
Não sou cuiabano de nascimento. Fazer o quê? O que me leva a pensar ter sido um lastimável equívoco da cegonha não ter me trazido para cá, no longínquo ano de 1953. É, lá se vão 72 anos. Era assim que, no passado, se brincava com a ideia da chegada de uma criança ao mundo.
Ah, o passado! Tem gente que não gosta dele, de rememorá-lo, de reverenciar sua própria gênese, eu não. Sempre fiz do passado referência, porque tudo o que recebi dele foi construtivo. Qualquer coisa que tenha recebido de lá, seja referente a origem, sentido e direção, tudo contribuiu para me fazer quem sou. Portanto, foi bom.
Para minha sorte, e põe sorte nisso, dias após o Natal de 1961, nos mudamos para Cuiabá, vindos da vida cigana de mudanças a que era submetido um bancário e sua família naquela época. Daí minha mãe nos definir como ciganos de ocasião, dadas as permanentes mudanças devido à profissão de seu marido.
Aquela vida errante sempre me faz lembrar que Papai Noel se atrasou um pouquinho em relação ao Natal daquele longínquo ano, talvez alguns dias, mas ele veio, e trouxe consigo Cuiabá como meu presente.
Aqui fiquei, melhor dizendo, aqui ficamos desde então. Depois de nossa chegada, houve uma ocasião, um curto período, em que estivemos fora da aprazível aura cuiabana, mas logo papai arranjou um jeito de nos trazer de voltar.
O que nos fez voltar? Essa é fácil de responder. Foi a mesma magia que nos fez vir para cá em janeiro de 1962 quem definiu nosso futuro. Sim, porque a cidade e os cuiabanos, haviam deixado um sinal, uma marca indelével, em nossos corações. Algo reconhecido e inconfundível, composto por uma chapa e uma cruz, a marca dos que aqui nasceram.
Creio também estar falando em nome da minha família, os Portocarrero, ao dizer que tudo o que aconteceu fez com que eu sentisse a sensação de ter nascido de novo, quando Papai Noel deu a mim e, com certeza, a todos nós o privilégio de crescer em Cuiabá, de construir nosso futuro aqui, encontrar o amor, ter filhos e vê-los seguir adiante em suas vidas.
