Todo dia era assim até seus 97 anos, quando descansou. Durante todo esse tempo o ritual se repetia diariamente, desde quando me lembro.
Ele acordava cedo, tomava banho e durante o café da manhã se concentrava nos assuntos que teria que administrar durante o dia que se iniciava. Aquela cerimônia se tornou um momento de reflexão em que todos nós acompanhávamos a preparação dos ovos quentes que antes eram dois e com o tempo passou a ser apenas um, mas esse não podia faltar.
O recipiente especial com o encaixe para o ovo, a pequena colher utilizada para abrir a casca no minucioso processo de construção do orifício sem, contudo, deixar remover muito da casca, apenas o suficiente para permitir colocar a colher contendo uma pitada de sal em seu interior, processo milimetricamente ajustado à minúscula colher que depois iria misturar o conteúdo em seu invólucro antes dele ser sorvido ao ser levado à boca. Esse último movimento sempre produzia um som característico que incomodava mamãe, mesmo assim seu balançar de cabeça em sinal de desaprovação passava como que despercebido.
E nós ali, sentados em silêncio, assistindo aqueles inesquecíveis momentos da relação entre os dois em aparente desavença que, em verdade, eram subterfúgios para camuflar o carinho que havia entre eles.
Papai não aceitava a temperatura e a consistência dos ovos fora de seu gosto, fazendo com que mamãe não delegasse a missão de aquecê-los a ninguém, afinal era por eles que começava sua permanente atenção a todas as coisas relativas ao dia de seu marido, uma espécie de processo regulador do humor de papai.
Em seguida ele tomava uma xícara de café bem quente, para a boca de pito dizia, e acendia o primeiro cigarro do dia. Só então, voltava a se dirigir a nós para saber do que precisávamos ou faríamos. Quanto a ela, era envolvida em um prolongado abraço e afetuosamente beijada na testa, um agradecimento pelo mimo que recebia todas as manhãs antes de sair para o trabalho.
Era assim que começávamos os dias enquanto estivemos morando com eles até crescermos e formamos nossas próprias famílias. Como em cada casa os costumes são diferentes o mesmo não acontecia conosco, mas quando ele teve que vir morar com os filhos após ela ter ido na frente se encontrar com Deus e as dificuldades da idade sobrepujarem sua vontade de morar sozinho, tivemos que seguir a tradição e manter os ovos quentes das manhãs na tentativa de dar a ele um pouco do que era seu ritual no café da manhã.
Com o passar do tempo e não tendo mais mamãe para atender seu paladar ele foi se acomodando de acordo com as circunstâncias e ficou menos exigente quanto aos prazeres que lhe proporcionavam o processo de quebrar a casca do ovo, temperá-lo e sorver seu conteúdo, nós já o trazíamos pronto, mas a expressão de contentamento, essa não perdeu, aliás, no envolvimento da descrição da cerimônia como um todo me esqueci de um dos principais detalhes da cerimônia, os olhos, ele os fechava ao tomar o ovo quente como que saboreando um manjar inigualável.
Essa peculiar maneira de mostrar prazer ao comer algo gostoso herdei dele. Assim, quando sou pego por minha esposa e filhos agindo da mesma forma, sempre me recordo de suas palavras para se referir ao prazer de comer algo que se gosta: – Hummmm…, que delícia!

Tio CASUZA ERA UMA PESSOA MARAVILHOZA E TINHA O APOIO DEDICADO DA TIA ARACY, SISTEMÁTICO E CARINHOSO COM OS SOBRINHOS.
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É muito bom termos momentos felizes para recordarmos dos nossos pais.
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Saudades amor respeito❤️
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