Ideias, ideais e ideologias

Em uma discussão, dependendo do âmbito e não do ambiente, os oponentes, ao atingirem alto grau de estresse, costumam confundir ideias com ideais, daí acabarem por externalizar suas ideologias.

No campo das ideias, temos que estas não passam de opiniões pensadas com a intenção de fazer algo, pois é a partir delas que as coisas passam a ter formatação ou, em outras palavras, existir de fato.

Já ideal é um princípio, uma aspiração que se toma por modelo. Tem muito a ver com o imaginário coletivo, daí ser entendido como aspiração, ambição ou mesmo fantasia.

Algo perfeito no que se refere à estética tanto física quanto sociológica, o que o torna um entendimento pessoal, particular mesmo. Afinal o que é belo para alguém, pode ser feio para outrem.

Como se percebe, tanto um conceito quanto o outro são insumos para a construção de convicções filosóficas, sociais e políticas, que contribuem individual e conjuntamente para o aparecimento de uma porção de propostas alimentadas pelo ativismo, seja ele conservador, progressista ou outro qualquer.

O conservadorismo acredita nas tradições, porque estas oferecerem à sociedade, melhor dizendo, ao indivíduo, a possibilidade de exercer opinião, agir em liberdade, respeitar valores religiosos, morais, éticos e familiares bem como defender sua nacionalidade, considerar e respeita o passado como mecanismo construtor do presente e indutor do futuro.    

Do outro lado, o progressismo busca o que chama por igualdade, no entanto, na prática relativiza este conceito ao se utilizar de argumentos desagregadores.

Agindo assim, ao invés de reunir, aparta ainda mais a humanidade de seus princípios originais, ou seja, propõe a consideração de variações opcionais irrestritas sobre quase tudo.

Entretanto, não age dessa forma em relação a direitos como o livre-arbítrio, desconsiderando assim a gênese igualitária universal, que tem como um de seus pilares fundamentais um pressuposto criador único, seja ele um princípio religioso ou científico.

Assim, nessas ocasiões e sorrateiramente, a discussão passa do campo das ideias para o dos ideais e destes para o das ideologias, em concepções cada vez mais díspares em conteúdos e objetivos.

Tanto, que hoje em dia há cada vez mais espaço para a inclusão de novos tipos de ideologias, a exemplo da de gênero, que utilizando do teórico argumento de ser um conjunto de pensamentos, doutrinas ou visões do mundo de um indivíduo ou de determinado grupo, orientado por suas ações sociais e políticas vêm sendo estabelecido, muito embora seja uma expressão não muito adequada para tratar um conjunto de princípios ainda em construção.

Interessante observar, que dentre os vários tipos de ideologias político-sociais existentes na primeira metade do século passado – o liberalismo, o conservadorismo, o comunismo, o socialismo e o fascismo – todas procuravam explicar o comportamento social através de distintas propostas, que levaram o mundo a viver em um verdadeiro caleidoscópio filosófico.

Nesse contexto, o avanço progressista fez surgir outras modalidades, dentre elas a ideologia woke, termo de origem americana, que se refere a uma percepção das questões relativas à justiça social e racial inspirada no comunismo, mas colocada em prática pelos “democratas norte-americanos” e o que vou chamar de neoliberalismo brasileiro, uma teoria sócio-econômica própria, tupiniquim mesmo, que tentou disfarçar seus vieses comunistas e socialistas através da “adoção” de princípios liberais, práticas aplicadas nos momentos que existiram logo após o afastamento dos militares do poder e que antecederam o atual “status quo” dessa nossa jabuticaba ideológica.

Uma ideologia única, lúdica, que possui em seu bojo argumentos incompatíveis, posto que composta por conceitos excludentes sobre política, economia, sociologia e cultura, os quais, em conjunto, tornam nossa sobrevivência como povo, país e nação algo incompreensível, . . . pelo menos para mim.

A experiência ensina melhor

O Conselho não é mais solicitado nem ao menos bem recebido, quando vem dos mais velhos.

Concordo que idade, por si só, não traz sabedoria, tão pouco é alcançada por todos. Entretanto, não há como negar que uma vez conseguida por quem teve competência para absorver conhecimento durante o transcorrer da vida, certamente será um bom conselheiro.

“Se conselho fosse bom não seria dado, seria cobrado”, dizem por aí. Este é, com certeza, um dos raciocínios mais mesquinho que existem. Até porque, trata de algo cujo valor é incalculável, independentemente da área em que é solicitado ou dado.

Há uma inquestionável diferença entre dação e doação, ou seja, dação se refere ao ato de liquidar uma obrigação e doação à liberdade patrimonial a favor de outrem, no caso, o conhecimento. Portanto, um benefício de valor imensurável para quem dá, tanto quanto questionável para quem recebe, exceto, talvez, no que se refere às consequências.

A principal diferença entre os conselhos vindos de quem obteve conhecimento através da experiência vivida e de quem foi treinado para vender o que não viveu reside na abrangência dos conteúdos ou, em outras palavras, é o que diferencia a sapiência do conhecimento.

Conselhos sobre o que, como, porquê, para que serve, ser e ter, não atendem mais aos anseios dos jovens. Eles estão interessados em treinamento para desenvolver competências e habilidades, outra forma de aprender (não confundir o que se adquire por treinar com o que é transmitido pela experiência), desde que seja oferecido por quem, mesmo com idade avança, se apresente jovial, como se isso o qualificasse para ser coach, estrangeirismo utilizado para ressignificar a função do treinador, ou seja, uma pessoa que transfere o que aprendeu através do treino, seja ele individual ou de forma coletiva.

Conselheiros aprendem por experiência e se dedicam a ajudar no trabalho, nas oportunidades e nas ferramentas, situações estas que lhes permitem ensinar sobre a vida, o que é amar, respeitar e tantas outras coisas boas que só o passar do tempo mostra e ensina. Portanto, não é a mesma coisa que treinar, aliás, fica longe de ser.

Mas a questão principal a que me dedico neste artigo está focada no mal causado aos mais velhos pelo afastamento, diria melhor, pela falta de paciência dos mais jovens e vice-versa, em relação a esse importante relacionamento.

Situações, em boa parte causadas pelo apressado desejo de sucesso, que acaba por desprestigiar as necessárias fases do conhecimento empírico, antigas gestoras dos tempos destinados às revisões e ajustes sobre o que se fazia ou pretendia obter; à falta das necessárias considerações dentro do próprio ambiente familiar referente aos valores hereditários, morais e culturais, entre eles o respeito, transmitidos dos avós para os pais e destes para os filhos; ao insipiente aprendizado nas escolas através de métodos, que antes alimentavam os intelectos com exercícios e informações, hoje considerados ultrapassados devido às prioridades agora dadas à sexualidade, e outros procedimentos nelas inseridos através da doutrinação paulofreiriana, que pouco ou nada contribuiu ao necessário desenvolvimento cognitivo nas tenras idades do ensino básico.

Que dizer então do desleixo referente ao aprimoramento de tudo o que acima foi colocado, com o deslocamento do investimento no desenvolvimento do cérebro humano, cujas inteligências: contextual, física, emocional e inspiracional, são cada vez mais desprezadas devido seu redirecionamento para o aprimoramento do cérebro eletrônico, a imprevisível IA (inteligência artificial) e sua razão artificial, que rapidamente está promovendo a substituição da mão de obra humana por máquinas robotizadas.

Nesse ambiente, as pessoas de mais idade, os velhos, como são considerados por aqueles que sequer sabem se um dia chegarão a tanto devido à falta de vivência temporal, costumam ser desprezados. Ainda não entenderam, que longe de ser um sacrifício ao porvir, viver o presente observando o passado é, antes de tudo, a melhor forma de se manter conectado ao futuro, mas isso é coisa que só a experiência ensina melhor.