consequentemente, mata. Acredite, a falta de respeito no transito é considerada por muitos um equívoco permissível.
Triste verdade até para os que se dizem bem instruídos. Sejamos nós de qualquer credo, raça ou situação social, ninguém respeita nada quando se trata de transito. Neste quesito todos queremos mais é ganhar tempo, como se agindo assim levássemos vantagem.
Sinceramente, é melhor reconhecer que não respeitamos nada, ante assumir que não aprendemos tudo. O resultado disto é o estado de permissividade com que nos habituamos conviver.
A começar como pedestres. Como pedestres, invariavelmente atravessamos as ruas em qualquer lugar. Para nós as faixas exclusivas são um estorvo que se prestam mais à perda de tempo.
O que dizer de nosso comportamento como usuários de transporte coletivo. Aí então, somos mais que pródigos no desrespeito a tudo e a todos. Para que esperar o ônibus no ponto de parada? Eles não costumam parar lá mesmo. Para as empresas concessionárias a parada obrigatória é uma mera formalidade, já que o sinal de transito fica bem ali na esquina e é lá que eles eventualmente param. Dai, aproveitarmos a oportunidade porque os motoristas abrem as portas tanto para quem quiser subir, como para quem quiser descer. Esta situação está tão imiscuída em nossas mentes que chegamos a reclamar quando não acontece. Não é um primor de permissividade?
Quando nos dispomos ir ao ponto de ônibus o agravante é que não vamos com a intenção de respeitar as prioridades. Nestas ocasiões vale a Lei de Gerson, aplicada pelos que primeiro correm para chegar à porta do coletivo. O pior é que o motorista vai abrir a porta para estes cidadãos exemplares de qualquer jeito. Danem-se os que ficaram no “lugar certo” do ponto, Danem-se os mais velhos, danem-se aqueles com problema de locomoção, as grávidas, mães e pais acompanhados de seus filhos menores. Danem-se todos. Que esperem o próximo ônibus! Olha a permissividade ai, ainda mais escancarada.
Motoqueiros e ciclistas. Nestas condições, como temos certeza da impunidade seguimos rua a fora na contramão, em cima da calçada e sem dar muita importância aos sinais de transito. Aos motoqueiros e ciclista tudo é permitido,… ou será permissível? Sinal de transito é para otários. Quanto à calçada, esse espaço é nosso terreno desde sempre, os pedestres que se danem ou saiam da frente. Pra que faixas exclusivas se nós só a utilizamos quando não estamos com pressa ou passeando nos feriados e finais de semana.
Como as leis de transito consideram os veículos com quatro ou mais rodas os responsáveis pelas vidas dos mais frágeis (nestes casos os pedestres, ciclistas, motoqueiros e passageiros), cabe a eles a obrigação de dirigir para si e para todos. Pois é justamente ai que mora o maior perigo.
Alguém discorda que ao pedestre, ao ciclista e ao motoqueiro tudo e permissível?
Motoristas. Sejam condutores de veículos pequenos ou grandes, particulares ou públicos, quando dirigindo não respeitam nada que não se mostre perigoso aos seus raciocínios permissivistas.
Vejamos um caso emblemático e corriqueiro.
O sinal de transito. Quando nos deparamos como o sinal amarelo ao invés de reduzirmos a velocidade para parar antes da faixa de pedestre, é quase certo que vamos acelerar para passar antes que fique vermelho. A sensação é a de que estamos em uma corrida onde o cruzamento é a linha de chagada e precisamos atravessá-la antes que o sinal feche para ganhar o grande prêmio. Nesta ocasião nossa inversão de valores morais nos faz acreditar que ao passarmos por último seremos os primeiros, os vencedores da corrida contra a hipotética perda de tempo.
Chega a ter torcida dentro do carro, com os passageiros gritando vai, vai, vai que dá… e assim vamos. Incrível e tragicômicamente quase sempre optamos por furar o sinal. Afinal, seria uma perda de tempo inconcebível aguardar o momento correto de ir em frente. Egoisticamente alguns segundos são mais importantes para nós que nossas próprias vidas, que dizer a dos outros.
É triste constatar, mas a permissividade generalizada coloca em risco tudo e todos.
Esta situação é resultado da contaminação pela permissividade existente nos poderes executivo, legislativo e judiciário (em letras minúsculas mesmo, pois assim o são). O pior é que somos estimulados por eles à permissividade quando coíbem a aplicação das leis em benefício de seus mandatos. Basta lembrar o que aconteceu nas manifestações públicas recentes e que continua a acontecer em qualquer dessas ocasiões que permeiam pelo país afora. Ao manifestante tudo foi e é permitido, afinal trata-se de manifestação espontânea de desagrado com o estado de permissividade reinante. Pelo visto, uma permissividade leva a outra.
Vejamos a situação em que a educação do Brasil se encontra. O conhecimento e a cultura parecem estar sendo transmitidos por uma espécie de difusão por osmose, como se para tanto bastasse frequentar as salas de aulas. Aos alunos tudo é permitido. Estes não podem ser coibidos na pratica de sua criatividade, seja ela construtiva ou destrutiva e pior, não podem repetir o ano letivo. Nossos jovens estão sendo empurrados para frente atendendo a necessidade de melhorar as estatísticas do setor.
Onde foi parar o respeito aos professores e a disciplina? Estes temas não são mais prioridade. Sem respeito e disciplina nada resta senão a falta de educação. Situação esta constatada na qualidade dos homens e mulheres que estamos formando. Há exceções, quando deveriam ser a regra.
O que dizer da saúde, onde permitimos que os parcos recursos sejam destinados a investimentos que priorizam a construções de hospitais megalômanos, preferencialmente implantados nos grandes centros urbanos em detrimento das pequenas unidades hospitalares que, se construídas mais próximas das populações localizadas no interior dos estados resolveriam a maior parte das carências deste setor e, por incrível que possa parecer, trariam benefícios até para os políticos em troca de favores financeiros e eleitorais.
De maneira geral, é isto que acontece com os investimentos públicos quando da contratação de obras públicas voltadas ás instalações e prédios próprios.
A cada dia vemos serem construído suntuosos castelos onde reinam suas excelências para nada ou muito pouco devolverem em troca. Aos milhões gastos na exuberância das edificações públicas sobram centavos destinados à saúde e educação.
No país onde tudo é permissível, o que mais podemos esperar. Respeito?
Marcelo Augusto Portocarrero
Em 27-09-2015.
