DIZEM QUE A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

DIZEM QUE A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

Quando finalmente nos conhecemos, ela diz ter tido uma péssima impressão a meu respeito. Na ocasião nós literalmente havíamos cercado as meninas em seu passeio de bicicleta bem na esquina das ruas Campo Grande com Barão de Melgaço, quase na frente da casa de Clarita.

Como era costume nos sábados pela manhã saí de casa na companhia de Henrique para dar umas voltas e nos dirigíamos à pracinha da Igreja Boa Morte para encontrar a turma e combinar o que fazer no resto do final de semana. Scalzile morava por ali e a frente se sua casa era nosso ponto de encontro.

No caminho, Henrique avistou um grupo de meninas passeando de bicicleta e entre elas viu Clarita. Havia se passado mais de um ano desde que havíamos falado sobre ela quando a mostrei da janela do apartamento onde eu morava na Praça Alencastro.

– Vamos lá, me apresenta, disse ele e assim fizemos. Passamos por elas bem devagar e Henrique, colocando a cabeça para fora do carro chamou por “Cleri”, com seu jeito peculiar de pronúncia.

As meninas pararam, mas não chegaram perto do carro, ficaram lá, à distância, olhando para nós até entender o que se passava e de quem se tratava. Só depois fomos apresentados.

– Cleri, este é Marcelo, amigo meu que quer te conhecer!

– Marcelo esta é Cleri!

Pairou então aquele lapso de tempo, silencioso, curioso e indeterminado que acontece nessas ocasiões.

– Olá, como vai? Disse eu.

– Prazer,… Clara Maria e complementou a apresentação com um sonoro tchau!

Foi assim, curto e rápido, ocasionado principalmente pela natural timidez e recato de Clarita, características que a acompanham até agora.

O rosto continuava angelical, mas a agora adolescente estava ainda mais radiante. Seus cabelos presos mantinham a franja esvoaçante, marca registrada desde criança como mostram as fotos de família. Clarita havia crescido e foi assim que ouvi sua voz pela primeira vez. Clarita, seu apelido sempre fez mais justiça a ela. A sonoridade do apelido traduz com correção sua personalidade.

Sua primeira impressão a meu respeito não foi nada boa. Afinal quem era aquele sujeito magricelo, cabeludo, barba por fazer, com espinhas no rosto e acima de tudo petulante, a ponto de cortar nosso caminho bem em frente ao portão de minha casa. O que Henrique está pensando quando vem me apresentar essa pessoa com a conversa mole de que ele queria me conhecer!

Foi assim rápido e marcante. Para mim em um sentido, para ela em outro. O que importa é que o tempo nunca apagou aquele momento de nossas memórias.

Na versão de Clarita, eu a olhei de cima embaixo com a expressão de quem concentra a visão buscando mais os detalhes fisiológicos que os aspectos sociais de uma apresentação. Quando nossos olhares se cruzaram ela já demonstrava sua irritação, e a palavra prazer veio logo acompanhada de um seco tchau, determinando o final de nossa curta conversa.

Ferrou Marcelo, ela não gostou nadinha de você! Disse Henrique com seu sorriso irônico e fomos nos encontrar com o pessoal na frente da casa do Scal.

Só voltei a encontrá-la novamente no ano seguinte quando ela passou a estudar na Escola Técnica Federal, onde eu já era aluno. Foi no intervalo das aulas que a vi em um grupo de novas alunas, todas vindas do Colégio Coração de Jesus. Clarita estava radiante, tinha os cabelos presos de um jeito que pareciam soltos, onde parecia que apenas uma pequena quantidade vinda das laterais passava por uma presilha atrás da cabeça.Vimo-nos quase que ao mesmo tempo e foi bastante intensa aquela nossa troca de olhares, deu para sentir o coração bater descompassado e os milésimos de segundos passarem lentamente, bem diferente da nosso primeiro encontro. Com certeza ela se lembrou de mim, restava saber se isto era bom ou ruim e só tinha um jeito de saber.

Decidi me aproximar enquanto elas conversavam distraídas, exceto Clarita que me acompanhava com os cantos dos olhos, passei ao lado dando um oi geral, mas olhando somente para ela, segui em frente e após me afastar alguns passos pude ouvir um longo “hummmm”, acompanhado do murmurinho que denunciou sua reação ao meu comprimento.

No final das aulas daquele dia fiquei aguardando por ela no portão de saída da escola. Daquela vez, sem desvios, nos olhamos por alguns segundos, o suficiente para ter certeza que sua segunda impressão a meu respeito era outra.

A primeira impressão não havia ficado…

Marcelo Augusto Portocarrero – 28/10/2013

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