
Devemos todos comungar com o objetivo do Arquiteto José Antônio Lemos em seu artigo “Carta ao Presidente” sobre a importância da ferrovia para a Baixada Cuiabana, mas não podemos nos fiar nos aspectos políticos da questão. A razão para isso é histórica.
A alguns meses tivemos uma audiência pública na FIEMT quando a empresa Rumo apresentou sua intenção de resgatar o trecho praticamente perdido da concessão ferroviária que chega a Rondonópolis e que a ligaria a Nova Mutum passando pela baixada cuiabana. Infelizmente, o evento teve pouca presença de público considerada a importância do tema até porque a questão não é novidade e sempre esteve relacionada à geopolítica que o envolve. Trata-se de uma injustiça antiga que existe desde o final do século XVIII quando foi feito o primeiro estudo a seu respeito. Foi a primeira ação efetiva da integração do centro-oeste, mas que no início do século passado quando de sua implantação teve o traçado modificado fazendo com que a ferrovia que vinha de Bauru/SP e tinha como destino original Cuiabá fosse parar em Corumbá.
Hoje em dia, diferentemente daquele tempo, os argumentos políticos têm menos peso nas análises de viabilidade porque a ele se juntaram e acabaram por sobrepor os indispensáveis estudos sobre as questões técnicas, econômicas e ambientais para obras de infraestrutura, ainda mais quando tratam daquelas dessa magnitude. Aliás, aspectos pouco abordados na ocasião da audiência pública, preferiram, os políticos e articulistas presentes, aterem-se às questões regionalistas que envolvem o assunto como também erraram na forma como se referiram aos representantes da Agência Nacional de Transportes Terrestres – ANTT que estavam presentes.
Sabe aquela indesejável sensação de “Déjà vu”? Foi o que se viu nas manifestações de um dos parlamentares presentes quando expôs desnecessariamente a eventual dependência para com eles dos indicados a cargos públicos, o que aconteceu para com o Diretor daquela Agência. A partir de então ficou notório que aquilo não havia soado bem, tanto que resultaram na frieza da reação iminentemente técnica da ANTT ao afirmar que a posição do órgão sobre a questão dependerá exclusivamente da análise do Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental – EVTEA, procedimento que vem sendo firmemente adotado pelo atual governo federal.
Também colaboraram para isso as manifestações das pessoas presentes, uma delas sobre a FERROGRÃO, ferrovia que também será implantada em Mato Grosso, quando uma das autoridades presentes na plateia usou da palavra para dizer que aquela ferrovia não interessa ao estado porque não servirá nem para trazer água de retorno, algo para se lamentar, posto que atacou diretamente e com argumento inconsequente uma das prioridades do programa de expansão da malha ferroviária do Ministério dos Transportes.
Corroborando com essa equivocada manifestação houve ainda o pronunciamento de um dos articulistas presentes dizendo que a implantação daquela ferrovia poderia gerar novas intenções divisionistas, uma falácia nos tempos atuais de integração nacional, mas que foi solenemente ignorada por todos. Ainda bem!
Este é um terreno inadequado para colocar um assunto tão importante para nós. O que há de importante para ser incentivado é que um eventual investimento na implantação do trecho da ferrovia esteja a cargo da empresa Rumo e que esse empreendimento junte-se aos outros que estão em estudo e que solucionem definitivamente a questão da logística do transporte de nossas commodities. Tomara, assim seja!
Finalizando, recentemente ouvi pelo rádio outra figura de nossa política regional responder a uma pergunta sobre a possibilidade do transporte de passageiros pela ferrovia dizendo que estariam sendo feitos esforços para viabiliza-lo pelo menos até Rondonópolis.
Mais uma duvidosa promessa política, porque está claro que a ferrovia ao descer a serra não o fará encurtando distâncias como uma rodovia o que a levará a passar a cerca de 50 quilômetros (ouvi essas palavras da ANTT na audiência) de nossa querida Cuiabá, dificultando ainda mais esse tipo de transporte porque muito além da vontade política sobre ela novamente influenciarão os necessários estudos de viabilidade técnica, econômica e ambiental.
