Jandira

Volta e meia alguém comenta sobre os personagens folclóricos de sua cidade dando-lhes um perfil depreciativo, jocoso mesmo, desrespeitando essas pessoas e suas famílias sem se importar com quem foram ou o que as transtornou a ponto de torná-las diferentes, geralmente solitárias, invariavelmente devido à falta de respeito e solidariedade.

Em nossa Cuiabá não foi diferente, e é sobre uma dessas personagens que vou contar alguns fatos que podem mudar a compreensão de muitos, principalmente dos cuiabanos e chegantes mais antigos, aqueles que conviveram com Jandira Ramos Lino, ou Jandira Louca como alguns a chamavam em uma provocação sem sentido muito menos razão. Sim, ela era uma pessoa como todos nós, com nome, sobrenome, residência fixa, vizinhos; amigos que a tinham em boa consideração, era querida e respeitada.

A história de Tia Jandira começa no Rio de Janeiro no início de século passado, para ser mais exato, no dia 27/12/1909 e termina no dia 18/06/1974, aos 65 anos de idade. Para quem nunca procurou saber, o século 20 foi um período que se notabilizou por avanços tecnológicos, políticos, sociais e civilizatórios importantes, vários deles infelizmente caracterizados por massacres e conflitos ideológicos que culminaram em muitas mortes, duas guerras mundiais e disputas internas em países dominados por ideologias socialistas na sanha pelo poder, tanto que ficou conhecido como o século dos grandes massacres. No entanto, também foi considerado e século do glamour. Naquele tempo, Paris, a cidade luz, era considerada a capital artística do mundo, para lá iam escritores, pintores, compositores e artistas, os influenciadores de então, época em que os direitos humanos passaram a fazer parte das políticas globais, tal como o direito das mulheres ao voto.

Foi nesse mundo, mas no Rio de Janeiro, que nasceu e cresceu Jandira em uma das diversas famílias tradicionais cariocas, frequentou saraus, clubes literários, tocou piano, declamou e acompanhou a família nos convescotes da sociedade. Seu pai era militar e de pronto aceitou a transferência de serviço para Cuiabá, em boa parte devido à tristeza que o abalava pela perda da esposa, vendo nessa mudança a oportunidade de encontrar um balsamo para minimizar sua dor, mas não para ela, ainda uma jovem e linda menina de cabelos cacheados.

Jandira não queria vir e suas tias muito insistiram para que ficasse com elas de maneira a continuar seus estudos e manter a posição social, mas seu pai, João Lino de Cristo, não aceitou perder a filha única e vir para cá trazendo consigo somente os filhos homens, entre eles Manoel Ramos Lino, Seo Manequinho, meu elo de ligação com tia Jandira, iniciado através de meu namoro com sua neta Clarita. Foi quando a conheci, pois frequentava a casa de meu futuro sogro e morava com Seo Manequinho no bairro Quilombo, na Rua Presidente Marques, esquina com a Rua Cursino do Amarante.

Pelo que pude saber, desde que veio para Cuiabá teve dificuldades de adaptação por sentir falta da mãe falecida e das tias com quem ficava no Rio de Janeiro. Assim, aos poucos foi se retirando do convívio com as pessoas, principalmente estranhos, de modo que imperceptivelmente a depressão foi tomando conta de sua personalidade. Quando chegaram na cidade moraram no Bairro do Porto, nas proximidades do Colégio Senador Azeredo, mas com a morte do pai foi ficar com o irmão no endereço já mencionado anteriormente, por isso costumava caminhar de lá até sua antiga casa, agora pertencente a um tio, com frequência passando na casa da sobrinha casada com o Cel. Octayde Jorge da Silva, por quem tinha enorme afeição, provavelmente por ver nele a figura militar do pai.

Nos momentos de conversa costumava justificar suas andanças dizendo serem momentos em que encontrava refúgio para sua angustia e solidão auto impostas. Quando em casa escrevia poemas, coisa que fazia bem, espiritualista lia muito sobre esoterismo, dava vazão a sua paixão pela música ao tocar piano e se entregava ao vício do cigarro, fiel companheiro de solidão.

Aos poucos tia Jandira também se desinteressou pela aparência, mesmo tendo mania de tomar mais de um banho por dia, tanto que era lembrada por estar constantemente com uma toalha de rosto acomodada no ombro esquerdo, uma de suas características, que usava para enxugar o suor. Entretanto, os descuidos com os cabelos, o excessivo vício de fumar e a aversão a estranhos a transformaram. Apesar disso, era extremamente solicita em casa e adorava conversar sobre política, oportunidade na qual mostrava sua excelente percepção dos turbulentos momentos nacionais que viveu desde a década de 1930 até o tempo em que esteve conosco.

Incompreendida, desajustada em relação ao convívio com estranhos, perseguida pelos inconsequentes e reprimida em sua própria solidão, tia Jandira, ao contrário do que as línguas ferinas daqueles que não a conheceram disseram a seu respeito, foi uma vítima das circunstâncias e quando partiu para se encontrar com o Criador o fez tranquilamente, em paz consigo mesma.     

12 comentários sobre “Jandira

  1. Lindo Texto Marcelo.!
    Devemos sim, lembrar das pessoas pelo seu lado bom, que marcaram sua passagem pelo mundo.
    Seu amor a arte, a poesia , música e cultura.
    É muito bom ter convivido com essa pessoa.
    Que ela esteja na paz do Senhor.

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  2. Obviamente, não conheci Tia Jandira, mas vejo nela o retrato da depressão que assola um bom numero de pessoas. Muitas delas se encontram muito proximas do nosso convivio famíliar, onde a solidão e o desajuste são a sua marca registrada.

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  3. Convivi muito tempo com a Jandira, pois morava em frente à casa do Seo Manequinho. Sempre que aparecia na janela da minha casa a Jandira vinha conversar, e sempre vinha pedir o favor de postar cartas que enviava para União do Pensamento Esotérico ( RJ), e que eu o fazia com muito prazer depois ela saia saltitando e cantando Shiriri Shiriri Shiriri. toda feliz.

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    1. Olá Carmira, o texto foi escrito graças a seu irmão Deolindo que comentou comigo ter lido em um grupo de Facebook comentários falando mal dela. Agradeça e ele por mim. Abraço!

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  4. Conheci a Jandira, morei na Marechal Deodoro e ela andava por ali. Não perturbava ninguém E verdade ela fumava muito. Mas naquela época o cigarro era moda e muita gente fumava.Lembro dela era bem alta e magra. Quando voltava da escola passavava por ela que olhava, fumando e seguia seu caminho. Bela recordação.

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  5. Querido cunhado Marcelo, obrigada pelo lindo resgate da história de vida da gentil tia Jandira. Você soube, com maestria e muita sensibilidade, descrevê-la e contar sua verdadeira trajetória neste mundo. Agradeço de coração por essa crônica que com dignidade e verdade contou sobre Jandira Ramos Lino, para alguns que não a conheciam “Jandira louca”, para sua família simplesmente Jandira e para mim querida “tia Jandira”.

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  6. Sempre quis conhecer a história dela, pois, quando criança, a vi caminhando na Av. Presidente Marques, figura alta, esguia.
    Minha mãe dizia que ela era muito inteligente. Obrigada por terem compartilhado essas informações sobre a Jandira.

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  7. Muito interessante e esclarecedor o relato sobre “jandira louca”…eu era bem criança tipo 8anos a 10anos pois eu estudava na escola bernardina rich…e em frente era a casa da Jandira. Onde morava minha saudosa professora elza..mãe da querida e saudosa Luizinha..Jandira era tudo isso que foi relatado de louca não tinha nada..mesmo criança eu lembro de a ver com um olhar muito triste com o cigarro nas mãos..era a imagem pura de uma pessoa saudosa..Deus a tenha.

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  8. Também conheci a Jandira. Eu morava na Marechal Deodoro, fundos com a casa do meu tio Juca Moreno. Amigos do seo Manequinho e prof Elza. A Jandira, gostava de conversar com o meu tio Juca, ambos inteligentes e antenados para o momento em que viveram.

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  9. Amada tia Jandira! Grata a esta pequena homenagem a ela pouco eu sabia da sua vida antes de morar em Cuiabá.Qdo criança ela fazia para mim e outros sobrinhos artesanato de barro .Frutas, bichinhos etc.Ela fazia e o meu tio Maneco comprava tinta com a qual ela os pintava.Eu ganhei mtos desses artesanatos feitos de piçarra um barro bem vermelho e firme.

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