Histórias do Cazuza.

Cazuza e Dóinha

Só hoje tive coragem de contar a papai sobre a morte de sua Tia Glória aos 102 anos. Em minha singela opinião, se mãe pudesse ser descrita de outras maneiras Tia Glória seria uma de suas melhores descrições.

Aproveitei o momento em que ele estava fazendo mais uma de suas viagens ao passado lembrando das aventuras vividas na Vaquilha de sua infância onde invariavelmente Dóinha estava junto, para contar da perda que todos nós tivéramos dias atrás.

Ele ficou em silêncio como que absorvendo aos poucos a perda de uma pessoa que está entre aquelas que são impossíveis de aceitarmos. Deixei-o assim introspectivo esperando a tristeza ser consumida. Eu diria que se fosse possível traduzir seu silêncio em palavras elas seriam estas:
⁃ Há um momento na vida de uma pessoa em que ela se sente preparada e consciente de que é hora de partir. A idade vai nos dando essa certeza na medida em que ela avança porque nos permite assistir, participar e sentir todas as emoções possíveis em uma existência. Com Tia Glória foi assim, posso garantir isso a você.

Em que pese a diferença de 5 anos entre os dois quando podia ela o levava nas explorações do entorno da sede da fazenda, sempre a vista de alguém da casa. Cazuza e Dóinha como ele a chamava estavam sempre juntos durante a infância na Vaquilha. Entre eles não havia uma tia e seu sobrinho, eram só duas crianças se divertindo sozinhos ou com as outras da família.

Foi assim no enterro de vovô Afonso no longínquo fevereiro de 1930.

José Afonso ou Cazuza tinha então 7 anos e havia acompanhado seus pais, Sinhara e Martinho, na ida ao enterro do avô Afonso que juntamente com o outro avô, José Augusto, deram origem a seu nome.

No dia anterior os Portocarrero receberam o apressado Vitalino que chagava trazendo a notícia da morte do Nhô Fonso, modo como ele e os outros empregados chamavam o patrão. Vitalino havia percorrido as cinco léguas da fazenda até Bela Vista sem parar porque além da má notícia que trazia tinha também a incumbência de levar tecido preto para a forração do caixão em que Nhô Fonso seria enterrado na manhã seguinte.

Após as providências de deixar tudo em ordem para os filhos Leopoldina, Maria, Nicota, Elisa e João que iriam ficar, eles partiram em um ford bigode alugado do Seu Almeidinha para a urgente viagem de volta do Vitalino levando o tecido encomendado indo de carona com Dr. Martinho, Dona Sinhara, Jandirinha ainda criança de colo e Cazuza, o xodó do avô Afonso. Ele não se conformara em ficar em casa, pois queria ver o avô uma última vez.

Cazuza se lembra que quando atravessaram o córrego da Machorra e o acumulador de energia molhou levando a parte elétrica do fordeco a entrar em pane fazendo com que as luzes do carro apagassem. Como começava a anoitecer decidiram prosseguir até a fazenda do tio Nhozinho que a essa altura já estava praticamente vazia pela ida de quase todos para a Vaquilha.

Lá conseguiram uma lanterna emprestada e Vitalino que viajava em pé no estribo do carro passou a iluminar o caminho até devagar chegarem já noite alta na fazenda.

A chegada foi muito emocionante, posto que lá já estavam quase todos os filhos e agregados velando o corpo de Nhô Fonso. Então, o cansado Cazuza sem lugar para se acomodar na sala foi ficar debaixo da escrivaninha do avô, único lugar desocupado de onde via a tristeza de Dóinha agarrada aos braços da mãe e assim ficou até adormecer.

Durante a madrugada os tios Manequinho e Salomão juntamente com os empregados fabricaram o caixão e o forraram com o tecido preto para o enterro na manhã seguinte.

Os familiares e amigos partiram com o caixão no meio da manhã passando em frente ao galpão repleto de peões e agregados que fizeram suas reverências tirando os chapéus e se juntaram ao cortejo, dali passaram pela porteira de troncos do pátio e viraram à esquerda rumo ao cemitério onde muitas pessoas aguardavam junto a cova que estava sendo aberta desde cedo pelos filhos de Manequinho, netos naturais do vovô Afonso. Eles, juntamente com outros rapazes também haviam capinado todo o caminho de aproximadamente 300 metros desde a porteira de modo a que carrapichos e outras ervas daninhas não incomodassem ainda mais as pessoas e suas tristezas.

Seguro pela mão firme do pai Cazuza permaneceu quieto acompanhando o clima de consternação que a todos atingia até chegarem no local do enterro. Durante os momentos em que rezaram e o silêncio que reinou antes de descerem o caixão bastou uma leve distração do pai e lá estava Cazuza junto ao avô, foi quando desequilibrou-se ao passar pelo monte de terra, escorregou e caiu no fundo da cova.

Dóinha sua amiga e parceira de jogo de torito vendo o sobrinho estatelado no buraco levantou a cabeça do colo de vó Rita e vendo que Cazuza estava bem permaneceu triste e chorosa abraçada à mãe até que Dr. Martinho puxou o filho de lá.

Todos foram indo embora na medida em que o tempo passava, mas Cazuza ficou. Só voltou dias depois a Bela Vista de carona com Dona Maria Rosa dona da fazenda Arroio de Ouro, comadre, madrinha da tia Dona, e amiga que lá passara para dar os pêsames à família.

Um comentário sobre “Histórias do Cazuza.

  1. Interessante a história. Não conhecia os detalhes. Só agora fico sabendo do passamento da Glorinha. Ela era a última remanescente da primeira geração do Tio Chico e tia Maria Benedita. Obrigado pela triste notícia

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