Já escrevi alguns artigos sobre o advento da ferrovia no estado de Mato Grosso, é um assunto que me agrada por razões sentimentais ao mesmo tempo em que me preocupa por razões profissionais porque ela continua a ser explorada por políticos que se apropriaram de sua natural essência desenvolvimentista. Digo isso, porque é um tema por demais importante para ser usado e abusado por aproveitadores de ocasião.
Para ser coerente com a realidade é preciso voltar atrás no tempo e começar do começo. O uso desse pleonasmo vicioso é necessário para justificar o tratamento correto à história da ferrovia, entretanto, para não me tornar enfadonho sugiro a quem se interessar ir atrás do início de tudo nos livros e vários artigos publicados sobre o assunto.
Desta vez, o objetivo é falar sobre a apropriação indébita da localização do terminal ferroviário em Cuiabá pelos atuais governo e concessionária da ferrovia.
Na verdade, a definição do melhor lugar para o terminal aconteceu a mais de 45 anos através do estudo de viabilidade técnica e econômica realizado pelos governos federal e de Mato Grosso dentro do II PND – Plano Nacional de Desenvolvimento (1975-1979), que tinha por finalidade estimular a produção de insumos básicos, bens de capital, alimentos e energia no Brasil.
Um trabalho que culminou com o Plano Diretor do DIICC – Distrito Integrado, Industrial e Comercial de Cuiabá, elaborado pela PLANEX S/A – Consultoria de Planejamento e Execução que, dentre outras coisas, nele destinou área específica para o terminal ferroviário. Tudo em conformidade com o proposto pelo deputado federal Vicente Vuolo e estabelecido pelo governador Garcia Neto.
Foi no governo do Eng. Garcia Neto que o DIICC foi implantado, mais especificamente em 1978. Naquela época, o desenvolvimento industrial do estado era responsabilidade da antiga Secretaria de Industria e Comercio, SIC/MT, depois SICT/MT e atualmente SEDEC/MT.
Pois bem, esse resgate histórico se faz necessário para orientar a descabida disputa sobre o nome do empreendimento que, de fato, é uma ferrovia privada e não estadual como a idiossincrasia política vem alardeando. Prova disso é o recente pronunciamento do governador quando declarou que o estado não colocará um centavo na ferrovia, ou seja, outra apropriação indevida, nesse caso, de propriedade. É assim que agem os políticos desde o início de sua implantação pelo empresário Olacyr de Morais que concessionário projetou e implantou a Ferronorte com recursos privados.
Há que ser reconhecida a luta iniciada a quase meio século (1976) pelo então deputado federal Vicente Vuolo que apresentou projeto de lei propondo a extensão da malha ferroviária nacional até Cuiabá no intuito de recuperar o tempo perdido e a decepção dos matogrossenses que habitavam o centro do estado quando no início do século passado (1904) o traçado original da ferrovia que chegaria até a capital foi redirecionado para Corumbá. Um erro histórico, que muito contribuiu para o isolamento secular dessa parte da região centro-oeste do país.
De fato, a vinda da ferrovia para cá foi obra não só de quatro, mas sim de seis mãos. A saber, as do deputado federal Vicente Vuolo, as do governador Garcia Neto e as do empresário Olacyr de Moraes que mais tarde se juntaram às primeiras, todas a seu tempo, aproveitando do planejamento do governo federal para descentralizar e interiorizar o desenvolvimento do país. Muitos foram testemunhas desses esforços, mas poucos os reconhecem.
Nos final dos anos 70, quando ainda no início da vinda das famílias de migrantes e empreendedores, os ilustres e bem-vindos novos pioneiros, o DIICC e outros três distritos industriais em implantação (Rondonópolis, Barra do Garças e Cáceres) exigiram o empenho de pessoas que, anonimamente, muito contribuíram para tornar possível o recebimento dos mato-grossenses por opção.
É possível afirmar que foi graças ao continuado esforço conjunto que o Mato Grosso remanescente, aquele que para muitos seria a sobra do antigo grande estado, se tornou ainda maior. Sim, é verdade, vencemos todas as dificuldades que nos foram deixadas na forma de passivos das dividas e obrigações referentes ao estado desmembrado, além de uma estrutura governamental que muitos consideravam tão velha quanto ultrapassada. Provamos que não, e continuamos a superar todas as expectativas sobre nosso futuro.
Após tanto falar o que considero justo rememorar sobre a ferrovia torna-se importante citar nominalmente alguns dos obstinados e anônimos matogrossenses da velha guarda como o engenheiro e professor Ivo Cuiabano Scaff, responsável pela desenvolvimento industrial do estado na função de Diretor Operacional e depois secretário da então SIC/MT, bem como do engenheiro José Epaminondas Matos Conceição, seu braço direito e assessor imediato. Dois Mato-grossenses com “M” maiúsculo com quem tive a honra de trabalhar e aprender. É através desses inesquecíveis companheiros que agradeço a todos os demais por nosso Mato Grosso ser o que é.
Se existem pessoas a serem homenageadas então que sejam coerentes os que pretendem assim fazer. A pergunta que cabe nesse momento é sobre o porque de não nominar o empreendimento como Ferrovia Vicente Vuolo e Olacyr de Moraes, ambos merecedores de reconhecimento por seus abnegados empenhos e legados. Assim sendo, porque não agir da mesma forma e com o mesmo objetivo homenagear o Governador Garcia Neto dando seu nome ao Distrito Industrial de Cuiabá?
Com a palavra a concessionária, o Executivo e o Legislativo de Mato Grosso.
