“Até onde posso vou deixando o melhor de mim…Se alguém não me viu, foi porque não me sentiu com o coração” Clarice Lispector
Clarice Lispector não considerava a honestidade uma virtude, mas sim um compromisso. Ela sempre deixou isso muito claro em pronunciamentos, nas ações que envolvessem o tema e em seus livros. Tudo sobre o assunto está lá, nas frases, nos textos sobre sua vida, em seu trabalho e seus relacionamentos, considerada a quase solidão auto imposta.
Creio que vejo muito do pensamento dela em meu pai, em sua postura discreta sobre tudo e até em seus raros momentos de infelicidade. Sim, é verdade, papai não desenvolveu grandes expectativas ou esperanças de facilidades a respeito do futuro e ensinou-nos isso desde muito cedo. Foi isso que aprendeu com seus pais durante o tempo em que viveu em Bela Vista/MT, hoje MS, e desenvolveu durante suas andanças até chegar aqui. Foi essa a realidade sobre a vida que ele ensinou a seus filhos e o exemplo que deixa a seus netos e demais descendentes.
Desde que em 2018 ele veio morar em minha residência devido as dificuldades naturais de sua idade, tinha 96 anos à época, passamos bons tempos juntos o que nos deu a oportunidade de conversar bastante sobre seu passado, o presente e nosso futuro.
Em que pese a desgraça da pandemia e o isolamento que nos foi imposto isso acabou por contribuir para que eu resolvesse escrever sobre sua vida. Assim, para conseguir tirar ainda mais proveito de sua presença constante passei a gravar tudo que fosse possível de suas memórias durante nossas conversas.
Conversar a sós quando ainda morávamos com ele e mamãe era quase impossível tão poucas eram as oportunidades. Entre várias razões uma se mostrou determinante, papai foi bancário quase a vida inteira e mesmo depois de sua aposentadoria continuou trabalhando com expedientes diários até perto dos 80 anos. Após se aposentar dedicou seu tempo ao serviço público, há que se destacar, sempre convocado. Durante esse período ocupou diversos cargos nos governos estaduais que se seguiram ao ano de 1972, assim esteve Presidente da CODEMAT- Companhia de Desenvolvimento do Estado de Mato Grosso, na verdade uma intervenção para organizar o órgão, na LEMAT- Loteria estadual de Mato Grosso, do BEMAT- Banco de Estado de Mato Grosso, e foi fundador do CEAG/MT, atual SEBRAE/MT, onde também esteve Presidente, só para citar alguns dos cargos assumidos, quase sempre com a árdua tarefa de recuperar a saúde econômico-financeira das instituições por onde passou. Mais adiante, no futuro, vou contar sobre sua experiência à frente de algumas delas.
Então, em seu tempo de bancário sempre saia muito cedo e podendo vinha almoçar em casa. Não sendo possível, só voltava noite alta quando na maioria das vezes seus filhos já estavam dormindo ou ele, cansado, se retirava para o quarto após ler as notícias atrasadas nos jornais de circulação nacional que só chegavam ao interior do país dias depois de suas publicações. E foi assim em quase todos dos lugares para onde seu destino nos levou.
Nossos melhores momentos com ele se deram nos períodos de férias e creio essa deve ter sido uma situação comum à maior parte nos filhos nos anos 60 e 70, não importando quais fossem os trabalhos dos pais. Não estou com isso querendo dizer que ele não tenha sido um paizão amigo e companheiro porque era. Era à sua maneira, até porque naqueles tempos não haviam escolinhas para a prática de esportes onde pudesse nos levar como agora. Havia os clubes sociais, é verdade, mas eram uma regalia da qual nem sempre dispúnhamos porque para um gerente de banco compulsoriamente impelido a mudar de cidade a cada 2 ou 3 anos a situação era muito complicada. Mesmo assim, através das amizades desenvolvidas junto a seus clientes ele conseguia autorizações que nos permitiram frequentar bons clubes sem a necessidade de nos associarmos durante nossas estadas em todas as inesquecíveis cidades onde moramos. Um benefício especial para o gerente do banco e sua família até que voltamos a morar em Cuiabá/MT no ano de 1971 para onde retornamos em definitivo e finalmente ficamos sócios do saudoso Clube Dom Bosco de inesquecíveis recordações para todos os que dele puderam desfrutar.
A cidade havia sido nosso lar no início dos anos 60 e desenvolvemos por ela os elos de ligação mais fortes que existem, os do coração, o amor pela terra e seu povo. Em Cuiabá, desde a primeira vez fomos recebidos como gente daqui e por isso mesmo quando mudamos em 1964 já estava nos planos de papai voltar para cá, para os amigos, para nossa gente. Aliás, um sentimento tão enraizado na família que todos os seus filhos seguiram seus passos e também vieram para cá, mesmo quem que já estava estabelecido em outra cidade.
Papai nunca foi apegado à busca incessante pela riqueza material. Sempre foi modesto em suas pretensões e competente em suas ações. Sua performance altamente positiva como gestor foi o que o levou a seguir a vida com a tranquilidade de quem agiu de forma correta em todos os lugares por onde passou. Foram seus modos de ser e agir que o levaram a assumir cargos importantes, sempre carregados de compromissos que se caracterizaram pela necessidade de auditorias, recuperações financeiras, estruturais e morais. No entanto, foram esses mesmos modos que o fizeram confrontar as outras necessidades de alguns de seus contratantes. O que posso dizer com orgulho e satisfação é que com eles papai nunca compactuou.
Essa introdução serve para justificar as palavras que dedico a meu pai e a sua indefectível crença na honestidade. Um compromisso tão íntimo que se torna inaceitável, impossível de assumir para aqueles que não a trazem do berço. O que não foi seu caso, vez que sempre se sentiu bem com essa virtude difícil de ser valorizada em um ambiente onde quem a tem como uma de suas referências sofre severas restrições devido às convenções em contrário que já estão formalmente enraizadas na cultura de boa parte da sociedade.
É lamentável ter que reconhecer, mas certamente exercer a honestidade torna-se cada vez mais difícil em um mundo onde a luta pelo poder não mede consequências. Pelo contrário, cada vez mais as desconsidera.
Hoje em dia, tudo indica, nos ambientes já degenerados e em momentos nos quais faltem oportunidades de trabalho exercer a honestidade chega a ser um contraponto em relação às outras competências exigíveis. Em outras palavras, a capacidade de conviver e negociar com pessoas desonestas passou a ser pré-requisito obrigatório.
Não mentir, não roubar, não fraudar, não prevaricar, não corromper, não ser corrompido, não discriminar, para citar algumas das qualidades intrínsecas de uma pessoa como meu pai se aprende em casa e deveriam ser desenvolvidas nas escolas, mas não o são. Esses assuntos, melhor dizendo, essas qualidades estão sendo desvalorizadas quando não desestimuladas em um mundo cada vez mais competitivo e por isso mesmo desumano. Uma vez sendo difícil preservá-las, ainda mais será levá-las conosco para os ambientes que frequentamos.
– “Minha origem é fruto de uma árvore onde a honestidade é seu principal atributo por isso das sementes que produzi cuido para que germinem em terra fértil“.
Estas palavras resumem a personalidade de meu pai, pois a honestidade está presente em toda sua história e em tudo que nos ensinou. Seja nas amizades que conquistou no trabalho ou no convívio social com pessoas das mais poderosas as mais humildes, este foi o preceito moral que norteou seu comportamento e os de seus mais estreitos relacionamentos.
Posso dizer com certeza que nosso principal legado assim como o de todos que com ele conviveram está fortemente fundamentado na probidade e no fato de ser uma pessoa simples, nem mais, nem menos.
Para ele, diferentemente de outras características próprias, a honestidade não é atributo sobre o qual se deva vangloriar. Ela precisa ser reconhecida por todos com quem se convive porque exige coragem e determinação para aquele que quer preservá-la como característica inata.
Sua vida esteve basicamente dividida entre a família e o trabalho, lazer era questão complementar. Da família sempre cuidou com especial dedicação motivado por esse princípio já ressaltado de seu perfil. Quanto ao trabalho, nos ambientes em que esteve durante toda sua vida profissional foi um colaborador focado em suas responsabilidades, um colega leal e um superior extremamente exigente.
Pessoas assim vieram ao mundo para colaborar sem esperar nada em troca, e foi o que ele fez sendo um homem de apoio incondicional. Foi assim com sua esposa, filhos e quem mais tenha com ele convivido. Do que lhe coube como filho e irmão sempre esteve presente para apoiar e ajudar nas ocasiões em que era preciso. Essa foi a maneira como também interagiu com seu pai a quem perdeu muito cedo, sua mãe, irmão, irmãs, amigos, colegas, com quem não lhe tinha afeição e até com desconhecidos.
Dizer que nunca houve críticas sobre sua forma de ser e agir seria contrariar uma das principais características de honestidade que nos ensinou. Portanto sim, cometeu erros e por isso foi criticado, mas quem nunca os cometeu e quem nunca as recebeu? Entretanto, como os que são capazes de fazer autocrítica ele soube refazer e corrigir o que havia necessidade de ser refeito e corrigido a ponto de afastar-se de algumas das importantes funções e cargos de confiança que exerceu quando foi necessário.
Existiram razões específicas quanto às críticas e desentendimentos ao seu modo de proceder no relacionamento profissional com as pessoas, empresas e governos a quem serviu acontecessem. Estas, invariavelmente, foram devidas a questões éticas que vieram a atingir diretamente os motivos pelos quais ele foi levado a assumir um cargo ou uma missão. Nessas ocasiões era enfático quanto a não se submeter ou compactuar.
A história de José Afonso Portocarrero continua a ser escrita. Essa é apenas a introdução sobre o que ele fez para fixar as raízes que nos sustentam. Sim, papai passou a ser raiz e nós, seus filhos, assumimos as funções de troncos da família, seus netos as ramificações e seus bisnetos as sementes das sementes que plantou.
Marcelo Augusto Portocarrero
Cuiabá/MT, em 03/03/2021