
Affonso Loureiro de Almeida vinha sofrendo a perda de sua visão desde a muito tempo e esse problema estava se agravando de forma muito rápida, motivo pelo qual foi ajudado pelo genro Martinho Portocarrero a buscar uma forma de evitar que o problema o levasse à cegueira total. A provável solução estava em irem ao Rio de Janeiro à procura de um clínico que tivesse formação no tratamento do que parecia ser catarata, razão pela qual partiram para a capital do país.
O primeiro trecho da longa e dispendiosa viagem percorreu as quase 40 léguas de distância entre Bela Vista e Miranda e demorou aproximadamente duas semanas. Para essa etapa inicial e depois final da viagem, ambas feitas em dois carros de boi, há que se considerar que sem carga esses veículos conseguem percorrer até uma légua por hora e que carregados com carga média a distância percorrida fica reduzida em pelo menos ¼ levando a concluir que esse foi o tempo que demoraram para chega a Miranda para enfim pegar o trem e seguir viagem.
No caso específico desse trecho há ainda a ser considerado que a carga transportada era humana, portanto frágil, uma vez que a comitiva de viajantes era composta por Affonso, sua esposa Maria Rita, suas filhas Dona, Brandina e Sinhara, essa última esposa de Martinho, e respectivas bagagens.
Conforme foi contado a meu pai e dele para mim as paradas para pernoite ocorreram preferencialmente nas fazendas de parentes e amigos que ficavam no caminho e depois nos pontos costumeiramente utilizados por viajantes tais como o Curé, a localidade hoje conhecida como a cidade de Bonito e assim por diante, logicamente também foram parando para as refeições e eventualmente, há pedidos, para as necessidades que se fizeram necessárias em uma viagem com pelo menos quatro mulheres.
Em Miranda aguardaram a passagem do trem da ferrovia Itapura-Corumbá que desde 1914 passava por aquela cidade em seu percurso até Porto Esperança no município de Corumbá. Essa ferrovia era interligada por balsa quando da travessia do rio Paraná ao trecho da ferrovia Noroeste do Brasil que vinha de Bauru até a então divisa dos estados de Mato Grosso e São Paulo.
Esperaram por alguns dias em Miranda e depois seguiram para Campo Grande onde precisaram parar para que fossem tomadas algumas providências necessárias ao prosseguimento da viagem.
De acordo com o que ouviu de sua mãe Cazuza se lembra dela ter dito quão providencial havia sido aquela parada. A espera da conclusão das providências e de uma nova composição de trem com vagões para passageiros fez com que fossem se hospedar em um hotel, o Hotel Globo, que possibilitou acabassem por conhecer um médico alemão que lá também estava hospedado. Vendo a dificuldade enfrentada pelo senhor que estava com o grupo ele tomou a liberdade de falar com o genro Martinho para saber do que se tratava, isso feito se ofereceu para examina-lo.
Dia seguinte, ao confirmar que se tratava de catarata o que coincidia com a suspeita a que o farmacêutico havia chegado indicou que no Rio de Janeiro procurassem o Dr. Moura Brasil, médico que havia retornado a pouco tempo da França onde tinha desenvolvido capacidade de tratar desse problema através de cirurgia, procedimento no qual estava conseguindo obter resultados reconhecidamente confiáveis.
A viagem prosseguiu com mais uma parada em Bauru, estação final da ferrovia, depois seguiram em outra estrada de ferro até a cidade de São Paulo de onde também de trem partiram no último trecho rumo ao Rio de Janeiro.
Durante o tratamento e recuperação das duas operações todos ficaram hospedados no solar da família Portocarrero em Realengo, região da cidade onde morava a maioria das famílias de militares do exército, de onde aproveitaram para conhecer as belezas da cidade que um dia seria reconhecida como maravilhosa.
Essa viagem custou ao todo aproximadamente 30 Contos de Reis, valor correspondente a mil vacas. O dinheiro foi emprestado por seu amigo Caporossi posto que naquele tempo não havia banco e empréstimos em moeda eram feitos junto aos capitalistas como eram chamados aqueles que ricos financeiramente emprestavam dinheiro a juros. Como garantia para o negócio foi acertada a quantidade de vacas acima citada.
A conclusão do pagamento desse empréstimo só aconteceu anos depois da morte de Affonso Loureiro de Almeida tendo o mesmo sido feito em parcelas que acabaram com a última já sendo paga por Maria Rita através do filho Athanásio que naquela ocasião já administrava a Fazenda Vaquilha.
Isso se deu pouco antes dela compra a casa da Rua Coronel Camisão que pertencia a Margarida, filha de Cândido Pinheiro, prima de seu amado Affonso. Lá Maria Rita, nossa Vó Rita, a matriarca da família, viveu o resto de sua vida.
