Há pouco tempo li um artigo da Dra. Bárbara Freitag Rouanet, intitulado – A revitalização dos centros históricos das cidades brasileiras, que trata da tipologia das nossas cidades históricas. O documento em questão leva a refletir sobre Cuiabá por tratar do valioso patrimônio que cidades semelhantes a ela representam desde suas origens, mas principalmente devido a um dos aspectos urbanos levados em consideração pela autora ser muito parecido com o que aconteceu aqui, ou seja, o fato de sermos mais uma cidade histórica que sofreu o “arrastão da modernização” sem que houvessem maiores cuidados com a preservação de seu centro antigo.
As pesquisas e estudos elaborados sob a coordenação da Dra. Bárbara chegaram à conclusão que cidades como Cuiabá deixaram para atrás seus velhos centros urbanos quando passaram a sofrer a transferência de várias atividades e serviços públicos que lá estavam para as novas áreas do cenário urbano, estas melhor infraestruturadas em razão de receberem tanto investimentos públicos quanto privados.
Assim, o centro antigo de Cuiabá foi aos poucos sendo relegado à gestão municipal e às atividades de comércio e serviços que, por sua vez, também passaram a migrar para as áreas de expansão urbana, entre elas: bancos, escritórios de atendimento a serviços de energia e saneamento, grandes lojas de departamento e até mesmo órgãos da administração pública, o que leva a considerar ter havido pouco empenho de seguidos governos municipais na implementação de ações destinadas a recuperar a área central da capital, quer seja através de programas e projetos que incentivassem a permanência dos que heroicamente lá permaneceram, quer seja no incentivo a empresas, estabelecimentos comerciais, de ensino, de saúde, de educação e segurança, só para citar algumas atividades que se afastaram de lá exatamente porque não receberam apoio de qualquer natureza para continuarem instalados no centro histórico da cidade.
Quando falamos de incentivos nos referimos a ações que podem começar com a redução dos valores das taxas e impostos que incidem sobre os imóveis históricos, mas que também passem pela recuperação de ruas e melhorias na iluminação pública (inclusive com a efetiva remoção do excesso de cabos e fios, muitos sabidamente inúteis), além de outros serviços de apoio aos ocupantes e proprietários de imóveis lá localizados. Pessoas e empresas estas, que não se sentem motivadas a investir em restaurações, reformas ou mesmo construções na região central.
O que se percebe é uma permanente e severa fiscalização que pouco orienta e muito cobra, quando deveriam incentivar a preservação e não o abandono de imóveis que poderiam estar recebendo moradores que trabalhem ali mesmo, de modo a reduzir deslocamentos desnecessários e incentivar sua reocupação como área residencial. O mesmo procedimento também parece estar causando a proliferação de terrenos baldios, que acabam por servir de locais para vadiagem vez que descaracterizados pela ação do tempo e por proprietários desgastados devido ao prejuízo que é ter imóveis desvalorizados, sujeitos a imposições legais e pior, sem nenhuma contrapartida ou compensação.
Não há como reconstruir o que se perdeu nem manter o que resta com o que sobrou de registros oficiais de um passado urbanístico sobre o qual parece não ter havido emprenho público em manter, quanto mais em preservar de forma adequada, vide as recentes “reformas” das praças públicas, todas completamente descaracterizadas sem que os órgãos responsáveis pela preservação do patrimônio público histórico desse um pio. Certo é que o centro de Cuiabá foi e continua a ser relegado a ações pontuais de reparo devido a falta de manutenção, o que dizer então da restauração daquilo que deveria ser motivo de permanentes e abrangentes cuidados.
Prova disso é que desde sempre vêm sendo feitas adequações a título de modernização que acabam por descaracterizar ainda mais o perfil histórico do centro. Exemplos não faltam, basta observar a destruição do passado glorioso da Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá, de praças e prédios públicos com reformas descaracterizantes e não de restaurações com a preocupação de manter a originalidade daqueles locais. O que dizer então da cobertura asfáltica de suas ruas antes pavimentadas com paralelepípedos. Essa “melhoria” causou mais malefícios que benefícios ao centro histórico devido ao sensível acréscimo na temperatura local e ao perigoso aumento na velocidade dos veículos que lá circulam. Isso sem falar que os constantes recapeamentos asfálticos sem a devida remoção do pavimento que estava deteriorado elevaram os níveis das ruas acima dos das calçadas causando o alagamento dessas últimas quando de chovas fortes.
A análise destas e de outras situações relativas ao que já fizeram com a área central da cidade leva a crer que os estudos e projetos que compõem seu planejamento urbano pouco deram de atenção a preservação do patrimônio histórico, muito provavelmente porque assim como em outras situações, os gestores públicos não costumam considerar esse tipo de investimento como prioritário, creditando seus descasos a gestões anteriores ou levando o assunto com ações de perfumaria e maquiagem.
Voltando ao conteúdo do trabalho da Dr. Bárbara Freitag Rouanet, é possível dizer que Cuiabá está se tornando mais uma cidade de origem histórica que, sitiada pela modernidade, está a ponto de perder o que resta de seu patrimônio antigo caso não tenhamos consciência da necessidade do investimentos públicos na sua proteção.
Barbara Freitag Rouanet (Obernzell, Alemanha – 26 de novembro de 1941) é uma Brasilianista, socióloga, professora emérita da UNB.







