MORRER DE AMOR

Com o passar do tempo, em muitas ocasiões, durante muito sofrimento e muita dedicação, o amor chega a ser capaz de, em sua falta, causar tanta dor que a morte se apresenta como válvula de escape.

Não, não estou me referindo a suicídio na forma como é conhecida a decisão abrupta de dar fim a própria vida. Aqui, faço referência à desistência paulatina e irreversível de viver sem a presença de uma pessoa especial, a pessoa amada.

Acho que nunca tinha me deparado tão de perto com uma situação dessas, até ser informado da morte de um amigo de juventude, da época em que morei em Campo Grande, Mato Grosso do sul.

Existem outras formas de aparente desistência, como no caso de estresses e doenças incuráveis que podem causar esse tipo de sofrimento. Com certeza já vivemos essas situações, o que nos leva a considerar que a depressão é seu ápice.

Os momentos de introspecção dolorosa pela perda de alguém que nos foi muito importante acaba por machucar a todos os que conheceram as causas ou motivos, muito embora não tenham participado dos acontecimentos que fazem com que uma pessoa se sinta tão mal a ponto de desistir.

A situação a que me refiro se deu com esse amigo, amigo querido, devido à devoção com que dedicou seus últimos anos de vida a cuidar da pessoa a quem amava.

É uma história que começa distante, na época em que eram jovens e se apaixonaram pela primeira vez. Depois, o tempo e as situações por ele criadas foram paulatinamente os afastando. Casaram-se com outros amores, tiveram filhos e um dia se viram separados, portanto, livres para que a providencia de Deus os fizesse se encontrar novamente.

O que aconteceu nesse grande intervalo de suas vidas antes do reencontro foram situações terríveis, principalmente na vida dela, pois perdeu os pais, uma irmã e um irmão em um acidente de carro no qual estava presente, fazendo com que ela e sua outra irmã, as únicas sobreviventes da tragédia, ficassem órfãs. Então, passaram a ser cuidadas e amparadas por seus tios e tias, morando ora com uns ora com outros, até atingiram condições de voltar à Campo Grande, de maneira a se inteirarem de seus bens e administrá-los.

Uma delas, como já me referi anteriormente, casou-se com quem então amava, tiveram filhos e progrediram, mas um dia o bom relacionamento terminou, as razões não vêm ao caso, mesmo assim, não se separaram na forma civil, no entanto, a separação física ocorreu sem muitos desgastes, como era de esperar, acontecesse entre pessoas consequentes.

Foi quando se reencontraram. Ele separado, também sozinho, a aproximação, muito embora paulatina devido as relações com filhos e situações outras que a delicadeza da situação apresentava tiveram duras barreiras a superar, mas conseguiram.

Certo dia uma dor de cabeça insistente a fez procurar solução médica e descobriu-se um tumor no cérebro que, operado, a deixou dependente da ajuda de outras pessoas pelo resto da vida. De repente se viu efetivamente só e com dois filhos para criar. Sim, porque mesmo antes de casada já era e continuou a ser independente, uma das faces de sua marcante personalidade.

Ele se aproximou ainda mais e foram novamente se relacionando, revivendo o passado que outrora os uniu e que o presente se lhes apresentou novamente a oportunidade.

Entre as boas fases de aparente recuperação física e as recaídas reconstruíram uma ligação que se tornou bastante forte, a ponto de fazer com que superassem os revezes que continuaram a se apresentar, cada vez com mais frequência. Os filhos cresceram, se casaram e foram para lugares distantes. A ligação com a pessoa a quem ainda estava civilmente ligada transcorria de forma tranquila, mesmo na constante presença do atual companheiro a seu lado.

Sofrida, endurecida, porém decidida, enfrentou os incontáveis e amargos revezes que se apresentaram contra sua invejável perseverança sem desistir, até que a derradeira das armadilhas de sua vida aconteceu com a precoce perda do filho querido. Um jovem promissor, forte, resultado da bonita mistura das características dos pais, mas que o implacável vírus da epidemia que se alastrou pelo mundo alcançou e levou. Para piorar, com a distância e as condições de segurança epidemiológica vigentes ela se viu impedida de ver o filho pela última vez.

Foi a gota que faltava para que a desesperança retomasse força e a despedaçasse. Paulatinamente a tristeza foi tomando conta de sua existência e a fez desistir. Parou de lutar e por isso morreu.

Quanto a ele. Ele assistiu a tudo a seu lado apoiando, tentando fazer o possível e o impossível para reanimá-la, mas não conseguiu e assim ela se foi.

Ficaram as lembranças do amor inesquecível e, agora sabemos, insubstituível que o levou pelo mesmo caminho.

Sozinho novamente, sem esperanças à frente, sobreviveu à ausência de sua amada por sofridos 18 meses. Também desistiu. Resistindo aos apelos dos filhos e amigos, aos poucos foi se afastando de tudo e de todos. Decidiu pelo que acreditou ser a única forma de ir ao encontro dela e definhou até MORRER DE AMOR.

Agindo miseravelmente

A cada revés perco um pouco do pique. Estou cansado de me posicionar e ver que poucos o fazem. De resto, a permanência em cima do muro é postura daqueles que lá sempre estiveram e dos que ficam nas arquibancadas da vida para receberem seus pães com mortadela e, sem se importarem, permanecem contribuindo para que sejamos conduzidos ao abismo do absolutismo.

“A vida é curta, entretanto, longo e imprevisível é o legado que, a continuarem nessa posição, vão deixar aos seus e aos nossos filhos e netos”.

Razão pela qual, a gente fica lendo, mesmo ouvindo, aqueles que fingem analisar as questões somente sob o ponto de vista cru das disputas políticas, ou seja, qual ideologia ganhou ou perdeu, a principio alegando equidistância, depois nem tanto, o que nos deixa a espera de algo verossímil ou ao menos consistente.

É a turma do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, do “o que é que eu vou ganhar com isso”, e tantas outras frases verdadeiras sobre intenções ocultas, que daria para escrever um livro, o livro das sem-vergonhices.

Então, quando me deparo com esse tipo de pensamento em gente que conheço, sempre me decepciono e faço, intimamente, a mesma pergunta: – Onde acham que isso vai parar?

Para mim, fica claro que esses são os que sempre ficam nas janelas esperando as bandas passarem, para depois se infiltrarem no cordão dos puxa-sacos de quem ganhou, torcendo para que ninguém veja, ninguém saiba, se é que se importam com isso.

São o que sempre foram, párias dos acontecimentos, porque nas horas decisivas sempre estão ausentes,…esperando,…esperando,… que outros façam o que precisa ser feito para, só depois, mostrarem suas caras.

Certo é, que não falo dos MANÉS, me refiro aos que permanecem a vida inteira na obscuridade do cochicho ao pé do ouvido, são natimortos, no que se refere a expressarem publicamente suas opiniões sobre questões políticas. Questões estas, que não se restringem a quem ganhou ou perdeu e sim a o que ganhamos ou perdemos.

Quem continua a agir dessa maneira acha que “tudo voltará a ser como dantes no quartel de Abrantes”, e assim vão, vivendo do luxo que ainda ostentam, mesmo agindo miseravelmente.