
Ao contrário do que divulgaram as propagandas de Getúlio Vargas a luta armada que motivou a Revolução Paulista de 1932 não visava a separação de São Paulo do Brasil. Ela tinha por motivo uma nova constituição com a objetivo de acabar com a insegurança jurídica, o atraso socioeconômico e o despotismo pós-revolução de 1930 que havia sido imposto por Getúlio Vargas.
Quando tomou o poder ele fechou o Congresso Nacional, anulou a Constituição de 1891, extinguiu os partidos políticos e passou a governar por meio de Decretos-Lei. De posse de todos os argumentos para estabelecer sua forma de governo Vargas então estendeu seu controle aos estados através da deposição dos governadores eleitos e suas substituições por interventores de sua confiança. Estava implantada a Ditadura.
O que confirmava a intenção dos paulistas era a adesão de cidadãos de outros estados à revolução. Assim fizeram, entre outros, mineiros, paranaenses e matogrossenses descontentes com os desmandos do autoritarismo vigente. De outro lado, a não adesão imediata do governo do estado de Mato Grosso aos constitucionalistas alimentou ainda mais o regionalismo sul-matogrossenses. Além disso, os matogrossenses do sul e os paulistas tinham dois verdadeiros cordões umbilicais que os uniam, a ferrovia e o Rio Paraná.
Durante os três meses de combates as cidades que se envolveram diretamente no conflito foram Campo Grande, Bela Vista, Ponta Porã, Porto Murtinho, Ladário, Três Lagoas, Paranaíba e Coxim. Elas foram as únicas a tropas para as frentes de combate e a enfrentar os legalistas em seus próprios municípios até serem derrotados.
Nosso relato acontece em meio aos combates existentes estre as forças getulistas contra os militares situados na região sudoeste do estado de Mato Grosso e os voluntários que haviam aderido aos paulistas. Os militares e paulistas eram motivados pela luta por uma nova constituição, mesma razão para o envolvimento dos voluntários sul-matogrossenses que àquela motivação somavam o desejo da autonomia do já proclamado Estado de Maracaju.
Entre outros motivos para sul-matogrossenses e paulistas serem aliados o mais importante foi a questão logística porque o porto de Santos estava bloqueado por forças navais fiéis a Vargas. O único ponto viável de acesso a suprimentos ainda controlado por constitucionalistas era o porto fluvial da cidade de Porto Murtinho, localidade que se ligava ao Oceano Atlântico no estuário do Rio da Prata através das antigas rotas dos Bandeirantes, os rios Paraguai e Paraná. Logo se vê a importância da região para os revolucionários até porque também fazia divisa com a Bolívia e o Paraguai.
Na frente de Mato Grosso, no que era chamado setor de Bela Vista, as primeiras ações foram desenvolvidas pelo 10º Regimento de Cavalaria Independente que ocupou parte da cidade. Forças constitucionalistas vindas de Campo Grande enfrentaram parte do regimento e tentaram o aliciamento dos quadros da unidade fiéis ao governo. Vista disso, parte dos militares decidiu pelo internamento no Paraguai e a resistência cessou. (Site do Exército Brasileiro – http://www.eb.mil.br)
Nesse cenário de campanha da Revolução de 1932, mais especificamente em um certo início da noite, Cazuza estava brincando com as outras crianças quando sua mãe veio chama-los para entrar. Foi quando percebeu um número anormal de homens e cavalos se reunindo em uma das laterais da praça que ficava em frente à farmácia. A Farmácia Portocarrero havia sido construída por seu falecido pai, ao fundo da qual ficava a residência da família.
A movimentação de pessoas a favor e contra a revolução na cidade era evidente. Haviam os que simpatizavam com o movimento constitucionalista e aqueles que eram ligados à figura de Getúlio Vargas, os legalistas. Até entre parentes haviam posições conflitantes em relação ao que estava acontecendo. A questão é que os combates estavam se aproximando da cidade e para piorar também haviam dissidências dentre as forças militares locais o que deixava no ar uma sensação de permanente insegurança. Era preciso atenção redobrada nos deslocamentos das pessoas que precisavam sair de casa e olha que isso já estava reduzido ao mínimo necessário. Essa era a razão de tantas pessoas armadas e o alvoroço que faziam preocupar sua mãe.
Sinhara apressou a entrada das crianças de modo a coloca-las protegidas pela mureta e de lá passaram a observar o que estava acontecendo. Como haviam mais homens que animais os que não possuíam montaria estavam se acomodando nas garupas dos cavaleiros para poder se deslocar com mais rapidez vez que estavam armados. Em meio ao alarido das falas e palavras de ordem pôde ser ouvido que o grupo estaria se dirigindo ao quartel do 10º BCI para expulsar os militares resistentes e se apoderar da instalação militar.
Passado algum tempo da saída daqueles homens da praça todos puderam perceber que a intenção dos legalistas estava sendo colocada em prática porque começaram a ser ouvidos tiros e rajadas de metralhadora vindas dos lados da cidade onde ficava o Quartel. Eram eles entrando em combate com os militares aquartelados. Era a guerra que separou amigos e parentes batendo à porta de Bela Vista.
A maior parte das pessoas de cidade era constituída de nativos, paraguaios residentes e pessoas originárias de São Paulo, do norte do Paraná, alguns escravos libertos e gaúchos. Paranaenses e paulistas começaram a chegar à região a partir de 1850 e de forma mais intensa após 1860 poucos antes do início da Guerra do Paraguai com o objetivo de ocupar a fronteira do Brasil com o país vizinho. Exemplo disso são os Ferreira Mello e Almeida Mello que vieram para aquela parte de Mato Grosso por acordo com o Cel. João da Silva Machado, o Barão de Antonina com quem já trabalhavam no Paraná para ocupar e depois adquirir terras no município de Nioaque. Parte delas apossadas, outras concedidas ao Barão pelo Imperador Dom Pedro II com quem tinha ligações políticas e desenvolvera amizade. A Coroa incentivava a ocupação das terras fronteiriças como forma de garantir a presença do Brasil e garantir sua soberania.
Por causa da guerra os brasileiros que já haviam ocupado a região, entre eles nossas ancestrais, se retiraram das áreas de conflito retornando somente após seu fim em meados de 1870. Depois disso, e novamente incentivados pelo Imperador através do mesmo Barão de Antonina passaram a ocupar e adquirir terras mais ao sul, portanto próximas ao rio Apa, na região que viria a ser Bela Vista de modo a consolidar a expansão brasileira no pós-guerra.
Dessa vez, trouxeram com eles outras famílias, estas paulistas como os Loureiro de Almeida, parentes dos pioneiros anteriormente citados e mais gente para ocupar aquele espaço territorial. Os gaúchos vieram depois, também atrás de terras baratas e próprias para a criação de gado, a Vacaria, como era conhecida a região.
Foram aqueles gaúchos e simpatizantes, na maioria seus próprios peões, que partiram da praça em direção ao Quartel do 10º BCI naquela noite. Eram legalistas por afinidade e todos próximos ao Coronel Simão Coelho outro gaúcho também apoiador de Getúlio Vargas e pessoa influente que disputava o espaço político regional com o Coronel Militão Loureiro de Almeida.
O que poucos sabem é que por razões de segurança o 10º BCI (Batalhão de Cavalaria Independente) tinha essa denominação por estar diretamente subordinado ao Comando Militar do Exército na Capital Federal e por isso mesmo fora da gestão direta do General Klinger, Comandante da 9ª Região Militar que havia aderido aos constitucionalistas.
Por essa razão, podem estar enganados os que dizem que o Comandante do Batalhão partiu com sua tropa para se unir às forças militares de Campo Grande. A outra versão dos fatos afirma que ele permaneceu em sua residência dentro da Vila Militar durante todos os acontecimentos aqui narrados.
Essa versão diferente diz que o Comandante estava em uma situação difícil de administrar porque entre os oficiais sob seu comando haviam vários aspirantes paulistas que vieram servir em Bela Vista com a finalidade de cumprir as exigências do exército para seguir na carreira militar e, portanto, simpáticos a seus conterrâneos constitucionalistas.
Daí, especula-se, sua estratégia para fingir neutralidade foi dispensar do serviço o corpo militar da unidade de modo a afasta-los do quartel deixando apenas um número mínimo de oficiais e soldados para a guarda.
A informação do pequeno contingente no quartel chegou aos legalistas soando como um sinal a que se preparassem para tomar de assalto o Batalhão. Daí a movimentação que se deu no início da noite a começar pela reunião daquele punhado de homens que não chegavam a 30 indivíduos e que zanzavam da frente da casa do Coletor Federal até a leiteria dos Nunes, ambos simpatizantes legalistas, localizadas nos dois lados da Praça Alvares Mascarenhas onde Cazuza brincava. Na época ele tinha apenas nove anos de idade e sua arguta personalidade já percebera que a confusão estava prestes a ser deflagrada devido a insistência de Dona Sinhara em manter todos dentro de casa e ao tropé promovido por aquele bando de homens armados pelas ruas que circundavam a praça.
O líder dos legalistas era Saladino Nunes, o dona da leiteria, que entre outras providências havia mandado instalar uma barreira na Machorra, bem no Portão do Primitivo, assim chamado em função do nome do proprietário das terras que ficavam no limite norte da cidade, um uruguaio chamado Primitivo Escobar. Ali pretendiam controlar a movimentação das pessoas que se dirigiam a Bela Vista de modo a evitar que constitucionalistas e seus simpatizantes entrassem na área urbana.
Mesmo a distância Dona Maria Rita, vó Rita, e as outras pessoas que estavam na Fazenda Vaquilha puderam ouvir os estampidos das armas usadas na tentativa de tomada do Quartel devido ao silêncio da noite, mas principalmente pelo longo e alto matraquear da metralhadora. Preocupada com os filhos e netos que estavam na cidade em especial com Conceição (tia Dona) uma de suas filhas que se encontrava enferma e em tratamento na casa da irmã Angelina (Sinhara), mãe do Cazuza, ela acordou pensando em ir para Bela Vista ver o que estava acontecendo.
Assim que na manhã seguinte ouviu o relato das pessoas que vieram da cidade dizendo que a situação estava complicada devido ao enfrentamento com mortos e feridos acontecido na noite anterior não teve mais dúvidas e partiu rumo a Bela Vista.
na noite anterior, nos momentos que antecederam o enfrentamento o soldado que havia sido deixado de guarda no portão do Quartel percebeu o alvoroçado grupo de cavaleiros armados que se reunia do outro lado do extenso gramado que se estendia a sua frente e tratou de comunicar rapidamente o fato a seus superiores.
O oficial no comando, Aspirante Claudionor, chamou o experiente Sargento Couto para tratarem de organizar a defesa contra um iminente ataque e decidiram plantar uma metralhadora em posição adequada de modo a deter qualquer investida, enquanto isso mandou um estafeta informar o que estava acontecendo ao Coronel seu Comandante.
Ato continuo, os legalistas ao verem a manobra desenvolvida pelos militares partiram a galope atirando em direção aos soldados de modo a impedi-los de montar a metralhadora uma vez que a surpresa pretendida já se perdera, mas já era tarde. Saladino Nunes e seu irmão Gót que iam à frente do grupo foram os primeiros a serem atingidos pela saraivada de balas. Saladino morreu imediatamente, assim como um dos cavaleiros que vinham junto a ele também foi mortalmente alcançado. Gót foi ferido gravemente nas pernas, mas sobreviveu. Outros legalistas também ficaram feridos, os com pouca gravidade conseguiram fugir ajudados por aqueles que recuaram a tempo de escapar ilesos. No dia seguinte o corpo de Saladino Nunes e o ferido Gót foram levados para a leiteria de onde haviam partido para tentar tomar o quartel na noite anterior.
A praça, na realidade não passava de um largo espaço gramado tendo em seu centro um coreto. Em seu entorno estavam a Prefeitura, a Igreja, a residência dos padres redentoristas, o Hotel do Assis, a Farmácia Portocarrero, a Barbearia dos Irmãos Avalos, a casa de Athanásio de Almeida Mello, a Agencia dos Correios, a Coletoria Federal e residência do Coletor, a casa de Dom Thomas Brum e a leiteria dos Nunes. O local era tão aberto que as vacas do Got costumavam vir ao final da tarde para a frente de seu estabelecimento para dormir no gramado enquanto aguardavam a ordenha e a liberação de seus bezerros que haviam ficado encurralados durante a noite.
Na manhã seguinte ao combate o movimento em frente a leiteria era grande e Cazuza ficou observando de longe com ordens de sua mãe para não ir até lá. De repente ele percebeu a movimentação para a saída do cortejo fúnebre que iria ao cemitério e foi se postar na esquina da Barbearia que ficava anexa à Farmácia Portocarrero e por onde passariam. Para sua surpresa o féretro parou exatamente à sua frente porque alguma coisa, um pertence do defunto, havia sido deixado para trás e ficaram ali esperando até que fosse colocada no caixão dando a ele a oportunidade de ver o corpo de Saladino Nunes.
O que ele não sabia é que sua avó Rita já estava a caminho da cidade e mais tarde seria detida no Portão do Primitivo. Ela havia partido a cavalo da Vaquilha no meio da manhã na companhia de seus filhos Athanásio e Ilidia mais o sobrinho Andorlino, filho de seu cunhado Jango que estava com eles na fazenda. Athanásio e Andorlino iriam acompanhar as duas até que estivessem próximos ao Portão de Primitivo porque ambos eram constitucionalistas e poderiam ser detidos caso tentassem entrar na cidade.
Assim, já anoitecendo Dona Maria Rita e Ilidia seguiram sozinhas o trecho final até a barreira legalista na esperança de passarem sem problemas. Entretanto, quando lá chegaram foram impedidas e encaminhadas a um local onde ficariam retidas até que alguém autorizasse suas entradas. Ambas estavam montadas com Silhões, celas femininas que possibilitam a montaria de saia porquê de lado e com a perna apoiada em um suporte de modo que montar e desmontar daquele apetrecho demandava certos procedimentos que deveriam ser feitos sem a proximidade de estranhos, principalmente homens. Foi o que permitiu não ser encontrado o revolver que Ilidia levava sentada sobre ele de maneira que puderam passar a noite com alguma tranquilidade enquanto aguardavam a liberação do acesso.
Pela manhã chegou a notícia de que um destacamento vindo de Campo Grande em veículos militares e trazendo um canhão Schneider de 75mm estava a caminho de Bela Vista o que fez os legalistas liberarem todas as pessoas que estavam retidas na barreira vez que a mesma seria desfeita e seus responsáveis deslocados para outro lugar posto que nada poderiam fazer contra a força superior que se aproximava. O oficial que comandava o pelotão e a bateria dos constitucionalista que se avizinhava da cidade era o Tenente Joaquim Ferreira Soto marido da Teclinha e sobrinha da Eponina (Carneiro) esposa de Athanázio de Almeida Mello.
Passado o susto, mesmo com o cansaço de uma noite sem dormir Dona Maria Rita e sua filha seguiram céleres para a casa de Sinhara. Algum tempo depois, quando almoçavam ouviram o primeiro tiro disparado pelo canhão que chegara no Portão do Primitivo atingir as cercanias do 10º BCI no intuito de desencorajar os inimigos que ainda permaneciam em seu entorno e dissuadir os oficiais leais a Getúlio Vargas de oferecerem resistência.
Sua prima Cremilda, filha caçula do Coronel Militão Loureiro de Almeida, chegou apressada dizendo que o pai chamava a todos para irem se proteger no porão do casarão onde moravam. Só após estarem acomodados na residência do tio foi que Cazuza percebeu que ainda carregava em sua mão o melequento pedaço de rapadura que comia quando a correria começou.
Os combates continuaram em Mato Grosso mesmo depois da capitulação de São Paulo sendo a cidade de Bela Vista o último reduto constitucionalista a cair no final do mês de outubro de 1932.
Cuiabá/MT, 5/11/2020
Marcelo Augusto Portocarrero

Muito bom Marcelo, relatos históricos que você agrega com naturalidade para nossa própria história familiar!
Cazuza deve estar contente!
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Sempre muito bom, gostoso e elucidativo ouvir histórias de nosso Brasil contadas por pessoas que assistiram e vivenciaram as mesmas. Parabéns Marcelo Portocarrero por nos brindar com essas pérolas vindas da memória e vivência do querido Seu Porto, como era conhecido em minha família.
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