Meu reencontro com Alberto Cardoso

A recordação da experiência que eu e Iracy vivemos na Fazenda Bonfim me fez lembrar de outras situações desse tipo que vivenciei, uma delas em 1962 na cidade de Cuiabá, somente esclarecida 10 anos depois quando finalmente consegui uma explicação plausível para o que aconteceu.

Quando estudava no colégio dos padres em Campo Grande conheci o Alberto Cardoso, ele era um dos internos da turma dos maiores junto com meu primo Ulisses Toledo enquanto que eu estava entre os menores sendo que tanto ele quanto o Ulisses eram muito respeitados, um por sua inteligência e outro por sua força. Acontece, que em determinada tarde estávamos assistindo ao jogo de futebol entre os maiores quando um jogada errada fez com que a bola viesse cair justo perto de nós e invés de devolve-la para o campo ficamos chutando de um para o outro até que a brincadeira irritou a pessoa que veio atrás dela justo quando estava comigo, daí o cara me segurou com uma das mãos e com a outra passou a bater com a bola em minha cabeça.

O Alberto, que estava se exercitando nas barras de flexão bem próximo de nós ao ver o que estava acontecendo veio em nossa direção dizendo ao sujeito que me agredia para ele parar com aquilo senão ia sofrer da mesma forma fazendo com que o cara caísse fora mesmo sendo um de três irmãos que estudavam no colégio. Isso ocorreu em 1937, quando do meu primeiro ano como estudante salesiano e acabou que passei a ser visto como protegido do Alberto e do Ulisses, que como parente mais velho já tinha a incumbência de olhar por mim. Pois bem, os anos se passaram, nos formamos, cada um foi para o seu lado e nunca mais nos encontramos mesmo a família dele morando em Aquidauana onde o pai era fiscal de rendas do estado.

Passados mais de 25 anos fui transferido pelo Banco da Lavoura de Minas Gerais da agência de Manaus/AM para a mesma função de gerente em Cuiabá/MT no mês de junho/1962 de modo que tive que cuidar das transferências escolares dos meus filhos em pleno ano letivo, providenciar um local para morarmos e da organização da agencia, isso sem falar da necessidade de recuperação das relações do banco com órgãos públicos e outros clientes, aliás a principal razão de minha transferência extemporânea.

Foram tantas coisas para resolver que quando me dei conta o tempo havia passado tão rápido que já estávamos no início de novembro. Naquele ano, o dia de finados foi em uma sexta-feira e estava caindo uma intermitente garoa que perdurou até o meio da tarde atrapalhando a todos que pretendiam homenagear seus mortos inclusive eu e Iracy que tínhamos planejado ir até a capelinha do Cemitério da Piedade rezar pelas almas dos nossos parentes, mas acabei tendo que ir sozinho. Então, quando o mau tempo deu uma trégua pequei o guarda-chuva e sai de casa na Rua Ricardo Franco, a Rua do Meio como era conhecida, e segui pela Cândido Mariano até a Igreja da Boa Morte de onde, à direita, já dava para vislumbrar o movimento em frente ao cemitério. Lá chegando, passeio por seu imponente portal e subi a alameda que leva até a capela para fazer minhas orações. Em meio a elas me lembrei dos nomes de alguns colegas cuiabanos como o Michel Sadi, o Walter Capistrano, o Borron e o Alberto Cardoso, pessoas que ainda não tinha encontrado buscando com isso uma forma de achá-los ou mesmo, se fosse o caso de terem falecido, rezar por suas almas. Depois, passei alguns minutos esperando um novo arrefecer da garoa e comecei a descer a alameda. Foi quando uma sepultura localizada à direita chamou minha atenção devido sua brancura, o que fez com que eu me aproximasse.

Era uma estrutura com o acabamento muito bem feito contendo um painel que dela se destacava tendo no centro a fotografia de um jovem fardado com roupas que se pareciam com as de gala que usávamos no colégio. O uniforme era composto por um quepe, camisa e calça, provavelmente da cor cáqui porque a foto estava em preto e branco, tendo como complemento o talabarte semelhante ao militar, uma peça em couro com mais ou menos uma polegada de largura que atravessava o peito em diagonal indo do ombro até a cintura onde terminava em posição diametralmente oposta à de seu início. Como eu disse, a foto era de um jovem cujas feições não me eram de todo estranhas o que confirmei ao ler estampados na lápide o nome do Alberto Cardoso e as datas de seu nascimento e falecimento ocorrido em 1942. Foi assim que com tristeza fiquei sabendo de seu falecimento pouco depois de eu ter saído do colégio quando bacharelei em Ciências e Letras no ano de 1941. Fiquei ali, parado lembrando dos momentos que passamos juntos pouco me importando com a fina garoa que continuava a cair, então fiz mais uma oração, agora para ele em especial, e fui para casa contar a Iracy a inesperada surpresa que havia tido no cemitério.

Apesar dela não ter conhecido aquele meu colega ficou emocionada quando lhe falei o que tinha acontecido e combinamos de voltar no dia seguinte para ela fazer suas orações e ver sua sepultura. No sábado, ainda pela manhã fomos até lá, entretanto, quando chegamos ao local onde deveria estar o tumulo não havia nada parecido com o que eu tinha visto, então imaginei que devido à chuva tivesse me confundido e sai procurando por ele, coisa que fiz dos dois lados da alameda desde seu início até a capelinha, mas nunca mais o encontrei. Fiquei encafifado com aquilo por muito tempo, na verdade por exatos 10 anos como descrito logo no início dessa história.

Pois bem, o tempo passou e em 1965 fui novamente transferido, dessa vez para Campo Grande e como para subir na carreira de bancário não é possível deixar de fazer novas mudanças lá fomos nós. Depois, mudei para o Rio de Janeiro como Gerente Geral do Banco Financial de Mato Grosso S/A entre 1967 e 69 até ser deslocado para Presidente Prudente onde assumi a Gerencia Regional com a função de expandir as atividades do banco naquela região e em parte do Paraná. No início do ano de 1971 o Itaú me contratou com a incumbência de voltar para Mato Grosso e abrir sua primeira agencia no estado, foi quando voltei definitivamente para Cuiabá.

De volta à cidade que escolhi para passar o resto de minha vida fomos morar no Edifício Maria Joaquina, prédio de apartamentos que estava começando a ser construído quando fomos para Campo Grande e que se tornou o primeiro edifício residencial da cidade. Ao nosso lado moravam o Dr. Silvio Curvo e Dona Bartira, um casal de amigos dos velhos tempos que agora tínhamos como vizinhos. Dona Bartira, logo tratou de promover um jantar de boas-vindas e foi nessa ocasião que enquanto comentávamos as idas e vindas da vida me lembrei do estranho caso que havia acontecido comigo na primeira vez que moramos em Cuiabá. Dr. Silvio, ficou impressionado com o que lhe contei e disse que conhecia a família Cardoso sendo que um deles havia sido seu paciente e se prontificou à saber se eram parentes do meu colega de modo a ajudar a esclarecer o ocorrido. Depois dessa nossa conversa, voltei a comentar esse caso com outras pessoas entre elas meus amigos Lenine Póvoas e Emanuel Pinheiro, mas sem sucesso.

Alguns anos se passaram, me aposentei da vida de bancário e fui trabalhar na Secretaria de Estado de Interior e Justiça como Chefe de Gabinete, foi quando recebi um bilhete do Dr. Silvio informando que havia encontrado um caminho que com certeza ajudaria a desvendar o mistério. Ele havia descoberto que seu paciente de sobrenome Cardoso era pai do meu colega e que o Alberto fora assassinado no Rio de Janeiro, mais precisamente na Estação Primeira de Mangueira, após discutir com um colega de farda sendo que na época era sargento da polícia e que lá mesmo tinha sido sepultado. Essa informação fez com que eu procurasse o Didi, Adildo Jacinto de Oliveira, esse era seu nome, meu irmão de maçonaria e sua esposa Dona Fia, ambos espíritas, na esperança de encontrar uma explicação para o que havia acontecido ouvindo deles que o Alberto tinha utilizado aquela forma de se mostrar para mim provavelmente porque eu o estava procurando com o coração aberto e desejoso de encontrar meus amigos cuiabanos.

Com o passar do tempo fiquei conhecendo um irmão, também militar, daquele meu colega e que naquela época tinha a patente de coronel. Nos encontramos em um jantar do Rotary Clube, foi quando lhe contei tudo o que se passou, então, ele ficou emocionado e lembrou que o Alberto acabara morrendo daquela forma trágica porque era muito reativo, já sobre o túmulo onde foi enterrado no Rio de Janeiro disse que era muito parecida com o que eu havia descrito, no entanto, a família já havia exumado o corpo e transladado seus restos mortais para o Cemitério da Piedade.

No dia de finados daquele ano voltei ao cemitério e informado pela administração da localização do jazigo da família Cardoso fui até lá reencontrar meu velho amigo Alberto Cardoso.

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