2005 tinha sido um bom ano para mim como um todo, mas em 2006, ao chegar março, comecei a ficar preocupado com a proximidade do final do contrato de gerenciamento das obras no qual eu trabalhava e a não confirmação das expectativas relativas aos novos projetos em que estávamos trabalhado.
Naquele ano eu havia sido contratado para trabalhar na captação de novas obras e projetos. Entretanto, àquela altura todo o trabalho estava se mostrando em vão.
Houve até um reavivamento das esperanças quando uma das obras foi licitada, mas não conseguimos o contrato.
A razão disto foi a detecção de um escândalo envolvendo uma das empresas que havia vencido a concorrência para a execução da obra, o que pôs tudo a perder.
Para nossa frustração, depois de todos os esforços que haviam sido feitos desde 2004 as coisas haviam empacado e começamos a ficar preocupados com a possibilidade de não conseguirmos vencer nenhuma concorrência.
Pra complicar, começamos a perceber a provável existência de direcionamentos, e diante dessas circunstâncias as coisas costumam desandar mesmo.
Em agosto o dono de uma das empresas para as quais eu trabalhava me entregou uma carta informando que meu contrato de parceria e prestação de serviços com ele seria encerrado em outubro daquele ano devido à falta de perspectivas nos assuntos em que atuávamos juntos. Minha salvação seria reativar meu contrato de prestação de serviços com a CEF. Daria para trabalhar até conseguirmos participar das concorrências para os gerenciamentos de algumas das obras que estavam sendo anunciadas.
Enfim, entrei em setembro meio zonzo com tantas coisas dando pra trás.
A esta altura dos acontecimentos e como nosso contrato ainda estaria vigente até o final de outubro, me encarregaram de representá-los nas negociações que se seguiriam. Aconteceu então que me sai bem nesta função que, a bem da verdade, nunca em minha vida tinha imaginado vivenciar.
Foi quase um estupro, pois apesar dos meus cinqüenta e tantos anos e de já estar convivendo com aquele ambiente há bastante tempo, alem de conhecer pessoalmente todos os atores, eu ainda não tinha me envolvido tão profundamente nesse tipo de negociação. Fui uma luta intima muito grande com meus “eus” devido às características da minha formação e de meu caráter, herdados dos dois lados da minha genealogia.
A esta altura estava bastante estressado, tanto que passei a ter sintomas de síndrome de pânico. Eu sentia um enorme vazio, faltava alguma coisa pra me tranquilizar, mas não conseguia entender o que.
Foi quando minha esposa, sempre ela, meu verdadeiro anjo da guarda, disse para mim me aproximar mais de Deus.
Na realidade, durante toda a minha vida até aquele dia eu só havia me sentido realmente próximo de Deus em dois momentos: em minha infância e durante certo período de minha juventude.
Na infância frequentei muito a igreja levado por minha mãe e sua religiosidade inabalável. Naquele tempo eu e meus irmãos mais velhos fomos coroinhas e estudamos em colégios administrados por padres. Havia então todo um clima propício.
Já em minha juventude participei do que era conhecido como Encontro de Jovens na Igreja Católica. No início e durante algum tempo foi tudo bem, até que me decepcionei com algumas pessoas que frequentavam aquele ambiente.
Creio que foi aí que confundi as coisas. Ou seja, minha fé não era forte o suficiente para que eu superasse as decepções que tivera com os indivíduos e não com a igreja.
Hoje sei que não fui capaz de separar as coisas porque não estava preparado para entender minha religiosidade como ato de fé.
Esta dificuldade, creio eu, é fruto de nossa própria introspecção e não o resultado especifico de nossa convivência com as pessoas. Dentre estas, poucas têm realmente fé. Poucas sequer percebem a capacidade que a fé nos dá de que quando passarmos a acreditar em nós mesmos sermos capazes de superar as dificuldades que certamente encontraremos durante a vida.
Então, voltei a procurar Deus dentro de mim, abri meu coração a Ele e passei a ter fé em mim, pois creio que Ele está dentro de cada um de nós. Se cremos em nós, certamente assim o é por termos fé em Deus.
Fiz então o compromisso comigo mesmo de rezar o terço ao menos uma vez todos os dias, pelo resto da minha vida. Alguns chamam isto de promessa, eu prefiro o termo compromisso, pois é assim que me sinto – compromissado comigo mesmo.
Faltava-me o terço!
Uma noite então, enquanto rezava antes de dormir, pedi um sinal confirmando que eu estava no caminho certo para voltar a me “aproximar” de Deus.
Como estava perto de meu aniversário, rezei para receber de presente o terço que eu tanto queria. (Até aqueles dias eu estava rezando com um que era de minha mãe).
Pois bem, no dia 28 de novembro daquele ano, após o almoço sentamos na sala de televisão fazendo hora para ir ao trabalho.
Naquele dia eu não conseguia relaxar porque toda hora vinha a mim a espectativa de receber meu Terço, afinal era dia do meu aniversário.
Então ouvi o carteiro chegar com a correspondência e me apressei em buscá-la, pois era fim de mês, época em que chegam as cartas e as contas.
Além das contas havia uma carta da Congregação de Nossa Senhora de Fátima. Este tipo de correspondência nessa época do ano sempre traz um conjunto de Cartões de Natal para serem adquiridos como forma de contribuição voluntária.
Desanimado abri o envelope e percebi que havia, junto ao boleto e maço de cartões uma pequena caixa. Ao abri-la encontrei meu tão esperado presente. Lá estava meu terço. Uma dádiva de Deus trazido por Nossa Senhora de Fátima.
Faço aqui uma importante ressalva. Em todas as orações que vinha fazendo desde que minha esposa me trouxe de volta à fé, eu rezava frente a uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida. Aquela mesma que a acompanhava desde há muito tempo em sua fé. Foi através dela e de Nossa Senhora Aparecida que recebi meu terço. Uma me aproximou da outra e esta última me atendeu.
Alguns podem até dizer que foi mera coincidência, afinal muita gente recebeu um Terço igual aquele. Eu não! Eu acredito, até porque conheço pessoas que também receberam um igualzinho a este que trago comigo. A diferença é que, no meu caso foi a pedido, tinha data marcada, foi fruto da esperança e teve muita, mas muita fé envolvida.
Naturalmente, quando vi o terço meus olhos se encheram de lágrimas e quase não consegui falar o que estava acontecendo tal era minha emoção, pois não havia contado sobre meu pedido a ninguém.
Acontecera a confirmação de minha fé e a partir de então aquele terço passou a ser meu companheiro inseparável.
Nem preciso falar da reviravolta que aconteceu na minha e em nossas vidas a partir daquele dia.
O ano de 2007 foi especial e os outros que vieram a seguir não foram diferentes, tanto quanto aqueles que ainda virão.
Eu acredito e tenho fé em mim e em nós. Por isso, volto a insistir para que tenham fé e que façam do tempo de que dispuserem durante suas vidas o combustível das vossas esperanças. Usem-no para reforçar as bases sobre as quais serão edificadas suas vidas. Ele é irrecuperável e não deve nem pode ser desperdiçado.
Por outro lado, tudo pelo que passamos embora em algumas circunstâncias possam parecer derrotas irrecuperáveis, lá na frente será percebido como mais uma etapa do permanente processo de aprendizado que receberemos da maior das escolas, a escola da vida.
Como não é possível faltar às aulas desta escola, devemos estar sempre atentos para aproveitar ao máximo o que nos é ensinado no dia a dia, pois mesmo enquanto dormimos estamos recebendo informações. São estas as ocasiões em que, conscientes ou inconscientes, repassamos em nossas mentes todos os momentos vividos.
Beijos nos corações de vocês,
Marcelo Augusto Portocarrero – fevereiro/2007
