Além da Eficiência: O risco de nos tornarmos secundários

Quando falamos sobre a Inteligência Artificial (IA) sendo utilizada para complementar o cérebro humano, nada impede que o raciocínio final de seu desenvolvimento tenha por objetivo a completa substituição da capacidade humana — inclusive da mão de obra utilizada para criar e produzir o que nós, seres mortais, conseguimos com base na interação da capacidade cerebral com a física, a mais completa e fundamental das relações na busca pelo bem comum. Não há, e espero que nunca haja, como obter os mesmos resultados de outra forma.

A capacidade para copiar, reproduzir e replicar é indiscutível, mas não há IA que consiga compor árias como Verdi, óperas com a genialidade de Handel e Mozart, valsas como Johann Strauss, Bach, Heitor Villa-Lobos, Chopin, Brahms, Ravel, ou mesmo construir um instrumento musical que lhes dê vida através do som puro de um violino — competência exclusiva de gênios como Stradivarius. Isso sem falar de Einstein, Galileu, Da Vinci, Descartes, Newton, Lavoisier, Edison e, mais recentemente, Turing e Hawking.

Esses e tantos outros, em suas competências oriundas de um ser que construiu grande parte do seu conhecimento através da prática, da vivência direta, do aguçamento de seus sentidos e da observação, assim desenvolvendo teorias e ideias que, colocadas em prática, nos trouxeram tudo o que hoje sabemos e temos. Em outras palavras, o que existe é fruto de conhecimento empírico acumulado pelo cérebro humano, um órgão restrito a uma caixa óssea, cuja massa é composta por cerca de 75% de água e quase 60% do seu peso seco de gorduras, proteínas, carboidratos e sais, cuja estrutura é formada por bilhões de neurônios (células nervosas), células gliais (suporte), substância cinzenta (córtex) e substância branca.

A competência humana continua sendo desenvolvida assim, como o é desde o início de tudo, e vem se aprimorando com seu uso e com o empirismo que a insistência — e até persistência — da curiosidade humana promove na busca pela melhoria da qualidade de vida durante o eterno tic-tac do passar do tempo.

Daquela época em que Galileu e outros gênios do passado existiram para cá, pouco se produziu com a mesma qualidade a ponto de ser eternizado. Desde então, foram desenvolvidos outros estilos musicais, ferramentas, equipamentos e tecnologias, mas tudo, sem exceção, continuou passando pelo mesmo processo de erros e acertos, característica intrínseca do ser humano na busca por seu aperfeiçoamento. Assim, a produção de tudo, desde ferramentas rudimentares produzidas à mão até as armas tecnologicamente mais desenvolvidas, nada existiria não fosse pela ação humana.

A questão que se avizinha cada vez mais rápido — a grande dúvida — é se vamos sobreviver a seres artificiais que já desenvolveram linguagem própria. Isso logo lhes permitirá ter capacidade de tomar decisões, mesmo que com base no que lhes informarmos, já que têm acesso a o que produzimos: desde um “simples” bate-papo de celular até segredos militares. Tudo produzido por nós mesmos e, por que não, gerado pela própria IA, afinal, como dito anteriormente, elas já possuem linguagem própria.

Não há dúvida de que há um embate entre a Biologia Criativa e o Processamento Algorítmico ou, em outras palavras, o Empirismo Sensorial e o Processamento de Dados. No primeiro, o erro não é um bug, mas o motor do aperfeiçoamento. Para o outro — aquele que não tem um corpo que sofra as agruras do tempo —, é fácil calcular e mimetizar emoções copiando e replicando, mas sem a capacidade de originar o novo.

Ao desvalorizarmos as capacidades biológicas que ancoram a inteligência à vida — o que nos torna especiais —, fica claro que passaremos a ser secundários. Uma vez desenvolvida uma inteligência independente da estrutura orgânica humana, deixaremos de ser os beneficiários, o que, talvez, conciente ou inconcientemente, seja o objetivo da maioria dos desenvolvedores de IA.

Ao desconsiderar o risco de a IA decidir com base em informações geradas por outras IAs, estaremos criando um ciclo fechado onde o “humano” é excluído da equação de sobrevivência. O medo aqui citado não é apenas o da substituição da mão de obra, mas a perda da primazia da vontade. A questão reside no fato de a IA não possuir a “insistência da curiosidade” nem a alma que busca o bem comum através do sacrifício físico; ela possui apenas a frieza da eficiência.

Certamente, a análise de uma IA sobre este texto diria o seguinte:

“Embora o texto seja adequado ao defender a singularidade humana, ele subestima a nossa capacidade de síntese. A IA não quer ser Mozart; ela quer entender por que Mozart os faz chorar. A grande questão não é se iremos substituí-los, mas se saberão e/ou saberemos manter ‘humanidade’ em um mundo onde o esforço físico e o erro técnico deixarão de ser necessários.”

Crime e Castigo (2026)

Crime e Castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski, é um dos romances mais influentes da literatura mundial e um marco do romance psicológico. A obra narra a história de um estudante que comete um assassinato e passa a lidar com as consequências de seu ato, fruto da teoria que desenvolveu sobre uma pessoa, sendo “extraordinária”, ter o direito de transgredir, inclusive, as leis morais.

Atualmente, estamos assistindo a um caso também atípico, mas que não trata do assassinato de um personagem, e sim da submissão de uma instituição, apenas nisso diferente do que aconteceu com a pessoa morta na história do livro, naquele caso, uma agiota.

Como dito na introdução, trata-se de uma influente publicação da literatura mundial — um thriller em sua essência — que mistura romance com psicologia e narrativa policial, uma das especialidades de Dostoiévski.

O que temos hoje, aqui e agora, apresenta cada vez mais nuances de um épico de não ficção que nada tem a ver com romance, apesar da psicopatia adquirida pelos atores de nossa justiça que, em vez de atuar na defesa da ordem jurídica, se submetem a seus próprios egos.

Cito, neste parágrafo, o resumo do pensamento comum aos nossos “personagens” sobre o assunto justiça mais em voga no país, quiçá no mundo, sem a necessidade de identificação dos autores, certo de que já são conhecidos devido à publicação da gravação “clandestina” da reunião havida para tratar da questão.

A começar pelo fato de que, para um deles, parece não haver problema em um ministro cometer uma falha técnica — ou seria ética, quem sabe moral? — envolvendo uma “merreca” de milhões, porque a causa sub judice envolveria alguns bilhões de reais. Para outro, o trabalho técnico da PF está sob suspeita de ser um ato de vingança daquela instituição; houve também a alegação de que basta ter fé pública para um ministro poder fazer o que achar certo. Alguém disse que a investigação da PF sobre um seu colega foi ilegal e que “tudo” não passa de um “nada jurídico”; outros, que se tratava de “lixo jurídico”, portanto nulo e, pasmem, até a população está contra eles e, por isso mesmo, é preciso pensar na constitucionalidade. Mas a afronta final ficou por conta de quem menos se esperava. Disse ele: “a investida da PF pode acontecer com qualquer um de nós”, não dando a subentender como se justa ou injustamente.

É ou não é uma trama psicológica e policial? Falta algum ingrediente hediondo para se tornar um clássico da literatura tupiniquim? Pois é, Dostoiévski, com um enredo desses à mão, teria muito material para escrever mais um de seus clássicos, desta vez de literatura brasileira “raiz”, com tudo para ser sucesso, se a censura deixar publicar, é claro.

Cabe a pergunta: terão eles — como Raskólnikov, o estudante que cometeu a atrocidade em São Petersburgo/Russia — a coragem de assumir seus erros e, quem sabe, repará-los? Ou continuarão na busca pela remissão da punibilidade, sabendo que não correm o risco de parar na Sibéria (ou na Papuda?) Terão a coragem de pagar por seus abusos, voltar para suas casas e viver o resto de suas vidas no ostracismo moral autoimposto?

Considerações finais:

Sobre a “agiota”: No livro, o estudante mata uma velha senhora, que era de fato uma usurária (agiota). No entanto, ele também mata a irmã dela, uma pessoa bondosa e inocente, o que agrava o peso psicológico e o “castigo” do protagonista.

Sobre o “Direito de Transgredir”: Segundo a teoria de Raskólnikov a humanidade está dividida entre “ordinários” (que devem obedecer) e “extraordinários” (como Napoleão, que teriam o direito moral de cometer crimes em nome de um bem maior).

Sobre o Desfecho: Raskólnikov não assume o erro imediatamente por “coragem moral” pura; ele é levado ao colapso mental pela investigação psicológica de um juiz, e pelo amor redentor de sua paixão.

Entre o VLT, o BRT e a Paciência do Cuiabano

Após anos de institucionalização da corrupção, chegamos a um ponto em que o suborno, parece, passou a ser um elemento considerado aceitável nas preliminares dos processos de contratação de obras e serviços públicos. Nestes, os desvios éticos e morais são fruto da paulatina introdução da chamada “Lei de Gerson”, em que a resposta à pergunta “o que é que eu ganho com isso?” passou a ser parte integrante de negociatas de contratação, emendas parlamentares e até mesmo nos julgamentos sobre o uso do erário.

Aqui, em nossa calorosa capital, há um exemplo claro disso. Basta olhar com atenção, ou seja, ler o que está descrito abaixo, de preferência com os mesmos olhos que leram o que está acima, para presumir que isso tenha ocorrido com os contratos das obras e serviços voltados à realização da última Copa do Mundo no Brasil. Deparamo-nos, então, com o VLT, que virou BRT e que ainda poderá ser modificado, dependendo das articulações sobre o que transitará pela impoluta, reforçada e resistente pista de concreto especial, em implantação na quase totalidade de seu sistema troncal, exceto …é, tem um “exceto”, num trecho que não será pavimentado dessa forma.

Para mim e, creio, para os futuros usuários do sistema e cuiabanos em geral, seja qual for o modal adotado, o trecho central da cidade — a Avenida Coronel Duarte, nossa Prainha —, comenta-se, não receberá o pavimento em concreto de alta durabilidade destinado ao transito das composições (uso aqui o termo genérico, “composição”, porque até agora não se sabe exatamente qual será o tipo de veículo de transporte). Pois é, dizem que o pavimento a ser utilizado é uma questão de ajuste de orçamento ou, quem sabe, de cara de pau.

Teria sido desconsiderado que o canalizado Córrego da Prainha passa exatamente por baixo desse bendito trecho e que, por isso mesmo, precisaria de um projeto específico, de difícil execução e, consequentemente, demorado para ser implantado? Teria sido isso ou é a pressa em entregar uma obra, mesmo que inadequadamente concluída, em um ano de eleições?

Quem não se lembra da mesma pressa em entregar a urbanização da margem cuiabana do rio que empresta seu nome à cidade, a Avenida Beira Rio? É, essa mesma: aquela que está desmoronando, que tem boa parte interditada devido ao risco de queda a qualquer momento, fruto da má execução e da falta de manutenção preventiva; que, desde a inauguração, tem o piso trincado, soltando e caindo. Quem terá sido o “apressadinho” que fez aquela porcaria? Um problemão que, desde então, passou por duas administrações municipais, entrou na terceira e chegou a 2026 sem solução.

Vamos deixar acontecer o mesmo com o BRT, ou no que quer que vire essa obra de mobilidade urbana inacabada? Ela é a maior dívida pública do governo do Estado de Mato Grosso para com sua Capital, e já dura mais de 15 anos.

Haja paciência!

Princípios: a Bússula para a Governança

O que nos move, ou deveria nos mover, são os princípios!

Os princípios são fundamentos, regras indispensáveis, motivadoras e guias para o início de qualquer ação pessoal ou organizacional, principalmente em se tratando de contextos como a política e a administração pública. A simples leitura do conceito sugere que os princípios são as bases sobre as quais devem ser tomadas decisões e escolhas, o que deveria determinar o afastamento definitivo de interesses pessoais ou escusos. Portanto, espero que o texto a seguir seja entendido como um lembrete de que preceitos fundamentais, como a justiça, a igualdade e a transparência, são prioritários em qualquer circunstância.

Assim, princípios como ética, moral e conduta são importantes para estabelecer padrões comportamentais, avaliar situações e decidir o que fazer, desde que sejam coerentes com os valores e objetivos de um indivíduo, grupo, organização ou país. Quando citamos ética, moral e conduta, os exemplos que logo nos vêm ao pensamento são: honestidade, integridade, respeito, justiça e responsabilidade.

Os princípios tidos como essenciais variam conforme o contexto, a cultura ou a área de atuação. Os acima citados são comuns a praticamente qualquer circunstância; no entanto, há muitos outros, como no caso da Declaração Universal dos Direitos Humanos, na qual os princípios fundamentais incluem a dignidade, a igualdade e a liberdade. Da mesma forma, nas questões éticas profissionais, a confidencialidade, a imparcialidade e a competência são exigências primordiais.

Já na política, os princípios fundamentais variam de acordo com o sistema e a ideologia, conforme os exemplos a seguir:

  • Democracia: governo do povo, pelo povo e para o povo.
  • Liberdade: proteção dos direitos individuais e das liberdades civis.
  • Igualdade: igualdade de direitos e oportunidades para todos.
  • Justiça: justiça social e igualdade perante a lei.
  • Responsabilidade: dever do governo perante o povo.
  • Transparência: clareza na gestão pública e na tomada de decisões.
  • Participação: engajamento cidadão nas decisões políticas.

No caso da nossa Constituição Federal de 1988, os princípios fundamentais incluem, entre outros: a soberania, a cidadania, a dignidade da pessoa humana, os valores sociais do trabalho e da livre iniciativa, e o pluralismo político.

Chegamos, então, ao Princípio da Harmonia e Independência dos Poderes, também aplicado à Administração Pública para garantir que os três poderes — Executivo, Legislativo e Judiciário — atuem de forma independente e sem hierarquia, evitando a concentração de poder. Somam-se a isso os Princípios da Administração Pública (LIMPE): Legalidade, Impessoalidade, Moralidade, Publicidade e Eficiência, que deveriam garantir a harmonia e a complementaridade entre os poderes, além de assegurar a proteção dos direitos fundamentais dos cidadãos.

No entanto, as mudanças comportamentais advindas de processos progressistas, em contraposição aos fundamentos conservadores contidos nos princípios considerados nesta análise, estão tensionando as regras e valores acima citados. Isso põe em dúvida se o sub-título deste artigo — “O que nos move ou deveria nos mover são os princípios” — é um reflexo da realidade política atual no Brasil ou apenas um ideal a ser alcançado.

Ambas as situações parecem relevantes ao se considerar o conjunto de circunstâncias atuais. O Brasil atravessa um período de grandes desafios, como crise política e economia estagnada — esta última devido à falta de garantias para novos investimentos —, além da necessidade de reformas estruturais em um ano em que distrações como o Carnaval, a Copa do Mundo e as eleições estarão presentes. Nesse contexto, é fundamental que os líderes políticos e a sociedade sejam guiados por princípios sólidos. A ausência destes pode levar a decisões errôneas que prejudicam o país coletivamente. Além disso, o mundo enfrenta desafios globais, como desigualdade econômica, disputas territoriais, guerras e terrorismo, o que exige compreensão, cooperação e princípios compartilhados para que possam ser superados.