A experiência ensina melhor

O Conselho não é mais solicitado nem ao menos bem recebido, quando vem dos mais velhos.

Concordo que idade, por si só, não traz sabedoria, tão pouco é alcançada por todos. Entretanto, não há como negar que uma vez conseguida por quem teve competência para absorver conhecimento durante o transcorrer da vida, certamente será um bom conselheiro.

“Se conselho fosse bom não seria dado, seria cobrado”, dizem por aí. Este é, com certeza, um dos raciocínios mais mesquinho que existem. Até porque, trata de algo cujo valor é incalculável, independentemente da área em que é solicitado ou dado.

Há uma inquestionável diferença entre dação e doação, ou seja, dação se refere ao ato de liquidar uma obrigação e doação à liberdade patrimonial a favor de outrem, no caso, o conhecimento. Portanto, um benefício de valor imensurável para quem dá, tanto quanto questionável para quem recebe, exceto, talvez, no que se refere às consequências.

A principal diferença entre os conselhos vindos de quem obteve conhecimento através da experiência vivida e de quem foi treinado para vender o que não viveu reside na abrangência dos conteúdos ou, em outras palavras, é o que diferencia a sapiência do conhecimento.

Conselhos sobre o que, como, porquê, para que serve, ser e ter, não atendem mais aos anseios dos jovens. Eles estão interessados em treinamento para desenvolver competências e habilidades, outra forma de aprender (não confundir o que se adquire por treinar com o que é transmitido pela experiência), desde que seja oferecido por quem, mesmo com idade avança, se apresente jovial, como se isso o qualificasse para ser coach, estrangeirismo utilizado para ressignificar a função do treinador, ou seja, uma pessoa que transfere o que aprendeu através do treino, seja ele individual ou de forma coletiva.

Conselheiros aprendem por experiência e se dedicam a ajudar no trabalho, nas oportunidades e nas ferramentas, situações estas que lhes permitem ensinar sobre a vida, o que é amar, respeitar e tantas outras coisas boas que só o passar do tempo mostra e ensina. Portanto, não é a mesma coisa que treinar, aliás, fica longe de ser.

Mas a questão principal a que me dedico neste artigo está focada no mal causado aos mais velhos pelo afastamento, diria melhor, pela falta de paciência dos mais jovens e vice-versa, em relação a esse importante relacionamento.

Situações, em boa parte causadas pelo apressado desejo de sucesso, que acaba por desprestigiar as necessárias fases do conhecimento empírico, antigas gestoras dos tempos destinados às revisões e ajustes sobre o que se fazia ou pretendia obter; à falta das necessárias considerações dentro do próprio ambiente familiar referente aos valores hereditários, morais e culturais, entre eles o respeito, transmitidos dos avós para os pais e destes para os filhos; ao insipiente aprendizado nas escolas através de métodos, que antes alimentavam os intelectos com exercícios e informações, hoje considerados ultrapassados devido às prioridades agora dadas à sexualidade, e outros procedimentos nelas inseridos através da doutrinação paulofreiriana, que pouco ou nada contribuiu ao necessário desenvolvimento cognitivo nas tenras idades do ensino básico.

Que dizer então do desleixo referente ao aprimoramento de tudo o que acima foi colocado, com o deslocamento do investimento no desenvolvimento do cérebro humano, cujas inteligências: contextual, física, emocional e inspiracional, são cada vez mais desprezadas devido seu redirecionamento para o aprimoramento do cérebro eletrônico, a imprevisível IA (inteligência artificial) e sua razão artificial, que rapidamente está promovendo a substituição da mão de obra humana por máquinas robotizadas.

Nesse ambiente, as pessoas de mais idade, os velhos, como são considerados por aqueles que sequer sabem se um dia chegarão a tanto devido à falta de vivência temporal, costumam ser desprezados. Ainda não entenderam, que longe de ser um sacrifício ao porvir, viver o presente observando o passado é, antes de tudo, a melhor forma de se manter conectado ao futuro, mas isso é coisa que só a experiência ensina melhor.

2 comentários sobre “A experiência ensina melhor

  1. Lendo o seu bem elaborado artigo, lembrei-me do antigo e tão significativo ”Bença, mãe, bença pai”, agora tão esquecido.

    Esse costume que acompanhou as famílias durante muito tempo (eu ainda tive esse privilegio), além de ser uma forma de oração dos mais velhos sobre os descendentes (“Deus que te abençoe e te faça feliz”, respondiam) incentivava o respeito e o reconhecimento da sabedoria daqueles com mais anos vividos.

    E isso, nenhuma IA consegue substituir.

    Excelente reflexão, Marcelo!

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