Vida e morte

A tudo começa,

Um suspiro fraco,

A primeira saída,

No portão da vida.

Jato de sangue,

Que leva energia

Às partes do corpo.

É a vida que segue,

Olhos que se abrem,

Lágrimas que caem,

Coração que bate,

Sangue que corre,

Viva a vida,

Sinta emoção,

Paixão,

Transformada em amor

Se passa de tudo,

Da alegria à tristeza,

Até a dor.

E chora-se muito,

E tudo é Beleza.

Mas de repente,

Sem aviso,

De improviso,

Tudo transforma,

Vem a tristeza,

Pela vida perdida,

Vai-se o amor.

Ódio à má sorte.

Sangue que escorre,

Coração que para,

Lágrimas que secam,

Olhos se fecham,

É a morte, é a morte.

As mãos de meu pai

Eram mãos finas, de pele suave, devido ao tempo e aos diversos trabalhos que desenvolveu após iniciar sua carreira e durante todo o tempo que esteve conosco. Papai, tinha os dedos longos para o tamanho de suas palmas, eles combinavam com as unhas, também maiores que o normal e que se particularizavam por ter o formato mais reto que côncavo o que lhes permitiam transmitir ao conjunto um certo toque de firmeza devido ao particular formato.

Eram mãos que denotavam ser seu possuidor pessoa de grande força interior, força que se restringiu a um único objetivo, o bem-estar da família. Papai, sempre foi um homem cuja vida esteve dedicada a nós e ao trabalho, tanto que nesse tempo ocupou importantes cargos e exerceu diversas funções nas quais muitos viam oportunidades para o enriquecimento fácil. José Afonso Portocarrero, Seu Porto, como era conhecido, nunca se sujeitou a sujá-las, não meu pai, ele permaneceu assim até o fim de sua jornada.

Mãos de um homem que sabia onde pô-las para não se comprometer perante Deus; mãos, que não deixaram de ser justas nem quando precisaram corrigir o rumo de seus filhos no intuito de colocá-los na direção certa. Atitudes, que na maioria das vezes foram tomadas através de exemplos morais, no entanto, também soube usar delas de maneira firme para apontar o caminho da retidão. Nas raras vezes em que não conseguiu, procedeu como se as falhas tivessem sido suas por não ter agido com equidade, ou mesmo por ter falhado em algum momento de nossa educação.

Mãos, que com o passar do tempo foram perdendo a força de quando a segurávamos para ir aos lugares que conhecemos em sua companhia; mãos, das quais ainda sentimos falta do contato com as nossas, do calor humano que emanavam e do amor que transmitiam ao pousarem sobre nossas cabeças e ombros. Somente seu toque era suficiente para erguer do desânimo e acalmar a dor, senti-lo eliminava a necessidade de palavras, mesmo assim elas vinham em apoio a seus gestos.

Aquelas mãos, que juntamente com as de mamãe seguraram as dos filhos até poderem soltá-las na certeza de que seguiriam seus exemplos em todos os momentos que enfrentariam e que também serviram de apoio aos netos durante o tempo em que permaneceram sendo os faróis a guiar nossas travessias; mãos, que relutaram em aceitar que estavam livres para serem usadas somente para eles mesmos posto que até aquele momento só foram usadas para atender as necessidades dos outros.

Sim, aquelas mãos mereceram o descanso que tiveram quando passaram a segurar as nossas ao serem levadas para onde quisessem e fosse necessário; mãos, que de auxiliares passaram a ser auxiliadas pelas que tão bem souberam guiar; mãos, que foram tão queridas por sua esposa e filhos e pelas quais procuro agora fazer o necessário reconhecimento a tudo que fizeram por mim e por todos que estiveram ao seu alcance.

Espero ter aprendido a usar as minhas tão bem quanto meu pai usou as dele, vez que são parte da continuação das suas. Obrigado papai, por ter as mãos mais importantes que as minhas seguraram um dia.

Sem sentido

Às vezes acordo de madrugada e vou para a varanda olhar o céu e tentar ouvir respostas para as perguntas de meu coração. É nesses momentos, quando tento falar com Deus, que ele palpita ainda mais rápido, atordoado com tanta coisa ruim acontecendo ao mesmo tempo e fazendo com que minha incompreensão varie com o caminhar do dia indo de alta para baixa e vice-versa, inconformado que estou na busca das respostas que não encontro.

Talvez, seja porque em momentos de tanto sofrimento ainda existam pessoas tentando nos convencer que essa desgraça é um mal necessário, quando, na verdade, ela não passa de um indisfarçável processo seletivo onde os mais fracos, aqueles com comorbidades, os idosos e os carentes são as principais vítimas das estressantes situações a que estão nos sujeitando.

 Nada mais faz sentido, quando governantes afastam as pessoas de suas atividades de subsistência e países se fecham na busca de métodos eficazes contra o que até agora não se mostra controlável, tampouco curável, através das soluções “ditas científicas” apresentadas como definitivas, mas que não passam de experimentos coletivos aos quais nem os próprios autores se submetem, mas cobram, e como, e caro.

Enquanto isso, na esteira das crueldades seus controladores, os megainvestidores de sempre, seguem ameaçando, ora propondo soluções globais de controle, ora com a possibilidade de novas e ainda mais mortais viroses, quando, na verdade, seguem empurrando a humanidade para o curral da submissão que pretendem impor utilizando uma série de eventos coercitivos que nos está desestruturando aos poucos pela degradação moral, com a exacerbação das diferenças, a subtração das liberdades e pelo ativismo ateísta que busca abalar a fé em Deus e acabar com as esperanças de um mundo melhor para todos.

Deus te abençoe meu filho

A princípio, quando a contragosto papai veio morar comigo ainda era capaz de se deitar sozinho, suas dificuldades eram bem administradas porque caminhava e conseguia ir ao banheiro sem, como dizia, incomodar ninguém.

Acontece que as inconveniências que aparecem com a idade estavam se avizinhando e foram chegando sem cerimônia nem aviso prévio para, pouco a pouco, mostrarem sua crueldade. Para complicar, isso se deu no final de 2019, ou seja, três meses depois chegou essa virose que ainda assola o mundo e que nos obrigou a dispensar os serviços das cuidadoras que o acompanharam quando veio para minha residência, aliás, uma condição imposta por ele para concordar em se mudar.

Com isso, teve início o período mais difícil de sua adaptação ao nosso apartamento. Em que pese a boa instalação dos aposentos onde esteve acomodado ele costumava dizer que lá não era seu domínio e sim nosso, meu e de Clara. Como consequência, enquanto as cuidadoras estiveram presentes correu tudo bem, mas a ausência delas nos colocou a cumprir suas tarefas além das nossas o que acabou por modificar definitivamente o cotidiano de todos. No entanto, o que parecia ser uma tarefa extenuante foi rapidamente superada por sua espontânea colaboração ao perceber as dificuldades que estávamos enfrentando. Tanto, que cooperou de forma definitiva para diminuir os riscos dos estresses que eventualmente ocorrem nesse tipo de situação.

Assim mesmo, o início foi muito difícil principalmente porque tivemos que adaptar nossos horários, por isso tive que dormir com ele com receio de deixa-lo sozinho no quarto, ajuda-lo na higiene pessoal, trocar a roupa e outras atividades que não conseguia fazer sem o necessário apoio. Então, para amenizar esses momentos passamos a tomar banho juntos, oportunidades em que no princípio riamos muito ao lembrar que era ele quem me ensaboava e agora eu fazia as vezes do ensaboador. Depois, ajudava a enxugava seu corpo, se vestir, pentear os cabelos e fazer a barba em momentos que transformamos em divertidas trocas de informação até percebermos o quanto eu tinha dele em meus procedimentos para as mesmas coisas.

Foi assim, principalmente depois que começou a mostrar cansaço até para caminhar pequenas distâncias como ir da sala até seus aposentos ou quando sua pouca visão dificultava o apoio nos suportes instalados no quarto e no banheiro. Dessa forma, as medidas paliativas que fomos tomando com o passar do tempo retardaram mas não impediram sua quase total dependência, no entanto, foi seu entendimento da realidade que o cercava que lhe possibilitou aceitar de bom grado o suporte que procurávamos de todas as maneiras lhe proporcionar. A proximidade do final com plena consciência foi o que nos fez optar por mantê-lo nas casas dos filhos até o fim. Dessa forma, papai permaneceu consciente, acolhido e com disposição para viver em família pelo maior tempo que Deus nos permitiu lhe proporcionar.

Manter seu cérebro ativo através de longas conversar, incentiva-lo a contar suas lembranças, histórias que ouviu e as aventuras que viveu foram o combustível que alimentou seu ânimo e manteve seu coração batendo forte durante aquele maravilhoso tempo que esteve conosco no final da vida.

Com a necessária frequência, seus filhos, noras e netos estiveram com eles participando de momentos que foram como viajar com papai no tempo em ocasiões que me faziam lembrar de quando íamos passar férias em Bela Vista, hoje Mato Grosso do Sul, na cada de sua mãe, vó Sinhara, e ela nos colocava a bombear o carneiro do poço para encher a caixa d’água. Então, todos os dias as crianças eram escaladas para aquele trabalho que acabava se transformando em divertida competição onde quem conseguisse bater a alavanca do carneiro mais rápido em determinado espaço de tempo ganhava a disputa. Era com esse espírito que nos alternávamos a sua volta no prazeroso empenho de bombear forças a papai.

Vaidoso, volta e meia se lembrava de uma de suas roupas ou pertences e fazia questão de saber onde estavam. Com frequência se comunicava com sua tia Gloria com quem conversou até perto dela falecer aos 102 anos, ele já com 97. Pelo lado dos Portocarrero sempre manteve contato com a prima Virgínia, outra centenária da família ainda viva nesse início de 2022. Da mesma forma, regularmente pedia que ligássemos para os amigos, a querida sobrinha Cida e para Enedina, sua filha de coração.

Em seus derradeiros meses passava bom tempo falando de mamãe, era quando afirmava que ainda sentia sua presença na hora de dormir, momento em que dizia ouvir ela rezar o terço e fazer imposição das mãos sobre sua cabeça pedindo por sua saúde da mesma forma que fazia todas as noites pensando que ele já estivesse dormindo. Quando mamãe morreu, papai disse que ela veio até ele na noite anterior a seu falecimento para avisá-lo que estava partindo de modo que no dia seguinte foi até a hospital para se despedir.

Muito do que contei nesse texto foi mencionado no que escrevi anteriormente, mas relembrar os momentos que estive com papai só me fazem bem e com certeza a meus irmãos também porque sempre pedíamos sua benção quando nos despedíamos nas vezes que íamos estar com ele em sua casa, depois na minha e na de André Guilherme onde passou seus últimos momentos. Quanto a mim, aquelas ocasiões são eternas porque enquanto esteve comigo era depois de acomoda-lo na cama que me sentava a seu lado para conversar mais um pouquinho e pedir sua benção que, invariavelmente, após essa despedida de boa noite ele pegava minha mão, a colocava sobre seu peito e agradecia por estarmos juntos. Por fim, e sob meus veementes protestos dizendo que era eu quem lhe agradecia por ser meu pai ele dizia seu inesquecível: – Deus te abençoe meu filho.

Que ninguém te veja assim.

Se você sabe o que quer,
Faça então tua vontade,
Não pense em algum talvez.
Que teus sentimentos voem
Como as folhas do outono,
Mas saiba que elas caem.
Quando esse momento chegar,
Não chore só por chorar,
Nem pelo amor perdido,
Senão, todos saberão o que você sente,
Quando verem tuas lágrimas.
Lágrimas são como páginas abertas de um livro,
Onde não é preciso saber ler para entender.
Basta apenas ver para sentir,
Se elas rolam por amor,
Ou outra razão qualquer.
Então, chore agora,
E que ninguém te veja assim.

Tradições esquecidas

Aquelas nossas tradições,

De fazer os apetrechos,

Das lidas nas fazendas,

Se foram com os antigos.

Nosso ancestrais esquecidos,

Pioneiros da jornada,

Homens e mulheres,

Velhos peões.

Ninguém se interessou,

Ou quis saber,

Poucos guardaram suas lições.

Restaram histórias do que foram,

Do que fizeram,

Traços do que deixaram.

Da cultura de fazer com as mãos,

De apreciar com os olhos,

De sentir com o coração.

A maior parte sumiu,

Entregue ao tempo,

Levada pelo vento,

Que passa ao largo,

E se vai na imensidão.

Como a água da chuva

Que cai sobre nossa cabeça,

Escorre pelo corpo

E some pelo chão.

Prova de vida

Outro dia, mandei para algumas pessoas uma gravação do presidente do INSS a respeito do termino da exigência de prova de vida para os idosos na intenção de dar a merecida publicidade a essa excelente e muito aguardada notícia para todos que como eu já passaram dos 60 anos e estão aposentados.

Para minha surpresa, uma única pessoa dessas para as quais repliquei a gravação me respondeu de forma diferente, aliás, procedimento comum em quem foi idiotizado pelo revanchismo ideológico que infectou as mentes inconformadas com a vitória dos conservadores em 2018.

Em sua raiva incontida, essa pessoa alegou que sair de casa para ir a uma agência bancária fazer a prova de vida era um dos poucos prazeres de sua mãe e que agora, graças a esse FD* do Presidente da República, nem isso ela poderia fazer. É, acreditem, foi isso mesmo, sem tirar nem pôr uma única palavra.

A princípio, estarrecido com o impacto nauseante daquele comentário descabido, aliás, como outros que volta e meia somos obrigados a ouvir de pessoas das quais menos se espera esse tipo de atitude fiquei calado, preferi seguir o conselho de meu pai que sempre pródigo em seus comentários sobre coisas absurdas falava que era melhor ouvir desaforos que dizê-los e depois se arrepender.

Então, mesmo encafifado com a situação esperei passar algum tempo na esperança de conseguir relevar aquela asneira, mas não consegui. Em minha cabeça continuava a latejar a inesperada origem de um procedimento tão pobre da racionalidade vindo de quem eu conhecia e sabia ter cultura e conhecimento superiores ao meu que se resume a um único curso superior, sem uma (sempre necessária) pós-graduação, um MBAzinho que fosse, que dizer então de mestrado e doutorado. Meu conhecimento é o mesmo de vários amigos, ou seja, sou mais um daqueles esforçados autodidatas sobre a realidade da vida.

Essa forma de pensar e agir por impulso que percebi na enviesada resposta que recebi me faz pensar em como foi importante estar presente na velhice de meus pais de modo a não permitir que uma ida ao banco se tornasse um de seus únicos prazeres. Não, muito pelo contrário, enquanto pude eles foram levados para cumprir desde seus afazeres mais simples como comprar alimentos, remédios, roupas e outras de suas necessidades habituais, como também as inadiáveis idas ao médico, a um bom restaurante e até mesmo ao banco para fazerem suas provas de vida.

Mas, ao que tudo indica não deve ser esse o modo de pensar e agir de quem prefere culpar o outro por suas falhas por menores que sejam. Isso comportamento, é típico de quem pensa como aquele sociólogo e seu camarada aposentado por invalidez porque perdeu o dedinho os quais medem os outros por suas próprias métricas. Aqueles mesmos, que de tanto enganar desconhecem o que é agir sem maldade, sem revanchismo, sem mau-caratismo e que continuam a proceder assim sem ter vergonha do que fizeram de errado nem do que deixaram de fazer de certo quando tiveram a oportunidade de fazê-lo.

Não, preferem entender que medidas como essa a que me refiro em relação a dispensa de prova de vida para continuar recebendo aposentadoria seja uma medida eleitoreira sem se dar conta de que ao contrário do que sempre fizeram o que temos agora não se trata de promessa de campanha, mas sim do cumprimento dela para com os aposentados.

Essa é a diferença entre prometer e não cumprir para comprometer e fazer, coisa que desconhecem. Por sinal, essa não foi uma promessa de campanha, foi um compromisso.

Falar nisso, alguém conhece alguma promessa de campanha feita aos aposentados do INSS que tenha sido comprida pelos ex Presidentes da República do PT, PSDB e PMDB?