Em 1971, após passados sete anos que havíamos mudado de Cuiabá surgiu a oportunidade de voltarmos para cá. Meu pai nem pestanejou, pois seu desejo de retornar à cidade onde, em suas palavras, sua família havia vivido os melhores anos estava a ponto de se realizar.
De volta, a primeira coisa após sermos acomodados no Hotel Santa Rosa foi invocar as lembranças guardadas na memória.
Havia muita coisa pra relembrar, locais para rever, pessoas para encontrar e momentos para rememorar após passar tanto tempo longe.
Reencontrar pessoas queridas é como massagear o coração, até porque são criadas espectativas, tanto boas quanto ruins.
-Será que nos receberão bem?
-Terão sentido nossa falta assim como a deles sentimos?
Foi preciso administrar esse pequeno turbilhão de emoções, mistura de saudades com expectativas que agitaram minha alma naquela ocasião.
As crianças que fomos, a pre-adolescência que vivemos e as experiências que esperimentamos perambulam pela memória, vez em quando despertando o sentimentalismo latente que existe em todos nós, queiramos ou não.
Os locais onde vivi minha infância estariam como os deixei?
Alguns eram especiais como o local onde moramos na Rua do Meio em frente ao Foto Chau e vizinho da casa de Seu Raul Vieira, o Clube Dom Bosco, os cines Teatro Cuiabá e Tropical, o rio Cuiabá debaixo da ponte, bem pertinho da casa do Seu Id Scaff onde íamos lavar o carro, os pedregulhos no leito das límpidas águas do rio Coxipó na altura da Chácara do Deputado Emanuel Pinheiro e a Praça Alencastro, onde encontrávamos os amigos após a última missa do domingo sempre habitaram minha memória.
Só de lembrar daquelas missas sinto no coração e no nariz o inebriante odor do incenso alimentado pelas brasas do turíbulo quando balançado no momento da consagração, época em que eu era coroinhas na antiga Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá.
Amanhã será um dia especial, vou acordar em Cuiabá.
– Marcelo Augusto Portocarrero
