A fé e o medo

O principal equívoco da igreja católica é não entender que a fé reside apenas e tão somente em Deus e que ela deveria ser (de novo, apenas e tão somente) uma instituição criada para congregar pessoas que creem Nele e em seu dileto filho Jesus Cristo.

É o que está acontecendo com outras instituições que também passaram a dar mais ênfase à arrecadação do dízimo que para a fé religiosa de quem as frequenta.

Isso está ocorrendo desde que passou a dar importância ao material em detrimento do espiritual, momento em que começou a perder este importante elo de ligação com o Criador.

A meu ver, essa má orientação e o consequente afastamento de sua razão de existir está causando perda de relevância em relação ao cristianismo original.

É difícil encontrar alguém que tenha se convertido ao cristianismo católico devido às mudanças propostas através de novas teologias, a exemplo dessa que se auto interpreta como sendo da libertação.

O que se percebe, estatisticamente falando, é a sensível redução no número de cristãos seguindo essa, digamos, nova ordem, que aos poucos vai se apossando do tradicional catolicismo. Se estão tão certos de sua orientação filosófica, porque não fundam a sua? Esta questão surge porque, de outra forma, já a teriam criado e aberto mão do dízimo dos católicos conservadores que tanto combatem. Assim seria, se fossem o que dizem ser mas não são, porque não vão largar aquele enorme patrimônio humano, físico e financeiro devido, entre outras coisas, seu maior comprometimento com o material que com o espiritual.

Esse movimento, percebido pelos gnósticos nos primórdios do cristianismo e por Lutero lá atrás, acabou por oportunizar que outras instituições cristãs surgissem no vazio deixado pela igreja católica quando de sua guinada progressista na medida em que a fé, sua principal coluna de sustentação, passou a dividir espaço com o medo, neste caso representado pelo materialismo. Vide a pompa e riqueza do Vaticano, uma cidade-estado, algo inimaginável, se não filosoficamente inconcebível para os primórdios do que se tornou a igreja católica.

Para bem complementar o raciocínio do parágrafo anterior, é importante salientar que a fé e o medo são dois sentimentos que não coexistem devido o primeiro significar a existência de amor e o segundo o desespero de sua ausência.

Quando a sabedoria popular diz que a fé remove montanhas, na verdade está ensinando, como Maomé o fez, onde não é a montanha que vem até nós e sim que nós devemos ir até a montanha, ou seja, a razão deve superar o desejo, e isso só se dará pelo crescimento espiritual.

O crescimento material é passageiro e dura apenas uma existência física, já o espiritual é conhecimento interior, aprimoramento que evolui a cada tempo terreno e nos acompanha na medida em que buscamos a perfeição em Deus.

O tempo sempre será senhor da razão, entretanto, o materialista o usa para enriquecer o corpo enquanto o espiritualista o tem para enriquecer a alma.

Vem vovô, vem, vem…

Vem vovô, vem, vem…como resistir a esse chamado!

As vezes as crianças têm formas sutis de acender em nós emoções que superam em muito as que vivenciamos com os filhos.

Não precisam mais que um olhar ou um sorriso, mesmo um gesto, quando não de uma palavra para ocupar de uma vez os corações dos avós.

Túlio, meu segundo neto, como todos, tem essa capacidade e sabe usar todos os sentidos para fazer valer seu domínio, principalmente quando segura minha mão e fala suas palavras mágicas – Vem vovô, vem, vem – e com isso me leva para onde quer.

Théo, o mais velho deles também sabe exercer esse poder sobre nós, eu em especial, até pelo celular, quando estamos em videochamada. Então, quando percebe a possibilidade de perda do controle da situação sapeca um “eu te amo vovô” e logo recupera o domínio. É impressionante como eles aprendem rápido essa competência sobre os avós.

Agora chegou uma neta, meu Deus, se os meninos já nos controlam fico imaginando o que vai ser de nós com ela no comando. Sim, porque uma característica de nossa família é de uma superioridade esmagadora de ascendência e descendência masculina. Somos quatro irmãos e nenhuma irmã, tenho dois filhos e nenhuma filha e já tive dois netos antes da chegada da Lívia.

Vai ser um arraso essa menina.

Luta

Minha luta é com palavras 

Nela o pensamento é minha arma

Das letras faço munição.



Da censura opressora

Não temo retaliação

Sigo em frente destemido

Tenho minha opinião.



Não me rendo a opressão

Seja ela de quem for

Com a força da minha mente

Sigo firme sem temor.

A relativização da liberdade

Para se tornar prisioneiro da verdade dos outros não é preciso acreditar nela, basta aceitá-la pacificamente. Essa é a diferença entre os que lutam por liberdade e os que teimam em relativiza-la.

“Cogito, ergo sum”, traduzindo, Penso, logo existo ou, ao pé da letra, “Penso, portanto sou” – A frase do filósofo René Descartes, autor de Discurso sobre o método é uma orientação para bem conduzir a razão na busca da liberdade, um exemplo clássico de que ela é sua, própria, e está especificamente relacionada ao pensamento individual, não ao coletivo, pois esse remete à liberdade com os limites impostos por quem a controla.

“A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão. É uma questão de consciência” – Para Mahatma Gandhi, advogado, nacionalista e especialista em ética política, que inspirou movimentos pelos direitos civis e liberdade em todo o mundo está claro que ela é permanente desde que consciente. A questão colocada por ele é pertinente porque o controle externo não impede a liberdade vez que ela está no pensamento e não na ação ou em sua falta. Como dito, para Gandhi, a liberdade não é causa, muito menos efeito, e sim consciência.

“Você é livre para pensar suas escolhas, mas é prisioneiro das consequências” – É o que diz Pablo Neruda, poeta, diplomata e Prêmio Nobel de literatura cujo ideologia foi razão de seu sucesso na literatura e fracasso na vida. Aqui vemos a realidade da liberdade exposta da maneira concisa. Nela Neruda se refere aos atos de pensar, escolher e agir como ações libertárias que, inevitavelmente, voltarão a seu autor com suas consequências.

Não há como escapar das consequências da liberdade, assim acontece com quem luta por ela, mas principalmente com aquele que a relativiza e sob esse pretexto a impede, tornando esse contexto a atual realidade do país.

Meu pirão primeiro

A frase, tida como capitalista, é a que melhor expressa a antiga prática dos oportunistas de ocasião. Hábito esse, que voltou a estar em pleno vigor desde o dia 01/01/2023. Talvez até antes disso, a considerar o que acontece descaradamente nas altas cúpulas dos três poderes da República.

Só não vê quem tapa os olhos com uma viseira relacionada a outro dito, qual seja, “o que é que eu vou ganhar com isso”, muito popular nos três níveis de governança e nas empresas de comunicação onde até a notícia é paga. Para quem não entendeu a questão da governança, trata-se da maneira de gerir instituições, nesse caso as públicas e de economia mista.

Pirão, no jargão político, é o que se ganha na arte de negociar o que não é seu, o que para muitos também é entendido como a astúcia de tirar proveito da coisa alheia, principalmente em se tratando do erário público. Já em relação à culinária, pirão é o resultado da inserção de farinha para engrossar um caldo. Creio que essa singela explicação basta para fazer entender a analogia com o que está acima colocado.

Então, a abstinência dessa apreciada iguaria política deixou muita gente desesperada a ponto de o desconforto cegá-las quanto às consequências de seus atos. Adicionando essa somatização aos costumes da gastança desenfreada, das alianças inconsequentes e dos compromissos impagáveis teremos como resultado a negociação da dignidade, se é que um dia ela existiu em quem só se satisfaz se tiver desse pirão no seu cardápio.

A muito custo essa costumeira prática na arte de fazer política chegou a ser reduzida no passado recente na vã tentativa de moralizar a escrachada, ridicularizada, desacreditada, depreciada, desconceituada e desabonada leva de parlamentares que, eleição após eleição, vem sendo conduzida às duas Casas do Congresso Nacional, em grande parte graças aos votos de legenda e procedimentos nada republicanos de compra de votos.

Seria o caso de dizer inacreditavelmente, mas não dá porque efetivamente a maioria dos processos de cassação (quando existem) de candidatos desonestos não termina, melhor dizendo, termina em nada. A justiça, seja ela comutativa, geral ou legal e distributiva, cuja simbólica estátua a apresenta como impossibilitada de ver, portanto, de ser manipulada pelos pesos colocados em sua balança, mostra não ser ela totalmente cega quando se deixa levar por subterfúgios habilmente plantados nas entrelinhas do livro das leis, seu Vade Mecum, para ser burlada em sua essência.

De acordo com o site etmologia.com.br, a ideia de justiça tem uma abordagem dupla, pois de um lado expressa a qualidade de ser justa e equilibrada na tomada de decisões e, paralelamente, faz referência a um sistema legal. Então, é nesse paralelismo com “O SISTEMA” que tudo pode acontecer como de fato acontece, infelizmente.

Busca

Fui Roubado, nunca roubei
Enganado, jamais fingi
Injustiçado, não prejudiquei
Desconsiderado, de reclamar abdiquei
Ofendido, ninguém injuriei
Discriminado, agregar procurei.

Fiz o bem, o mal nunca empreguei
Sou por competência, não sob influência
Faço por acreditar, não em desconfiar
Sigo na fé, sem me deixar levar
Doo em compaixão, não para retribuir
Rezo por crer, jamais para pedir.

O indignado perdoa, o indigno não
Seus atos o atestam
Só dá valor à sua vez
De resto nada lhe presta
Pela dor lembrará do que fez
Na eternidade que lhe resta.

Deus escreve certo por linhas retas
Torto é quem não entende
Creio Nele, por ser uno
E o procuro na jornada
Em espírito sou eterno
Na busca da última estada.

A causa

Nossa causa é aquilo pelo que fazemos algo, a origem, o motivo e a razão de todas as lutas. Já o que a enfraquece é a desculpa, o pretexto e o relativismo com outras causas como o comunismo, socialismo e o bonde. Sim, “o bonde”, como se identifica o grupo de bandidos armados que inferniza a vida de quem encontrar pela frente em suas jornadas de assaltos e outros crimes, simplesmente por saberem que o cidadão comum a eles está sujeito por força da lei, a mesma que mantem as ditaduras no poder.

O que acontece é que muitos confundem a causa com o personagem como vemos acontecer agora onde a causa conservadora é confundida com a pessoa, a faísca, que reacendeu sua chama. Da mesma forma, a causa do outro lado foi mantida e personalizada, o que para entender basta ser um bom observador.

Só para citar um exemplo, se de um lado a causa está focada na manutenção de princípios como o da família, instituição sagrada e unidade social mais antiga da humanidade, do outro a meta é sua dissolução como pré-condição para alcançar seu objetivo. Nela os princípios são contrários, ou seja, os filhos não são frutos dos pais, mas seus produtos; os cônjuges simples pares, posto que perdem seu significado divino porque a eles basta o caráter civil, material.

É o suficiente para tentar eliminar aquele outro conceito, tido como concepção retrógrada no entender de quem se alinha à causa coletivista segundo a qual a família passa a ser um núcleo social de pessoas unidas por laços afetivos, que geralmente compartilham o mesmo espaço e mantêm entre si uma relação solidária. (Dicionário Houaiss)

Para eles, o tradicional papel da família na transmissão de valores morais, sociais, tradições, costumes e mesmo conhecimento não se aplica mais, foi transferido aos professores e para o assistencialismo social onde o estado define os valores e conhecimentos que devem ser repassados, desde que estejam de acordo com sua orientação ideológica. Mas o pior ambiente enfrentado está na Internet, âmbito em que as ideias conservadoras foram abolidas pela mídia jornalística e programas televisivos através dos quais difundem de forma sistêmica e programada somente as ideias progressistas.

Voltando a falar da causa conservadora e da faísca que reacendeu sua chama, bastaram quatro anos para que vicejasse como que infinita, fato que os eternos descontentes insistem em desacreditar, eu não.

Parafraseando o poeta Vinicius de Moraes nas duas últimas linhas de seu antológico Soneto de Fidelidade:

Que não seja imortal, posto que é chama

Mas que seja infinita enquanto dure.