Nem cocô de gato

Meu pai adorava contar um caso que aconteceu com ele quando era um jovem bancário na cidade de Guararapes, no interior de São Paulo. Naquela época ele morava em uma pensão onde o café da manhã servido pela senhoria era bastante simples, mas nunca deixava de ter como opção de bebida quente um delicioso chá de cidreira.

Certa vez contou que em uma ocasião na qual as opções eram poucas ele e outros hospedes estavam cochichando sobre a situação e não perceberam a aproximação da dona. Então, para disfarçar a vergonha de terem sido pegos reclamando, passaram a elogiar o delicioso chá que estavam tomando e perguntaram a ela onde conseguia a erva para prepará-lo.

Sem pestanejar a senhoria foi logo dizendo a eles ser do quintal da pensão, ou seja, da moita de capim cidreira que ficava no canto do terreno, bem atrás dos quartos onde estavam hospedados e olhando firmemente para eles disse ser daquele mesmo lugar onde costumavam mijar à noite.

Pronto, a informação gerou alguns engasgos, assopros com respingos e até chá saindo pelo nariz, o que fez com que ela logo tivesse que passar um pano na mesa que acabavam de sujar. Enquanto isso, risos incontidos se faziam comuns a todos que estavam tomando café da manhã naquela hora.

É que durante a noite, quando tinham vontade de fazer xixi e batia aquela preguiça de ir até o banheiro comunitário localizado do lado de fora da ala onde estavam hospedados, ele e os rapazes se aliviavam justo na enorme moita de capim de onde era feito o delicioso chá que tomavam.

Por isso, quando ele queria me alertar sobre a importância de não desperdiçar nada do que encontrasse pela frente, começava contando essa história do chá e acabava dizendo que não se deve desperdiçar nem cocô de gato. Basta saber usar, dizia ele, é só enterrar que logo vira adubo da mesma forma que acontecia quando mijavam na moita de capim cidreira.

A cerimônia do ovo quente.

Todo dia era assim até seus 97 anos, quando descansou. Durante todo esse tempo o ritual se repetia diariamente, desde quando me lembro.

Ele acordava cedo, tomava banho e durante o café da manhã se concentrava nos assuntos que teria que administrar durante o dia que se iniciava. Aquela cerimônia se tornou um momento de reflexão em que todos nós acompanhávamos a preparação dos ovos quentes que antes eram dois e com o tempo passou a ser apenas um, mas esse não podia faltar. 

O recipiente especial com o encaixe para o ovo, a pequena colher utilizada para abrir a casca no minucioso processo de construção do orifício sem, contudo, deixar remover muito da casca, apenas o suficiente para permitir colocar a colher contendo uma pitada de sal em seu interior, processo milimetricamente ajustado à minúscula colher que depois iria misturar o conteúdo em seu invólucro antes dele ser sorvido ao ser levado à boca. Esse último movimento sempre produzia um som característico que incomodava mamãe, mesmo assim seu balançar de cabeça em sinal de desaprovação passava como que despercebido.

E nós ali, sentados em silêncio, assistindo aqueles inesquecíveis momentos da relação entre os dois em aparente desavença que, em verdade, eram subterfúgios para camuflar o carinho que havia entre eles.

Papai não aceitava a temperatura e a consistência dos ovos fora de seu gosto, fazendo com que mamãe não delegasse a missão de aquecê-los a ninguém, afinal era por eles que começava sua permanente atenção a todas as coisas relativas ao dia de seu marido, uma espécie de processo regulador do humor de papai.

Em seguida ele tomava uma xícara de café bem quente, para a boca de pito dizia, e acendia o primeiro cigarro do dia. Só então, voltava a se dirigir a nós para saber do que precisávamos ou faríamos. Quanto a ela, era envolvida em um prolongado abraço e afetuosamente beijada na testa, um agradecimento pelo mimo que recebia todas as manhãs antes de sair para o trabalho.

Era assim que começávamos os dias enquanto estivemos morando com eles até crescermos e formamos nossas próprias famílias. Como em cada casa os costumes são diferentes o mesmo não acontecia conosco, mas quando ele teve que vir morar com os filhos após ela ter ido na frente se encontrar com Deus e as dificuldades da idade sobrepujarem sua vontade de morar sozinho, tivemos que seguir a tradição e manter os ovos quentes das manhãs na tentativa de dar a ele um pouco do que era seu ritual no café da manhã.

Com o passar do tempo e não tendo mais mamãe para atender seu paladar ele foi se acomodando de acordo com as circunstâncias e ficou menos exigente quanto aos prazeres que lhe proporcionavam o processo de quebrar a casca do ovo, temperá-lo e sorver seu conteúdo, nós já o trazíamos pronto, mas a expressão de contentamento, essa não perdeu, aliás, no envolvimento da descrição da cerimônia como um todo me esqueci de um dos principais detalhes da cerimônia, os olhos, ele os fechava ao tomar o ovo quente como que saboreando um manjar inigualável.

Essa peculiar maneira de mostrar prazer ao comer algo gostoso herdei dele. Assim, quando sou pego por minha esposa e filhos agindo da mesma forma, sempre me recordo de suas palavras para se referir ao prazer de comer algo que se gosta: – Hummmm…, que delícia!

Um certo lugar

Há um certo lugar onde chegaremos após cumprir todos os desígnios de Deus. Antes disso, precisamos compreender a razão dos sofrimentos aos quais somos submetidos durante nossas passagens terrenas.

Tempo necessário a que a alma (espírito) que nos habita possa alcançar a plenitude. Essa sim uma só, que certamente muitas vidas suportará até chegar a “esse certo lugar”.

Lá o materialismo não existe, mover-se é um pensamento solto ao largo do espaço sem fim, infinito que é como o tempo que não mais se conta, pois a efemeridade perdeu sua relevância.

O ímpeto e a coragem

Quando jovens, aquela fase da vida que vivemos logo após a infância, época da curiosidade que nos levava a meter o nariz em quase tudo, o ímpeto era o combustível que nos movia.

É prazeiroso lembrar de quando tínhamos que nos acotovelar com quem se metia a disputar conosco um lugar, fosse ele em uma fila para comprar uma entrada, no gargarejo de um show do Projeto Pixinguinha ou mesmo nos festivais de música popular.

O que dizer então das disputas esportivas, nas partidas interclubes e nos jogos universitários daquela época em que, no auge da juventude, usávamos nossas forças física, técnica e tática para enfrentar e vencer adversários.

Essa motivação natural, a impetuosidade, também foi muito importante no início de nossas vidas profissionais. Ela nos fez buscar por objetivos muitas das vezes sem a necessária reflexão sobre qual decisão tomar ou o caminho a seguir. Bastava surgir uma oportunidade e lá íamos nós à luta, enfrentando os obstáculos plantados por aqueles que se valiam de suas influências sociais e políticas.

As justificativas para esse tipo de procedimento e o enriquecimento ilícito sempre fluíram fácil no raciocínio segundo o qual o que importa é ganhar, mesmo que para isso seja preciso vender a alma ao diabo. Coisas daqueles que obtêm sucesso através de suas relações com os facilitadores do dia a dia, configurando assim o normal deles.

Conhecimento, caráter e honestidade eram nossas credenciais e ainda o são, entretanto, assim como antes, ainda têm pouco valor nos esquemas montados por aqueles que fizeram do contrário seu “modus operandi”. As exceções são as raras formas honestas de ser que sempre existirão, não só para confirmar a própria natureza etimológica do termo honestidade, como também para expor a dinâmica das ligações externas, sejam elas políticas, sociais e familiares, principalmente quando o objetivo é facilitar as coisas.

Trata-se de um procedimento desleal do comportamento humano que permanece entre nós, sendo utilizado pelos fracos de caráter, configurando-se como verdadeiro trampolim profissional, quando não em salva-vidas dos incompetentes. Assim era e continua a ser no raciocínio genérico do cada um por si e Deus por todos, mesmo sabendo que não passa de uma contradição à realidade, quando da desejada intervenção divina. Mas, Ele, que nunca interviu nesse sentido, sempre está acompanhando nossos passos estejam eles nós levando em sua direção ou mesmo nos afastando dela.

Graças a Deus e apesar dos pesares praticamente tudo deu certo, principalmente quando lembramos que coroando aquela fase extraordinariamente dinâmica de nossas vidas, a competência e a coragem sempre estiveram presente, para nos levar a vencer desafios e superar obstáculos. Certo também é que, em determinado momento, a coragem se uniu a paixão e juntas nos fizeram encontra o amor das pessoas com quem construímos nossas famílias.

O ímpeto é o impulso que nos move inesperadamente. Ele é capaz de fazer vencer barreiras.

A coragem é como uma virtude. É a capacidade extraordinária que desenvolvemos para ir em frente mesmo com medo.