A memória da igreja

A Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá passou por várias reformas e reconstruções antes de meu retorno para cá. Por isso mesmo não vou falar do passado mais distante, mas sim do início dos anos 60, época em que a conheci e de sua maior influência sobre mim. Depois disto ela sofreu sua última, grande e decisiva transformação em agosto de 1968.

Naquela ocasião a igreja foi dinamitada para que conseguissem, a muito custo, derrubá-la totalmente e dar lugar à moderna estrutura clássica que hoje ocupa seu lugar, a qual passou a ser chamada de Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Em 1971, quando retornei, a nova igreja, a Catedral Basílica, já estava em fase final de construção. Naquela época estavam concluindo a montagem do grande painel de pastilhas coloridas que fica atrás de seu altar-mor e mostra a figura do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Ali onde ficava o “antigo altar-mor”, o único dos cinco que foi totalmente vendido a um antiquário que dizem, coincidentemente, por aqui passava. Algo incompreensível para aqueles que nunca vão se conformar com este “trágico incidente”, nas palavras dos pesquisadores e historiadores que trataram do assunto. Dizem também que várias peças provavelmente estão nas casas de algumas famílias, presenteadas que foram pelos responsáveis pela destruição da igreja a titulo de agradecimento pela colaboração, o que, se verdade, o torna ainda mais revoltante.

Minhas principais lembranças são dos tempos em que fui coroinha, a ponto de ainda estarem firmemente enraizadas em minha memória. Uma delas diz respeito às dimensões da edificação, pois ainda tenho a sensação que a antiga igreja era maior do que a atual. Certamente devido à noção de espaço de meus olhos infantis, vez que vou continuar vendo-a com emoção, sensação que vem mais do coração que da razão, o que sempre ira conspirar a favor da ligação sentimental que tenho por aquela que será eternamente a minha Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

De uma forma geral, ao rever as poucas fotografias que restaram de seu antigo interior, as quais estão disponíveis no Museu de Arte Sacra de Mato Grosso, recordei que seus cinco altares resplandeciam em contornos dourados sobre fundo branco, característica esta presente em todas as suas colunas, nichos, detalhes e anjos, mas principalmente nestes últimos, os anjos que frequentavam seus altares. Digo frequentavam porque a mim pareciam estar por ali passeando de um lado para o outro cantarolando músicas celestiais entre o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Sant’Ana, Santa Terezinha e o altar do Sagrado Coração de Jesus. Em todos eles também estavam imagens de diversos outros santos e santas de devoção, todos devidamente aninhados em nichos sobre pilaretes ou mesmo apoiados nos balções dos altares.

Este último, o Altar do Sagrado Coração de Jesus, era onde todos ficávamos tristes ao ver o coração de Jesus, representado por uma peça em feltro escarlate permanecer repleto de espinhos até que crianças vestidas de anjos os retirassem em uma cerimônia dolorosa, mas ao mesmo tempo reconfortante que acontecia todos os anos durante o mês de junho.

Para mim era puro prazer caminhar por seu interior enquanto ela ainda estava na penumbra do final da tarde, naqueles momentos em que as luzes ainda não estavam acessas e as portas apenas entreabertas. Os instantes mais marcantes aconteciam enquanto percorria o caminho formado pelos ladrilhos reticulados do corredor da nave principal participando do apagar da luz do sol que aos poucos se esvaía entre as frestas para ser substituída pela iluminação das velas dos candelabros e das luminárias penduradas nos longos cabos que desciam das vigas da cobertura pairando em um local que ficava entre o céu/teto e a terra/piso da igreja.

Impossível esquecer a sensação de caminhar naquele local etéreo, mistura do celestial com o sagrado. Era como que se sentir subindo a cada passo que dava em direção ao altar-mor muito antes de chegas aos três degraus que levavam ao patamar onde ele estava instalado. Isso tudo logo abaixo e à frente da imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Outro momento emocionante de que me lembro era quando vestia a batina vermelha com o sobrepeliz branco para ajudar a missa como coroinha. Naquelas ocasiões me sentia como que fazendo parte de um grupo especial ungido por uma benção divina e habilitado a ficar por algum tempo mais próximo a Deus que os demais participantes da celebração.

Acabada cada cerimônia saía com uma agradável sensação de leveza, principalmente quando recebia a Sagrada Hóstia após a Eucaristia, o alimento espiritual que me protegeria até a próxima oportunidade de receber o presença de Jesus em meu coração.

Assim como a Catedral que a substituiu, a antiga Igreja Matriz estava localizada em uma quadra toda sua, com frente para a Praça da República e Rua Antônio Maria , tendo ao seu lado direito o Instituto de Ensino com uma estreita e tradicional passagem em paralelepípedos separando as duas históricas edificações. Do lado esquerdo estava a Praça Alencastro com a Avenida Getúlio Vargas a separá-las e ao fundo, do outro lada da Rua Joaquim Murtinho, o Grande Hotel.

Sua antiga fachada e boa parte das laterais seguiam o tradicional e belo estilo colonial empregado na construção da maioria das antigas igrejas do Brasil, influencia dos padres jesuítas que acompanhavam a colonização das terras ocupadas por Portugal. Entretanto, a parte de trás já havia sofrido com a intervenção dos que compactuaram com sua destruição, pois havia sido demolida e um edificação nova, sem as características originais, já a desfigurava. Creio que este fato contribuiu definitivamente para o sumiço do antigo altar-mor, aquele que ninguém sabe e ninguém viu, vez que era no fundo da nave principal da igreja que ele ficava.

Ficou em mim a desagradável sensação de que houve um grande esforço para apagar da memória dos cuiabanos a antiga e bela Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, pois no Museu de Arte Sacra nem tudo está disponível aos visitantes sobre sua história. Lá estão quatro de seus cinco altares, já que o principal, o do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, inexplicavelmente foi “perdido” e  diversas, mas não todas as imagens e peças que deveriam ter sido preservadas para constituir seu acervo.

Somente algumas palavras e fotos contam a história de seu esplendoroso interior. Nada mais restou, só saudades.

Marcelo Augusto Portocarrero – set/2016

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