Sei que somos todos irmãos, filhos e pais. Sei que fomos criados, amados e educados da mesma forma. Sei também que amamos nossos pais com a mesma intensidade e respeito. Entretanto, o fato de eu ter vivido próximo a eles minha vida inteira e só ter me afastado nesses últimos anos me deu uma visão um pouco diferente da falta que eles fazem. Daí escrever este texto para vocês.Lá de longe, frequentemente ia dormir sem saber se Deus irá chamar um deles ou ambos sem que eu pudesse me despedir pessoalmente. Sem que eu pudesse ouvir suas vozes, sentir a textura de suas mãos, de seus lábios me dando um último beijo.
Daí eu penso na vida que tivemos juntos, nos prazeres que nos foram dados quando foi possível, da forma de amar que cada um tem ou consegue transmitir. Vi e vivi situações que vocês não viram nem viveram na companhia deles. Sei também que vocês tiveram seus momentos com eles os quais nenhum de nós conhece. Bons momentos, momentos carinhosos, momentos difíceis ou mesmo tensos.
Nossos pais, como todos sabemos, nunca conseguiram transmitir seu amor por nós a não ser do modo que eles o receberam. Papai não conviveu com o seu pai, exceto em uma pequena parte de sua infância. Creio que quando ele tinha oito anos vovô Martinho morreu, e mesmo antes disso, pelo que nos contam os que o conheceram, nosso avô sempre foi uma pessoa capaz de sacrificar o pouco tempo que poderia dar à família para cumprir sua missão profissional. Assim vejo nosso pai. Um homem que, por força do ambiente em que foi criado e viveu nunca soube demonstrar amor e carinho como uma pessoa criada em um ambiente familiar diferente, onde tivesse recebido um tipo de tratamento diferente desse que nos transmitiu e ainda transmite. Não se iludam, pois queiramos ou não, herdamos dele muito de nosso comportamento com nossas próprias famílias. A genética é assim, implacável, em todos os sentidos. Ele nos deu muito, nunca nos faltou em nada do que estivesse ao seu alcance. Eu, particularmente, terei sempre em minha memória sua sinceridade. Papai nunca nos iludiu nem deu falsas esperanças. Pelo contrário, vivemos a vida que ele pôde nos dar.
Tenho guardada comigo, uma carta escrita por ele quando não passei em meu primeiro vestibular, onde sou reconfortado e animado a não desistir nunca. Nela ela demonstrou seu amor e carinho de forma intensa e reconfortante. Lembro que chorei muito com aquelas palavras. Certamente elas me conduziram até aqui.
O que falar de mamãe. Como traduzir a alma mais piedosa com que nós convivemos. Como traduzir sua abnegação, seu sacrifício, sua religiosidade. Vindo tudo isso do pouco que ela recebeu de sua avó materna. Todos sabemos que ela é esse ser humano admirável graças sua alma bondosa e ao pouco que pode receber de sua família de origem e creiam, do que papai lhe proporcionou. Assim como papai, ela também foi duramente tratada pela vida. Como não teve mãe, foi solitária desde a infância, nunca lhe foi dada qualquer oportunidade, exceto aquelas a que ela mesma, com seu pouco estudo conseguiu buscar. Casar com papai aos 16 anos, deve ter sido antes de tudo alcançar a liberdade de viver. Amar nosso pai deve ter sido um duro aprendizado em todos os sentidos.
A vida deles foi muito difícil desde o início e mamãe, graças a Deus, foi capaz de nos dar tudo de que necessitávamos. Graças a ela nada, absolutamente nada nos faltou. Sua persistência e incomparável fé nos possibilitaram sobreviver a todo tipo de dificuldade a que fomos submetidos. Sejam todas as doenças infantis e juvenis a que fomos sujeitos, aos tombos, acidentes, enfim a todo risco a que fomos expostos. Sobrevivemos e aqui estamos devido a sua luta, força e, volto a ressaltar, sua fé inabalável.
Não me lembro de algo que tenhamos pedido a eles que não nos tenha sido dado. Seja conselho, bem material ou dinheiro. Mesmo sacrificando o pouco que sempre tiveram de alguma forma eles se esforçaram e invariavelmente nos atenderam.
Mesmo as dificuldades que vimos no relacionamento entre eles devem ser encaradas como fruto de suas próprias personalidades. Alguém de nós não as tem em casa? Nossos relacionamentos com as mães de nossos filhos são diferentes do deles no que? Eles foram capazes de sobreviver às crises muito maiores que as nossas e continuam sendo o que sempre foram, juntos. O gênio intransigente de papai só é diferente do nosso em grau, mas não em outros sentidos. Basta fazermos uma pequena introspecção.
Olhamos para nossos próprios umbigos o tempo inteiro. Acho até que em alguns momentos chegamos a considerar que nada devemos a eles além da visita semanal, das compras, de um aparelho, uma carona ao médico, passar uma noite no hospital quando eles ficam doentes. Um mínimo do nosso tempo em troca da vida que recebemos.
Hoje agimos como eles, quando pensamos em dar tudo de nós pela felicidade de nossos filhos. Não é verdade?
Será que devemos esperar de nossos filhos o mesmo que damos a nossos pais quando estivermos velhos?
Não meus irmãos, eu não estou falando nada do que nós não saibamos.
A saúde deles vem se debilitando aos poucos, como é da natureza humana, e devemos dar a eles, neste tempo que lhes resta, o que de melhor pudermos e não o pouco necessitam.
Eles precisaram morar em um ambiente menos hostil a pessoas com a idade que têm. Precisaram de companhia 24 horas por dia, alimentação e ambiente saudáveis. Esta é nossa obrigação, mesmo que agora papai insista em dizer que está tudo bem, pois sabemos que não está como sabemos que ele nunca nos pedirão nada.
Assim vamos conversar entre nós, vamos falar da realidade, vamos cuidar de dar a ele o que ele precisar.
Marcelo Augusto Portocarrero
