O Revisionismo por Conveniência

Nossos repositórios literários, as instituições culturais destinadas a homenagear a escrita construtiva, não são apenas clubes sociais; são cofres morais. Elas existem para proteger a história de quem se submeteu a riscos reais — os “aventureiros” que desbravaram o pensamento e a terra. Contudo, parecem estar abduzidas por interesses alheios que não cabem, nunca couberam e, em outros tempos, jamais seriam outorgados. Agindo assim, essas instituições não perdem apenas o critério técnico, mas sua função de farol para as futuras gerações.

Elas precisam continuar a ser as guardiãs da memória. Porém, quando a ideologia política se torna um filtro, a cadeira acadêmica deixa de ser um reconhecimento e passa a ser um troféu de militância. Afinal, a “imortalidade” literária deve ser conquistada pelo peso do acervo, pela qualidade e pela quantidade.

Aos poucos e através de subterfúgios as academias acabaram assumindo um papel que pode desestabilizar a moral, os bons costumes, o caráter e, de novo, a qualidade tão almejada por nossos antepassados. Logo eles, que tanto se esforçaram para moldar nossa identidade, emoções e comportamentos de maneira a que permaneçam eternamente construtivos. No entanto, ao que tudo indica, estamos vivenciando uma espécie de “revisionismo por conveniência“.

Tanto é assim, que a percepção política passou a ser eleita como critério de seleção. Não há mais o devido rigor quanto ao acervo produzido; basta uma boa relação pessoal e pronto. O pior, é que este argumento sequer poderia existir em tão importante instância, nem ser usado como forma sub-reptícia de consideração, onde a meritocracia intelectual acaba submetida ao networking ideológico.

Além disso, talvez, só talvez, ao desconsiderar os pilares dos que vieram antes, os novos pretendentes, quiça os ocupantes, estejam buscando validar sua própria situação. Afinal, se o passado for desconstruído, qualquer produção do presente pode parecer superior.

O contraste é gritante: hoje a densidade de uma vida dedicada às letras pode ser trocada pela superficialidade de assuntos na moda que servem apenas a uma agenda momentânea é decepcionante. O efêmero não pode ocupar o lugar do eterno.

Agora, parece bastar uma referência amiga para se colocar à frente de quem possui, de fato, um extenso conjunto literário. Uma instituição que abre mão do rigor técnico para abraçar o favoritismo pode perder o direito de se dizer “guardiã da memória”.