Almas envoltas

O amor faz atravessar a rua de mãos dadas.
A paixão é deixada na calçada.
Então, segura firme a minha e não solta.
Do outro lado, na estrada da vida,
Permaneceremos eternamente uma só pessoa,
Em nossas almas envolta.

Com todo o meu amor.”

Para Clara Maria, minha Clarita, alma gêmea e eterna companheira de jornada. Que nossas mãos nunca se soltem, não importa o lado do caminho em que estejamos. “São 53 aanos de vida juntos – Desde 27/04/1973 a 27/04/2026”

O Ônus da Eficiência

É fundamental termos consciência de que nossos passos, ações e até falas podem ser interpretados de forma equivocada por aqueles que não compreendem a entrega desinteressada e a boa vontade. Para muitos, a disponibilidade e o desejo genuíno de contribuir não são vistos como atos de boa-fé ou de se fazer presente quando necessário, mas sim como movimentos motivados por outros interesses, geralmente escusos. Essa percepção distorcida é comum, especialmente entre aqueles que se sentem ofuscados por quem busca exercer tais predicados. Trata-se do ônus da eficiência.

Minha trajetória profissional trouxe essa sensibilidade a duras penas. Corroborando para as considerações acima, lembro-me de quando, exercendo assessoria em uma Secretaria de Estado, busquei, eu mesmo, agilizar processos atrasados devido à lentidão interna. Na ocasião, fui interpelado por um diretor do órgão, que classificou minha busca por agilidade como “impertinência perturbadora do ritmo natural das coisas”. Uma evidente demonstração de que, para certas pessoas, a eficiência incomoda.

Em outro momento, este como consultor, vivi o constrangimento de ser “zeloso demais”. Pois bem, ao me trajar formalmente para a apresentação de um projeto, enquanto meu contratante optou por um estilo esportivo, as atenções que deveriam ser para ele se voltaram para mim, desde nossa recepção pela assessoria do orgão. Mesmo me esforçando para colocá-lo em evidência e passar-lhe a palavra constantemente, o jantar que se seguiu foi de cobrança e amargura. Havia um desconforto da parte dele com o destaque conferido ao projeto e à minha figura técnica, algo que fugia ao seu e ao meu controle.

Episódios como esses se repetiram em outras ocasiões, no entanto, o golpe mais recente é o que mais dói. Nele, um amigo de longa data sentiu-se desprestigiado em um trabalho onde estávamos envolvidos. O que ele não percebeu, apesar de meus inúmeros alertas, é que a eficiência sem interesse é muito diferente daquela movida por outro motivo, principalmente a vaidade.

O erro de quem se sente diminuído em ocasiões como essa, mesmo sendo proativo, reside em não compreender que o reconhecimento exige mais do que apenas “fazer”; exige discrição, responsabilidade e discernimento. A importância de ser considerado eficiente passa, obrigatoriamente, por não se tornar inconveniente.

Aí reside o abismo entre quem busca espaço e quem ocupa espaço. De nada adianta tentar cortar caminho ou tomar a iniciativa quando não se tem a sensibilidade de entender a importância do trabalho em equipe. Infelizmente, nem todos estão prontos para ouvir que o maior obstáculo para o sucesso, muitas vezes, é a própria incapacidade de caminhar com temperança.

Centro-Oeste: Da Fragmentação ao Pacto de Poder

A história do Centro-Oeste brasileiro é marcada por uma sucessão de fatiamentos. Desde a criação de Mato Grosso do Sul, em 1977, passando pela elevação de Rondônia a estado em 1981 (antigo Território Federal do Guaporé que, apesar de pertencer à Região Norte, sempre esteve ligado histórica e economicamente a Mato Grosso) até a criação do estado de Tocantins, desmembrado de Goiás e integrado à Região Norte, o que assistimos foi nossa região geográfica sendo redesenhada sob o pretexto da eficiência administrativa. No entanto, décadas depois, o que se observa é um paradoxo: enquanto as fronteiras se multiplicaram, nossa representação política foi diluída.

Como engenheiro, compreendo que o traçado territorial é, hoje, uma consolidação jurídica irreversível. Contudo, o erro que não podemos perpetuar é o fatiamento da nossa estratégia de desenvolvimento. A exemplo, vimos municípios históricos, como Chapada dos Guimarães, Rosário Oeste e Diamantino, sendo fatiados ao longo de décadas, a meu ver sem os adequados critérios geoeconômicos que preservariam suas vocações, sustentabilidade e integração regional. Isso sem falar de Várzea Grande, Livramento, Santo Antônio do Leverger, Barão de Melgaço, Poconé, Acorizal e Jangada, que se tornaram satélites de Cuiabá, nossa pujante capital. Todos frequentemente orbitam as esferas estadual e federal com o “pires na mão” — dependentes que são das emendas parlamentares que os acorrentam a uma elite política insaciável.

O desenvolvimento desses municípios não pode ser um subproduto de favores, mas o resultado de integrações técnicas e econômicas. A solução dessa vexatória condição passa pela definição de estratégias que respeitem as vocações locais. Saneamento básico, segurança e, fundamentalmente, escolas de ensino técnico voltadas às cadeias produtivas regionais são as fundações necessárias para que essas cidades dividam com a capital as oportunidades de crescimento social, urbano e econômico. O turismo, mesmo que regional, precisa ser tratado como ativo estratégico, superando entraves que, embora ecologicamente justificáveis, têm-se tornado economicamente inviáveis por falta de infraestrutura e gestão competente.

No campo macroeconômico, o desafio é ainda maior. Somos o pulmão econômico do mundo; nossas commodities sustentam a balança comercial brasileira de forma mais robusta que a mineração. No entanto, para que esse vigor se transforme em qualidade de vida local, precisamos defender nossas fronteiras econômicas com a mesma tenacidade com que os heróis do passado defenderam nosso território na Guerra do Paraguai.

Essa defesa exige um pacto de parceria, como aquele da guerra supracitada. Quando falamos na consolidação de nossa infraestrutura através dos modais rodoviário, ferroviário e hidroviário, não devemos ignorar a sensibilidade ambiental da nossa região. Pelo contrário, a viabilidade desses empreendimentos deve ser sustentada por EVTEAs (Estudos de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental) rigorosos, onde o licenciamento não seja um “sim” ou “não” cartorial, mas um compromisso de parceria e monitoramento permanente.

Precisamos convencer os órgãos de controle e a sociedade de que a eficiência técnica é a maior aliada da preservação. Os modais ferroviário e hidroviário bem monitorados são, por consequência, menos impactantes que o escoamento intermitente utilizado em rodovias.

O Centro-Oeste precisa aprender com as outras regiões que agem como blocos coesos. O Brasil depende de nós, mas nós precisamos depender menos da benevolência de Brasília e mais da nossa unidade. É hora de transformar o que foi dividido no passado em uma força integrada para o futuro. Afinal, uma região que alimenta o mundo não pode aceitar sentar-se à mesa e receber apenas migalhas do que ela mesma produz.

A Arte de Saber Admirar

Algumas pessoas têm essa capacidade única de serem diretas e objetivas. São tão marcantes que dizem tudo num ritmo que nos prende a atenção. O que fazem — seja escrever, cantar ou tocar — transborda uma autenticidade que encanta de imediato.

Escrevi esta frase no intuito de elogiar uma pessoa que acabara de ser agraciada com a imortalidade ao ser empossada membro da Academia Mato-Grossense de Letras. Trata-se de uma honraria para poucos, a se considerar a enorme responsabilidade que é ocupar lugar tão ímpar — situação praticamente inimaginável para a maioria das pessoas que, cada vez mais, confundem o efêmero com o eterno. Isso ocorre, sobretudo pela pouca informação sobre o sentido da imortalidade acadêmica: a transferência do “eu” biológico para o “eu” intelectual.

Ocupar uma cadeira acadêmica vai além do reconhecimento de uma trajetória; é o compromisso de manter viva a chama de uma cultura que resiste ao tempo. Ser imortal, nesse contexto, é entender que a técnica deve estar a serviço de uma verdade maior. É essa verdade que permite ao autor, ao músico ou ao orador tocar o intangível, transformando o ofício cotidiano em um legado que não se apaga.

Essa transição do biológico para o intelectual exige uma entrega absoluta à própria essência. Não há magnetismo sem verdade, assim como não há imortalidade sem coerência. Quando a pessoa que admiramos alinha o que sente ao que expressa, ela deixa de ser apenas uma figura pública para se tornar um farol, guiando a todos através da névoa de superficialidade que tantas vezes caracteriza a nossa era.

Assim, seja escrevendo um livro, tocando um instrumento ou cantando uma canção, a autenticidade cria um magnetismo que prende a atenção. Não se trata apenas da técnica; é muito mais que isso. É uma coerência tão profunda que o sentimento se manifesta; tornando a harmonia e o encantamento inevitáveis.

Em nada nos diminuímos quando admiramos os outros; pelo contrário, é pelo olhar e pelo ouvido que nos educamos.  Afinal, nada explica melhor a sensação de bem-estar do que ser motivado pelo conjunto desses sentidos. Como insinuado anteriormente, é pela canção, que em si concentra o vigor de uma bela voz, uma boa letra e o som de um instrumento que nossos ouvidos e olhos nos maravilham.

Olá pessoal! Olá gente boa!

O nó na língua: a busca pelo “politicamente correto” e as saídas inteligentes

Vocês já repararam como está ficando cada vez mais constante ver a dificuldade momentânea de quem costuma falar em público? É um fenômeno curioso: o palestrante trava, uma tossezinha nervosa surge e a mente parece vasculhar um dicionário invisível à procura de palavras que agradem a plateia desde o início, sem que, com isso, venha a ferir suscetibilidades.

Entramos na era do “rosário de pares coordenados”. É um tal de amigos e amigas, todos e todas… Uma estratégia de visibilidade que, embora legítima em sua origem, acaba por se contrapor a formas que já englobam ambos os sexos. Essa abordagem, muitas vezes redundante, surge com força diante de autoridades ou quando da diversidade dos que estão à frente pressiona quem vai falar a demonstrar um alinhamento total com as etiquetas do momento, as tais “pautas identitárias”. No esforço de ser politicamente correto, a personalidade — olha a situação aí, de novo — acaba se “embananando” em um ato desnecessário, quando não injustificável.

A solução, contudo, é mais simples do que parece e está na ponta da nossa língua.

No afã de sermos inclusivos esquecemos que termos como “pessoal” e “gente” são ferramentas poderosas de economia linguística e neutras por natureza. São termos coletivos que englobam todos os gêneros sem a necessidade de malabarismos gramaticais. Simples assim.

Sempre procuro iniciar minhas falas desta forma e justifico o porquê:

Pessoal: Como substantivo, refere se ao grupo. Não faz distinção. “O pessoal lá de casa” inclui todo mundo, sem deixar ninguém do lado de fora. No uso informal, como vocativo — “Oi, pessoal, tudo bem?” — ele funciona como um abraço coletivo que abrange homens e mulheres com a mesma naturalidade. Assim, um caloroso “Olá, pessoal!” é uma solução elegante que remove o peso da distinção de gênero sem excluir ninguém.

Gente: Gramaticalmente, é uma palavra feminina (“a gente”), mas sua alma é neutra. Quando dizemos “a gente vai”, estamos designando pessoas de forma genérica, mista e democrática.

Minha consideração sobre isso é simples: a comunicação eficaz busca a conexão, não o ruído. Quando gastamos energia excessiva na forma, muitas vezes perdemos a substância do conteúdo. A língua portuguesa é rica e nos oferece saídas elegantes que evitam o cansaço auditivo sem desrespeitar ninguém.

Usar “pessoal” e “gente” não é apenas uma escolha linguística; é uma escolha pela fluidez. Afinal, a melhor maneira de incluir alguém em uma conversa é garantindo que a mensagem flua sem tropeços, de forma direta, clara e, acima de tudo, humana.

É isso aí, minha gente, vamos nessa que a vitória é nossa!