Deus te abençoe meu filho

A princípio, quando a contragosto papai veio morar comigo ainda era capaz de se deitar sozinho, suas dificuldades eram bem administradas porque caminhava e conseguia ir ao banheiro sem, como dizia, incomodar ninguém.

Acontece que as inconveniências que aparecem com a idade estavam se avizinhando e foram chegando sem cerimônia nem aviso prévio para, pouco a pouco, mostrarem sua crueldade. Para complicar, isso se deu no final de 2019, ou seja, três meses depois chegou essa virose que ainda assola o mundo e que nos obrigou a dispensar os serviços das cuidadoras que o acompanharam quando veio para minha residência, aliás, uma condição imposta por ele para concordar em se mudar.

Com isso, teve início o período mais difícil de sua adaptação ao nosso apartamento. Em que pese a boa instalação dos aposentos onde esteve acomodado ele costumava dizer que lá não era seu domínio e sim nosso, meu e de Clara. Como consequência, enquanto as cuidadoras estiveram presentes correu tudo bem, mas a ausência delas nos colocou a cumprir suas tarefas além das nossas o que acabou por modificar definitivamente o cotidiano de todos. No entanto, o que parecia ser uma tarefa extenuante foi rapidamente superada por sua espontânea colaboração ao perceber as dificuldades que estávamos enfrentando. Tanto, que cooperou de forma definitiva para diminuir os riscos dos estresses que eventualmente ocorrem nesse tipo de situação.

Assim mesmo, o início foi muito difícil principalmente porque tivemos que adaptar nossos horários, por isso tive que dormir com ele com receio de deixa-lo sozinho no quarto, ajuda-lo na higiene pessoal, trocar a roupa e outras atividades que não conseguia fazer sem o necessário apoio. Então, para amenizar esses momentos passamos a tomar banho juntos, oportunidades em que no princípio riamos muito ao lembrar que era ele quem me ensaboava e agora eu fazia as vezes do ensaboador. Depois, ajudava a enxugava seu corpo, se vestir, pentear os cabelos e fazer a barba em momentos que transformamos em divertidas trocas de informação até percebermos o quanto eu tinha dele em meus procedimentos para as mesmas coisas.

Foi assim, principalmente depois que começou a mostrar cansaço até para caminhar pequenas distâncias como ir da sala até seus aposentos ou quando sua pouca visão dificultava o apoio nos suportes instalados no quarto e no banheiro. Dessa forma, as medidas paliativas que fomos tomando com o passar do tempo retardaram mas não impediram sua quase total dependência, no entanto, foi seu entendimento da realidade que o cercava que lhe possibilitou aceitar de bom grado o suporte que procurávamos de todas as maneiras lhe proporcionar. A proximidade do final com plena consciência foi o que nos fez optar por mantê-lo nas casas dos filhos até o fim. Dessa forma, papai permaneceu consciente, acolhido e com disposição para viver em família pelo maior tempo que Deus nos permitiu lhe proporcionar.

Manter seu cérebro ativo através de longas conversar, incentiva-lo a contar suas lembranças, histórias que ouviu e as aventuras que viveu foram o combustível que alimentou seu ânimo e manteve seu coração batendo forte durante aquele maravilhoso tempo que esteve conosco no final da vida.

Com a necessária frequência, seus filhos, noras e netos estiveram com eles participando de momentos que foram como viajar com papai no tempo em ocasiões que me faziam lembrar de quando íamos passar férias em Bela Vista, hoje Mato Grosso do Sul, na cada de sua mãe, vó Sinhara, e ela nos colocava a bombear o carneiro do poço para encher a caixa d’água. Então, todos os dias as crianças eram escaladas para aquele trabalho que acabava se transformando em divertida competição onde quem conseguisse bater a alavanca do carneiro mais rápido em determinado espaço de tempo ganhava a disputa. Era com esse espírito que nos alternávamos a sua volta no prazeroso empenho de bombear forças a papai.

Vaidoso, volta e meia se lembrava de uma de suas roupas ou pertences e fazia questão de saber onde estavam. Com frequência se comunicava com sua tia Gloria com quem conversou até perto dela falecer aos 102 anos, ele já com 97. Pelo lado dos Portocarrero sempre manteve contato com a prima Virgínia, outra centenária da família ainda viva nesse início de 2022. Da mesma forma, regularmente pedia que ligássemos para os amigos, a querida sobrinha Cida e para Enedina, sua filha de coração.

Em seus derradeiros meses passava bom tempo falando de mamãe, era quando afirmava que ainda sentia sua presença na hora de dormir, momento em que dizia ouvir ela rezar o terço e fazer imposição das mãos sobre sua cabeça pedindo por sua saúde da mesma forma que fazia todas as noites pensando que ele já estivesse dormindo. Quando mamãe morreu, papai disse que ela veio até ele na noite anterior a seu falecimento para avisá-lo que estava partindo de modo que no dia seguinte foi até a hospital para se despedir.

Muito do que contei nesse texto foi mencionado no que escrevi anteriormente, mas relembrar os momentos que estive com papai só me fazem bem e com certeza a meus irmãos também porque sempre pedíamos sua benção quando nos despedíamos nas vezes que íamos estar com ele em sua casa, depois na minha e na de André Guilherme onde passou seus últimos momentos. Quanto a mim, aquelas ocasiões são eternas porque enquanto esteve comigo era depois de acomoda-lo na cama que me sentava a seu lado para conversar mais um pouquinho e pedir sua benção que, invariavelmente, após essa despedida de boa noite ele pegava minha mão, a colocava sobre seu peito e agradecia por estarmos juntos. Por fim, e sob meus veementes protestos dizendo que era eu quem lhe agradecia por ser meu pai ele dizia seu inesquecível: – Deus te abençoe meu filho.

2 comentários sobre “Deus te abençoe meu filho

  1. Bom! Como não agradecer a DEUS, por Viver este Previlégio! Os cabelos brancos nos ensinam, como a vida é simples e Boa! Para que sabe viver! Mesmo nos momentos adversos! Marcelo Clara! Que DEUS continue Abençoando suas Vidas!

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  2. Homem íntegro, forte e de uma resiliência impecável. Agradeço a Deus pela oportunidade de tê-lo conhecido e ter sido meu,nosso amigo. Gratidão.

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