ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

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ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

Nas décadas de 60 e 70 o centro de Cuiabá era uma mistura de residências, comércio e serviços, além, naturalmente, dos prédios públicos municipais e estaduais, razão de ser da capital, onde tudo acontecia em torno da Igreja Matriz Catedral do Bom Jesus e demais igrejas não menos importantes. Herança do modelo de povoado que cresceu com sua origem em um garimpo e dos costumes europeus trazido para estas bandas pelos colonizadores portugueses através das “Entradas e Bandeiras”.

Diz a história, vieram bater aqui a cata de índios para escravizar e se depararam como o ouro aflorando nos pedregulhos do Rio Coxipó e Córrego da Prainha. O mesmo enredo conta que ao indagar por locais onde houvesse mais daquelas pedras amareladas foram então primeiro apresentados aos favos de mel do serrado para, só depois, ao ouro do que seriam as lavras do Sutil. Essa historia virou até enredo da Escola de Samba Mocidade Independente Universitária, dos bons tempos do Carnaval de Rua em Cuiabá.

O paralelepípedo ainda predominava no calçamento das ruas do centro, exceto pelo trecho da Avenida Getúlio Vargas na altura do Colégio Estadual. Durante o dia as calçadas eram somente dos pedestres, sem o atrapalho de barraquinhas e vendedores ambulantes. Naquela época, apenas vendedores de peixe, frutas e verduras, em seus carrinhos de madeira ou mesmo cavalo e carroças, perambulavam pelas ruas atendendo clientela certa e encomendas. Quando em vez passava alguém vendendo pixé, pirulitos, picolés e quebra-queixo.

Já o leite, este era preferencialmente buscado nas casas dos produtores. Exemplo do saudoso Júlio Müller, no casarão da família, na esquina da Rua Campo Grande com a Comandante Costa. Quem chegasse por lá para buscar leite era premiado, dependendo da época, com bocaiúvas, jabuticabas ou nacos de rapadura das mãos dele mesmo, do Seu Júlio.

O que mais importava era se divertir com a gurizada. Aproveitávamos qualquer oportunidade para passear de bicicleta, fazendo percursos pelas praças e ruas pouco movimentadas, principalmente nos fins de semana, desfrutando da temperatura amena das manhãs.

Outra diversão era esperar pela chuva do fim de tarde e correr para as Praças da República. Ipiranga e Alencastro para refrescar o calor do corpo. Era uma algazarra só, jogávamos bola, queimada, bolita (bola de gude para os paus rodados), pião e bafo. Brincamos de capa-espada, car-men (assim apelidada a brincadeira de bandido x mocinho) pegador e esconde-esconde, estas preferencialmente em volta do coreto da Alencastro.

Antes do fim da tarde de domingo não dava para perder o Cine Teatro Cuiabá, mesmo que o filme fosse repetido. A intenção maior era mesmo aproveitar a chance de trocar figurinhas e gibis com a gurizada que vinha assistir a matinê. Finalizando os fins de semana tínhamos os passeios pelas calçadas da Praça Alencastro, logo após a última missa do domingo.

Assim eram os meninos das ruas do Meio, de Cima e de Baixo. Só quem estava lá pôde aproveitar. Quem não foi coroinha não sabe da missa metade.

Pois é, acabou-se o que era doce.

Marcelo Augusto Portocarrero – 17/02/2016

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