A Engenharia da Memória sem Anacronismo

Uma reflexão sobre o Brasil dos anos 60 e 70 sob a ótica de quem esteve lá

Imagine olhar para um movimento de revolução armada, com táticas de guerrilha e embates urbanos intensos, e enxergar ali não um ato heroico de resistência, mas sim o equivalente a um grupo tentando empurrar um plano revolucionário que absolutamente ninguém no país pediu. É uma premissa tão incômoda que pode até soar insensível no primeiro momento, mas é exatamente essa lente surpreendente que vou usar para olhar para o Brasil das décadas de 60 e 70.

É uma lente que nos obriga a mudar completamente o foco porque geralmente gostamos de pensar na história como uma ciência exata. Como na engenharia civil, onde sempre existe a expectativa de precisão absoluta. Imagine, então, um prédio construído num solo específico, com a fundação concluída, o concreto seco e o engenheiro podendo simplesmente apontar para a planta e dizer: olhem, está tudo pronto para edificar a casa. É reconfortante pensar assim, não é? Gostamos quando as coisas são visíveis e cabem perfeitamente em situações identificadas e certas.

Dessa forma, entramos no terreno da história política, especialmente na América Latina do século XX e, de repente, aquele projeto de engenharia com linhas retas vira um rascunho rasurado. É quando passamos a lidar com a paisagem histórica que é, para ser honesto, extremamente turva, passional e disputada palmo a palmo. É a definição absoluta de narrativas em águas turvas onde os mesmos fatos geram memórias diametralmente opostas, dependendo de quem conta a história. É nessas águas profundas que vou mergulhar.

Esta é uma tese cristalinamente minha sobre o que aconteceu e, principalmente, sobre o porquê de ter acontecido daquela forma. Partindo dessa condição, preciso fazer uma pausa crucial para alinhar minha experiência e perspectiva de vida no período, a partir de 31 de março de 1964, quando tinha dez anos. Assim será como vou examinar esse momento que ainda reverbera com força impressionante no debate público: o ano de 1964 no Brasil. E não vou tentar, em momento algum, ser indiferente. https://marceloportocarrero.blog/2026/07/13/1964-a-ditadura-do-anacronismo/

Para quem esteja lendo o texto agora, seja no trânsito, estudando, trabalhando ou no aconchego do lar, é absolutamente fundamental estabelecer os critérios que usarei. Meu objetivo é endossar a visão conservadora e, com isso, apresentar os mecanismos de como minha memória individual constrói a narrativa histórica. É um exercício de empatia analítica que precisa de quem o leia, que calce meus sapatos para entender precisamente a textura do chão que pisei e ora descrevo. O ponto de partida para calçar esses sapatos é entender e combater de frente um conceito central: o anacronismo. O famoso erro de época.

O relato pessoal me permite definir esse anacronismo como um erro crasso, como a arrogância de julgar o passado usando as lentes confortáveis e seguras do presente, porque é muito fácil fazê-lo sentado em uma poltrona, com a internet ao alcance, mas sem estar ciente de que tanto instituições quanto meios de comunicação são suscetíveis à opinião de terceiros mal-intencionados e, com isso ou por causa disso, olham para trás e apontam o dedo para as decisões dos outros. Agir assim significa apagar ou desconsiderar os medos reais, palpáveis e urgentes que assombravam e paralisavam as pessoas daquela época.

Vou destrinchar isso por partes, porque para entender o argumento central de que a reação de 64 não ocorreu num vácuo e que não foi um simples capricho autoritário que brotou do nada é preciso voltar à atmosfera da época e compreendê-la. O cenário desenhado ali não era o de uma insatisfação política corriqueira, era mais próximo de um verdadeiro colapso institucional. Uma situação que corroía o país de dentro para fora.

Não era só uma insatisfação política nos corredores do Congresso. O povo também vivia o mesmo clima tenso e o cidadão comum sentiu o colapso na pele. Tinha uma inflação altíssima que desintegrava o poder de compra do salário rapidamente, de uma semana para outra, e isso, todos sabemos, gera pânico. Somado a tudo aquilo ainda cabe destacar as constantes greves que paralisavam os serviços essenciais, que geravam ainda mais a sensação de ninguém no controle. Provavelmente a razão mais alarmante para as instituições de poder da época tenha sido a crescente insubordinação nas Forças Armadas, ou seja, a quebra da ordem.

A ordem, que é um valor absolutamente basilar para os setores conservadores, parecia estar se dissolvendo no ar. Era um caldeirão fervendo, uma tensão acumulada que logo descambou devido a uma faísca, um gatilho muito específico para detonar a explosão, que foi a chamada Revolta dos Marinheiros, no Rio de Janeiro. A anistia concedida pelo então presidente João Goulart aos amotinados foi vista de uma maneira muito particular e até fatalista por boa parte da classe trabalhadora do país ‒ a classe média de então ‒ e pela cúpula militar.

Aquela atitude, definitivamente, não foi entendida como pacificadora. Muito pelo contrário. Aquilo foi percebido como a chancela oficial, a validação do próprio Chefe de Estado, à quebra de hierarquia, e hierarquia é tudo em uma situação que precisa de controle. É o DNA da instituição chamada Forças Armadas. Se isso for quebrado, elas deixam de ser uma força conjunta de defesa e viram bandos armados.

Então, quando o presidente, que é o comandante-em-chefe, perdoou a indisciplina de uma forma tão pública, a mensagem captada foi assustadora. O governo estava flertando com a subversão da ordem.

Trazendo a situação para uma imagem mais palpável, aquela do prédio acima mencionado, é como se a sociedade da época, toda ela, em suas diversas classes sociais, de alguma forma sentisse que estava morando numa edificação gigantesca, mas com a estrutura ficando gravemente comprometida. O vento bateu, o prédio balançou e a anistia presidencial aos marinheiros rebeldes pareceu o som alto e claro do primeiro pilar de sustentação rachando ao meio.

O medo de que o teto fosse desabar não era uma abstração, era imediato. Essa sensação de que tudo vai ruir não se converte em uma ação concreta de intervenção militar de uma hora para outra. O medo sozinho não mobiliza tanques na rua. No entanto, ele é a principal engrenagem que move a história. O que mobilizou a reação civil e a ação armada foram os fantasmas do passado. Sim, o Brasil do início dos anos 60 era assombrado por dois enormes fantasmas.

O primeiro era interno e antigo, mas ainda pulsava ‒ a Intentona Comunista de 1935. Na memória orgânica dos oficiais mais velhos, os levantes armados contra Vargas no Rio, em Natal e no Recife eram uma ferida purulenta. Tinha mais, esses oficiais eram os, então, generais da ativa em 1964. Não era história de livro para eles. Era sangue de colegas de farda derramado. Era prova explícita de que a via armada comunista já tinha sido tentada no país. Havia um claro precedente.

O segundo fantasma era bem mais recente e vinha de fora ‒ a Revolução Cubana de 1959 estava fresquíssima na memória global. O pavor que isso causava era a sensação absoluta de que uma segunda rodada revolucionária estivesse em pleno curso no Brasil. Esse temor não era só político, era o medo real da classe média de perder propriedades, como a própria casa, o pequeno negócio e risco iminente de que os valores cristãos ocidentais fossem eliminados por um modelo soviético de governo. Como aconteceu em Cuba.

Compreendido esse medo iminente, quase paralisante, é hora de descrever como a sociedade e as instituições reagiram a esse pavor, pois é nele que fundamento minha tese.

Em meu sentimento conservador uso uma terminologia calculada. Para mim, o evento de março de 1964 não pode ser classificado, de jeito nenhum, como um golpe militar clássico. Tratou-se de uma revolução democrática e, acima de tudo, preventiva. Essa é a palavra-chave. É a chave que destranca toda minha lógica conservadora. A tese é de que a ação militar ocorreu não para destruir a democracia, mas para prevenir o inevitável colapso comunista.

Para restaurar a ordem e garantir a defesa da propriedade privada, da família e tantos outros direitos é importante ressaltar que essa movimentação não foi uma ação restrita aos quartéis. Houve um endosso civil massivo. Dele fizeram parte as enormes marchas da Família com Deus pela Liberdade, que reuniram centenas de milhares de pessoas. Sim, e além das ruas, os governadores de Minas Gerais, São Paulo, Guanabara, Rio de Janeiro, Paraná, Goiás, Mato Grosso, outros mais e a grande imprensa da época chancelaram o movimento, além do próprio Congresso Nacional, que legitimou a ação.

Apesar de parecer existir uma contradição na medida de emergência tomada, a tal operação de limpeza cirúrgica e rápida para tirar as ameaças do caminho e depois convocar novas eleições ‒ essa foi a promessa do discurso inicial ‒ a história factual mostra de forma muito clara que não teve eleição rápida. Tivemos mais de duas décadas ininterruptas de regime militar.

Essa é, sem dúvida, a maior tensão interna do período militar. Um bom analista notaria na hora que deposito todo o meu argumento na motivação inicial da ação. Meu foco fervoroso na premissa de que a intervenção cumpriu, com sucesso, o papel de conter a intentona comunista naquele momento de crise criou, basicamente, uma separação injustificável entre o estopim do evento e o desenrolar das décadas seguintes.

Justificar o motivo do incêndio e a chegada do socorro é infinitamente mais importante do que explicar por que o socorro demorou para ir embora. Mas o fato de os bombeiros terem trocado as fechaduras e se recusado a ir embora não pode parecer uma discussão secundária. Essa lógica empurra tudo ladeira abaixo, diretamente para a fase mais dura e sombria do regime, a qual vivi intensamente. E a lente que ofereço é a lente crua de um adolescente crescendo justamente naquele período. No olho do furacão.

Eu tinha entre 15 e 21 anos durante os anos de chumbo. Vivi esse período em um triângulo regional entre Mato Grosso, Rio de Janeiro e São Paulo. O contraste que estabeleço em minha memória durante aquele período é frontalmente contra o que buscam estabelecer os que o usam para justificar suas histórias. A exemplo disso, não há como negar que a esquerda optou pela clandestinidade ao adotar táticas muito específicas de guerrilha urbana e rural para lutar contra o governo militar imposto. Para isso, importaram o modelo de “foquismo” utilizado por Che Guevara e usaram das táticas urbanas desenvolvidas por Carlos Marighella.

Para não deixar ninguém perdido com o termo “foquismo”, esclareço o que era, na prática, essa estratégia. O foquismo era a grande tese de expansão revolucionária da época, a mesma que fora testada e aprovada em Cuba. A ideia do Che Guevara era de que não era preciso esperar o país inteiro ficar insatisfeito. Bastava um pequeno grupo, um foco de guerrilheiros dedicados, geralmente localizado em área rural. A bravura deles inspiraria os camponeses a pegarem armas até cercar e tomar as capitais.

No entanto, essa adaptação no Brasil também envolveu táticas urbanas bem extremas como assaltos a bancos, explosões de bombas, sequestros de embaixadores. Todas táticas visando esgotar a segurança e desestabilizar o moral do governo militar. No entanto, e pelo contrário, esse foi o enorme erro que acabou gerando a continuidade do governo militar até que fossem extintas todas as ações de guerrilha, tanto rurais como urbanas.

O efeito prático disso na população foi o oposto do que a esquerda esperava. O cidadão comum não via um carro-bomba como um clamor romântico por liberdade. Ele via tudo como o terrorismo que ameaçava o ônibus em que ia para o trabalho, ao mercado para abastecer a casa, ao passeio com os filhos ao parque, ao Maracanã, à matinê do cinema e tudo mais o que fazia, ou seja, aquelas ações eram contra sua segurança e a de sua família.

A guerrilha foi uma proposta revolucionária que absolutamente ninguém no país pediu, o que prova que sequer procuraram entender o cidadão comum. Eram, em sua maioria, eles sim, pequenos burgueses, universitários arrogantes, induzidos a reagir dessa maneira por estranhos à nossa terra, nossa cultura pacífica, nossos costumes e nossa religiosidade. Pessoas que não conheciam o Brasil, ainda menos o brasileiro. Por isso, o fracasso foi esmagador tanto civil como politicamente.

Viveram uma realidade paralela, alimentada por uma literatura marxista totalmente divorciada das dores reais do trabalhador brasileiro comum. A esquerda e seu terrorismo de guerrilha não falavam o idioma do país.

Qual era o desejo real do trabalhador nos anos 60, 70 e, por que não, até hoje? Essa é fácil responder: ascensão e estabilidade. A maioria escolheu a ordem. Sejamos francos, essa escolha foi imensamente facilitada pelo contexto econômico, o famoso milagre econômico. O PIB crescia a dois dígitos por ano, tinha emprego sobrando, megaobras como a ponte Rio-Niterói saindo do papel e uma sensação de crescimento contagiosamente agradável.

Na realidade do cidadão comum a renda estava melhorando enquanto os grupos clandestinos continuavam tentando expandir a revolução. Por isso foram vistos como baderneiros tentando atrapalhar o trem do progresso que estava finalmente se movimentando.

Se a guerrilha falhou em conquistar a população, ela, infelizmente, foi bem-sucedida em gerar baixas humanas de ambos os lados. Basta dar uma olhada na contabilidade trágica desse período. Sim, o mesmo distanciamento de seis décadas permite olhar para isso sem o calor passional de quem estava na linha de tiro. E os números são a fundação do meu argumento final.

Não há como negar a brutalidade ocorrida durante o regime militar no Brasil. Não, de forma alguma. Os documentos e relatórios oficiais registram 434 opositores mortos ou desaparecidos entre 1964 e 1988 na esquerda armada. A maioria isolada na selva do Araguaia, longe dos olhos urbanos, mas há um contraponto letal do outro lado, o lado das consequências das táticas terroristas, que não pode ser simplesmente apagado. Outras 119 vidas foram ceifadas diretamente pelas ações daquela mesma esquerda armada. Soldados rasos, cumprindo serviço militar, policiais, civis inocentes e até companheiros de luta armada. Pessoas no lugar errado e na hora errada.

Por que essa matemática é tão essencial para sustentar minha narrativa? Ela é essencial porque opera no cerne da psicologia e da memória política. Ela serve para quebrar a espinha dorsal da narrativa de vítima única. A de que só um lado sofreu.

Mentira! Na historiografia comum, a oposição armada ganhou uma aura romântica. Ao jogar o holofote sobre os 119 mortos provocados pela guerrilha comunista, meu argumento é de que aquela utopia importada também tem as mãos sujas de sangue. Cobrou um preço injustificável em vidas inocentes. Não uso esses dados para igualar os lados em disputa, mas sim para dizer que a crueldade não foi monopólio de ninguém. Foi um embate sujo e a história precisa carregar as lápides de todos. É uma rejeição frontal à ideia de que a história se divide com ingerência mórbida em mocinhos puros e vilões absolutos.

Fecho o último ciclo dessa minha narrativa de maneira bem peculiar nos anos 80.

Aquele jovem adolescente já era um homem feito, trabalhando como engenheiro, casado e com filhos em 1985, quando o poder foi entregue na redemocratização. Cabe destacar que o poder foi devolvido aos civis de forma pacífica. E esse fechamento coroa meu argumento conservador de que a intervenção manteve seu caráter transitório, mesmo demorando 21 anos. É fato determinantemente claro e bom não ter tido um banho de sangue no final.

A transição pacífica legitima as intenções originais dos militares de 64 e diferencia o Brasil de outras ditaduras que desmoronaram em guerras civis. Chegando ao fim, espero ter deixado patente o valor de mergulhar novamente naquelas águas turvas. A grande utilidade de dissecar fatos como esses não é só aprender sobre datas, mas também mostrar como a memória política deve ser construída tijolo por tijolo por quem estava lá, no olho do furacão.

Se tudo o que fiz tem uma lição prática, essa é a de que compreender a história exige olhar além dos manuais padronizados. Exige entender a mecânica visceral do medo coletivo, o poder sedativo do otimismo econômico e o peso do contexto emocional nas decisões de um país.

Resta uma última consideração a trazer. Na verdade, duas perguntas em uma: o que vai acontecer com a história e com a verdade absoluta quando a última pessoa que testemunhar um evento com os próprios olhos não estiver mais aqui para contar sua versão?

É uma questão profunda. Assim sendo, a história se tornará apenas um debate sobre papéis antigos. É essa a reflexão que deixo a quem chegou até o fim deste texto.

PS: Este texto serviu de base para que eu escrevesse e publicasse o artigo 1964 – A ditadura do anacronismo.

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