Ao se deparar com um rio a sua frente o escorpião acostumado a ser autossuficiente viu que teria necessidade de ajuda para vencer a turbulência das águas para atravessar.
Ele sabia que sua fama de inflexível não o ajudaria em nada. Mesmo assim, saiu a procura de alguém que pudesse ajudá-lo em sua difícil empreitada.
Inteligente, viu que poderia usar dessa mesma fama para submeter quem encontrasse pela frente. Estava decidido, esta seria sua estratégia porque com ela não haveria necessidade de negociar com ninguém, sabia que quem não o respeitava, temia. Era o que bastava.
Assim intencionado, saiu a percorrer a margem até encontrar o sapo. O escorpião conhecia as características do sapo, que ele era desajeitado, escorregadio, emitia sons que incomodavam alguns dos habitantes do local, que também era possuidor de outras características e defesas naturais para sua proteção dos outros moradores e usuários do rio. O sapo era famoso por causa disso, um mito por assim dizer. Mas nada, no entender do escorpião, que o superasse.
Quase todos os moradores do rio eram peçonhentos e ardilosos, bem mais importantes que aquele insignificante sapo a quem antes nunca haviam dado muita atenção, tão menosprezado era.
O escorpião sabia disso, na verdade sabia de tudo, afinal morava no mesmo vale e na calada da noite, seu ambiente preferido, tinha conseguido informações sobre todos, por isso conhecia um por um. Principalmente os mais perigosos, aqueles outros que também ficavam no rio. Sabia inclusive como faziam para controlar quem precisasse das águas.
Conhecia, portanto, o caráter de cada um, suas artimanhas e que todos entravam em comum acordo na hora de dividir os botins. Sabiam que quem dominasse o rio controlaria todo o vale. Ai de quem ousasse usar de suas águas sem antes com eles fazer um acordo ou não pagar por isso.
Pois bem, aqueles que dominavam o rio estavam tão acostumados a controlar tudo e a todos que nem se importavam com a possibilidade de que com o passar do tempo e devido a falta de irrigação por causa da exploração que faziam das águas as matas e os campos de suas margens pudessem perecer. Somado a isso também havia a submissão quase total dos outros habitantes do vale às suas imposições. O que só piorava as coisas nos lugares por onde passava aquele rio.
O sapo havia percebido que tudo estava definhando e que o vale estava morrendo, inclusive o rio, mas era apenas um ser com pouco expressão para quem por enquanto não davam ouvidos. Exceto se um dia conseguisse mostrar a todos que não deviam ter medo de enfrentar os poderosos do rio nem a turbulência de suas águas.
E foi o que fez. Bem, mas essa é uma longa história, não uma fábula, por isso vamos voltar ao assunto do sapo com o escorpião.
Então, o sapo ao pressentir a aproximação do escorpião se preparou para o pior. Conhecia sua fama e sabia que precisaria tomar muito cuidado com ele. Já o encontrara antes pelos caminhos do vale. Razão pela qual se perguntava porquê esse sujeito o estava abordando?
A proposta que o escorpião lhe fez foi simples e direta:
⁃ voce pode me levar em suas costas? É que preciso atravessar o rio e sei que sapos sabem nadar, por isso vim até você.
A resposta do sapo também foi direta:
⁃ um escorpião pode me matar ou me ferir seriamente se me picar. Sem contar que já nos encontramos antes e não foi nada agradável para mim, porque deveria dar atenção a você agora?
O escorpião respondeu:
⁃ esquece o passado e pense logicamente. Se eu picar você no rio morremos os dois. Por outro lado, quando chegarmos a outra margem mesmo que eu quisesse não conseguiria porque você é liso e rápido o suficiente para em um único pulo se colocar em segurança. Depois, bem, depois seguiremos nossas vidas já como amigos porque no caminho teremos a oportunidade de nos conhecer melhor e darmos início a uma parceria que pode nos tornar insuperáveis.
O sapo ainda mais desconfiado disse então:
⁃ está certo, concordo em levar você comigo, desde que não em minhas costas. Eu posso puxa-lo até a outra margem em um galho.
E justificou:
⁃ sabe escorpião, essa é uma questão de segurança para nós dois. Como bem dissestes sou liso e se houver turbulência você pode escorregar e para não cair usar seu ferrão. Então, morreremos os dois.
Ao que o escorpião respondeu:
⁃ não, assim não dá, tem que ser do meu jeito porque no galho posso me sentir inseguro da mesma forma que em suas costas e nele não conseguirei usar meu ferrão para me segurar.
FIM
Moral da fábula:
Não há uma Moral nesta fábula. Há um Moro, mas este ao ver que seu plano não deu certo pulou do galho no meio da travessia.

Infelizmente é isso. Ninguém preocupado em salvar o País. Só em si próprio.
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