CRONICA – I
CLARITA MENINA
Sempre ao final da tarde, caminhando lentamente, como que distraída, mas sempre atenta a tudo, ela descia a rua rumo à padaria que ficava do outro lado da Praça Alencastro. Nesta hora de fim de tarde, o pão quentinho estava saindo dos fornos das padarias para compor o lanche da tarde das famílias cuiabanas.
Às vezes Clarita vinha acompanhada de uma de suas irmãs, mas quase sempre estava só. É que também era hora do banho, assim ela, como a mais velha da prole, tinha a função de buscar o pão e o maço de cigarros do pai. Para muitas crianças essa tarefa parecia mesmo chata. Não para ela. Desde cedo Clarita gostava das saídas e toda oportunidade era encarada como um passeio, nunca como uma coisa enfadonha, bastava olhar seu jeito alegre de ser para logo perceber isto.
Eu a vi assim na primeira vez, quando retornamos para Cuiabá, passados 10 anos desde que havíamos nos mudado daqui. Estávamos acabando de nos instalar em um dos apartamentos do Edifício Maria Joaquina, bem de frente para a Praça Alencastro, esquina das ruas Candido Mariano e Pedro Celestino. Da janela dava para ver a praça em toda sua extensão e os prédios que ficavam no entorno. Lá estava a Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá, meio destruída ou meio acabada, ponto de vista que dependia de quem fosse a favor da construção da nova igreja ou da preservação da antiga edificação. Dava para ver também prédio do BEMAT (Banco do Estado de Mato Grosso), o Palácio Alencastro, sede do Governo Estadual e outras tantas edificações, entre elas a padaria.
Voltando a minha primeira visão de Clarita, lembro que na ocasião estava acompanhado de um amigo para quem perguntei se sabia quem era aquela menina que tanto chamava minha atenção. Recordo também que a pergunta foi acompanhada de uma expressão referente ao futuro, algo como que prevendo ou mesmo premeditando nossa vida em comum.
Henrique, em seu modo peculiar de pronunciar certar palavras, disse se tratar de sua amiga “Cleri”, era assim mesmo que ele pronunciava seu nome, e mostrou que da área de serviço do apartamento onde estávamos dava para ver onde ela morava. De lá avistamos um enorme quintal, encravado bem no meio da quadra formada pelas ruas Candido Mariano, Pedro Celestino, Campo Grande e Barão do Melgaço. Por esta última se chegava ao portão daquele belo espaço que tinha a casa em sua área central. Um verdadeiro parque de diversões, que muito tempo depois nossos filhos também puderam desfrutar, mas este é outro assunto.
Silhueta esguia, quase sempre de shortinho xadrez a pequena Clara Maria ou Clarita, tinha os cabelos castanhos ondulados e compridos presos em rabo de cavalo, deixando uma pequena franja solta ao vento. A pele clara, como que confirmando seu próprio nome, já emprestava a seu rosto a beleza suave e ao mesmo tempo irradiante. Seus olhos ágeis buscavam captar ao mesmo tempo tudo que se passava ao redor não lhe permitindo se concentrar mais que alguns décimos de segundo em cada imagem. A ela não interessavam os detalhes, mas sim o todo, o conjunto. Por isso não me percebia na paisagem. Naquele tempo eu era apenas uma pessoa a passar, ninguém a merecer sua atenção de menina, o que permitiu vê-la como descrevo agora.
Marcelo Augusto Portocarrero- 25/10/2013
