Boneca Tereza

Tempos atrás, quando eu ainda era criança, imaginem só, hoje completo 71 anos, Boneca Teresa era como diziam as pessoas mais velhas ao ouvirem algo que já era de seu conhecimento.

Não sei qual a origem do termo; apenas suponho que esteja relacionado ao que ele mesmo sugere: uma boneca, talvez se referindo à dona do nome, a tal Tereza, alguém que tivesse a língua comprida na época do Amigo da Onça (*), lá pelas bandas de onde Judas perdeu as botas (**).

Pois bem, esta era a forma como meu sogro, o Cel. Octayde, com refinado sarcasmo, se referia a um assunto que lhe trouxessem e que já era de seu conhecimento devido às fofocas dos corredores da Escola Técnica Federal de Mato Grosso, ou seja, um desatino qualquer mais recente, e mesmo por nós, da família, quando, assim, propositalmente, provocávamos sua famosa verve. Raras vezes era possível vê-lo sorrir; esta era uma delas, mesmo que apenas por um dos cantos da boca, ao sapecar seu ressoante… Boneca Tereza.

Da mesma forma, se algo era ainda mais antigo, anterior mesmo, de alguns anos passados, a ironia vinha através de um desconcertante: “Kennedy morreu, você não sabia?” Desta feita, referindo-se ao assassinato do presidente dos Estados Unidos, evento ocorrido em 1963, transmitindo assim ao interlocutor a mensagem de que a informação já era mais do que conhecida, velha mesmo.

Esses momentos, poucos conhecidos de sua personalidade, aconteciam em ambiente familiar ou, quando muito, na presença de amigos e, talvez, no ambiente de trabalho em uma ou outra ocasião de descontração.

Certo é que frequentemente acontecia aos finais de semana, quando os dias ficavam mais longos, geralmente após o almoço, já no torpor das acaloradas tardes e sob a varanda rodeada de mangueiras, quando a família se reunia para prosear descontraidamente. Naquelas ocasiões, era costume haver zombarias sobre os fatos ocorridos durante a semana finda, quando, então, ele externalizava o que tinha de pitoresco.

Hoje mesmo, a fofoca continua correndo solta como dantes, principalmente no que se refere à política nacional. A cada dia que passa — e olha que são dias pra dedéu, tanto que viraram semanas, meses e anos, ou seja, há bastante tempo —, período para ninguém botar defeito, estão prendendo o ex e último presidente da República.

O circo que está sendo montado para justificar a injustiça é tão ridículo, bisonho mesmo, que a trama sinistra, uma peça teatral ou ópera-bufa, tanto faz, já virou até chacota na imprensa mundial.

Parafraseando o inesquecível coronel: “Avisem a Boneca Tereza que Kennedy morreu!”

(*) Quem criou a expressão “Amigo da Onça” foi o cartunista Péricles Maranhão, na década de 40, para caracterizar um personagem malandro e irônico, inspirado em uma história folclórica sobre dois caçadores que se defrontaram com uma onça. Ao escaparem da fera, um deles disse ao parceiro que ele não deveria ter conseguido fugir, ao que o outro responde: “Epa, … você é meu amigo ou da onça?”

(**) Diz a lenda que Judas Iscariotes, após receber as trinta moedas de prata ganhas pela traição a Jesus e antes de se suicidar descalço, teria colocado as mesmas em suas botas e escondido tudo em um local ermo, mas tão ermo que nunca foi encontrado.

A que ponto chegamos 

O nós não existe mais. Vivemos em um mundo onde outro pronome está presente no lugar daquele que assumia a função de um dos sujeitos coletivos das orações – antigamente conhecido como a 1ª pessoa do plural – o acima desconsiderado “nós”.

O poder, ao invés de ser buscado para servir a todos, voltou a ser usado para impor, impedir ou, em última instância, aniquilar quem com ele não concorda numa sequência de passos para atrás rumo à inquisição do século XIII, ela mesma, aquela usada pela Igreja Católica para combater a crença em doutrinas consideradas contrárias à fé cristã, só que às avessas.

Assim, ou você passa a ser parte do nós (deles) e ser chamado de nosso, no mais degradante sentido que esta palavra tenha, ou é entendido como sendo contra (eles), no mais deplorável sentido que isso possa ter, em todas as situações nas quais o entendimento de posse da consciência exista.

 Essa é a forma como aqueles que não querem mais a prevalência do “nós amplo e irrestrito”, tanto que passaram a promover conflitos permanentes, de maneira a tornar as partes antagônicas inimigas de morte, o famigerado NÓS CONTRA ELES.

Vivemos um momento em que os poderosos buscam transformar o tudo posso naquele que me fortalece, segundo o apóstolo Paulo (Filipenses 4:13-1), em nada posso naquilo que o supremo permite.

Em politica, todos os pronomes pessoais deveriam ser unificados em apenas um, o “nós”, de forma a que tudo seja feito para todos, sem distinção. No entanto, não é isso que acontece, porque as forças que poderiam controlar abusos foram sendo cooptadas uma a uma e, ao que tudo indica, nada farão.

O “nós” está passando e logo será passado, o “eles” também, entretanto, os estragos que estão sendo feitos agora, se não contidos, recairão sobre os que serão o futuro. Olhando assim, até parece não existirem filhos e netos. 

O Princípio do Fim

Volta e meia, recebemos mensagens solicitando orações e suas replicações para que Deus, através de seu Filho Jesus Cristo, Nossa Senhora e outros Santos e Santas, intercedam por pessoas e situações que envolvem recuperação de saúde, cura milagrosa e também para evitar acontecimentos catastróficos, entre outras situações que fogem da capacidade de intervenção humana.

Devemos considerar válidas todas essas interações, no entanto, a fé, necessariamente, precisa ser crença, convicção e virtude de quem desesperadamente precisa da piedosa intervenção divina, muito mais do que da corroborada súplica de outras pessoas. Essa súplica, no momento do desespero, se torna uma corrente de pensamentos solidários, o suporte para quem precisa lutar e vencer, nada mais que isso. Mas tudo dependerá da interação dessa pessoa com Deus.

A bênção da cura e do desarmamento dos espíritos beligerantes que habitam indivíduos, seitas, ideologias e até mesmo religiões é algo que não depende de nós, mas Dele. Sim, porque um dia todas essas entidades já tentaram, conseguiram ou estão buscando derrotar seus inimigos pelas armas.

Então, a pergunta que estão propondo agora é sobre quem será nosso melhor interlocutor para questões como doenças incuráveis e outras situações mais abrangentes, como aquelas que envolvem a sobrevivência de todos. Nós, em nossa fé, em nossas esperanças e em nossas súplicas a Deus, a quem recorremos em busca de sua piedosa bondade, ou aquela que a cada dia se torna uma poderosa ferramenta a oferecer solução para nossos problemas, o ente supremo criado artificialmente para ser o condutor da vida sobre a Terra, no infinito e além — parafraseando o astronauta Buzz Lightyear, personagem de desenho animado — fruto da crescente interação, melhor dizendo, da exploração gratuita de tudo o que imaginamos e informamos em nossas redes sociais, trabalhos escolares, estudos universitários, mestrados, doutorados e tudo mais que produzimos, queiramos ou não, colocar a público.

Tudo, mas tudo mesmo, é imediatamente recolhido na memória da nova e, até agora, inquestionável condutora do futuro da humanidade: a poderosa, insuperável e, convenhamos, desumana Inteligência Artificial.

Estamos perdidos! Sendo robotizados até naquilo que mais importa: o raciocínio humano e, com ele, a fé religiosa. Alguns dizem que não há o que fazer, que temos que aceitar e seguir em frente. Sinceramente, seguir em frente dessa maneira é como ser um cachorrinho. Desculpem, vou corrigir: um pet (hoje em dia, até nisso é preciso agir de forma politicamente correta ou o algoritmo da IA vai te entregar) sendo guiado por uma coleira comportamental invisível.

Então, ao invés de exercitar nosso cérebro, como sugerido em meu último artigo (Não Pare https://marceloportocarrero.wordpress.com/2024/10/28/nao-pare/), vamos nos enterrar no ostracismo intelectual e deixar um programa de inteligência artificial pensar por nós, perguntar e responder por nós e, porque não, até sonhar por nós, como agora tenta nos impor Mark Zuckerberg, um dos instrumentos da Nova Ordem Mundial, através de outro dos seus métodos de colonização cerebral, o WhatsApp. Será esse o princípio do fim da humanidade na Terra?

Acho até que alguém já expressou esse vaticínio.

[…] É o fim da aventura humana na Terra
Meu planeta, adeus […]
Verso escrito por Saulo Fernandes na música Minha pequena Eva (Banda Eva)