Ajustando o foco

“Conhecer melhor as pessoas não encanta nem decepciona; apenas esclarece.”

Essa frase reduz o caminho pela metade e é por isso que se fixa na mente com tanta facilidade. O encanto e a decepção são quase sempre frutos colhidos da mesma árvore: a projeção. Bastam cinco minutos de conversa fiada para que o imaginário se apresse em escrever um capítulo inteiro de novela, determinando, por conta própria, se aquela pessoa desconhecida veio para contribuir ou para prejudicar. Quando a realidade finalmente inspira o resto do roteiro, chamamos o resultado de encanto se agiu como herói, ou de decepção se acabou vestindo o figurino de vilão. O erro nunca esteve no outro, mas sim na ansiedade da autoria.

O esclarecimento destrói essa conveniente ficção. Esclarecer não é um ato de frieza calculada, é um ato da mais pura honestidade. Esse processo evidencia que a nossa percepção inicial é uma estrutura frágil, construída com impressões rápidas, simpatias gratuitas e comportamentos de ocasião. Quando a poeira desses primeiros impactos assenta, sobra o que a pessoa de fato é no seu estado bruto: um amálgama complexo e contraditório. Ela se revela ora generosa sem motivo aparente, ora egoísta sem qualquer maldade; em um dia, surpreendentemente coerente, no outro, sitiada por suas próprias limitações. A pessoa deixa de ser um personagem sob o nosso controle ficcional e passa a ser, simplesmente, um fato com o qual somos obrigados a lidar.

Dessa transição inevitável decorrem dois movimentos silenciosos. O primeiro remove a fantasia, o que sempre provoca um incômodo surdo, uma pontada que dói não pela perda de alguém, mas pela perda do conforto daquela história que já tínhamos esquematizada na cabeça. Logo em seguida, cai o julgamento. Como sabiam os antigos estoicos, a pessoa que nos parece hostil ou antipática no vaivém dos dias geralmente o é porque nos faltam os dados essenciais sobre a sua história. Ninguém é antipático no vácuo; há sempre um peso invisível sustentando a carcaça. Quando passamos a conhecer as causas e as circunstâncias que moldam as reações alheias, cessa a nossa pressa em condenar.

O que sobra desse desmoronamento é a clareza, e a clareza é uma ferramenta eminentemente utilitária. Ela nos permite decidir, com os pés fincados no real, onde vale a pena investir tempo, onde se faz urgente desenhar limites claros e onde o melhor caminho é apenas observar, sem intervir. Não se trata de caminhar para a indiferença ou para o isolamento apático. Conhecer alguém mexe conosco, e mexe profundamente, mas agora sem o peso desnecessário do drama. O real não infla o ego com vaidades temporárias nem esvazia a alma com amarguras; ele apenas calibra o foco. É o gesto exato de quem limpa as lentes dos óculos: a paisagem ao redor não se torna subitamente mais bonita ou mais feia, ela apenas se torna nítida. E a nitidez serve, fundamentalmente, para que se possa caminhar sem o risco constante de tropeçar nas próprias expectativas.

Essa mecânica, por óbvio, opera em via de mão dupla, pois a régua com que medimos o mundo exterior é a mesma que nos mede por dentro. Esclarecer o outro significa desarmar o arsenal daquilo que projetávamos nele, e, ao destrinchar o arcabouço que criamos daquela pessoa, acabamos por esbarrar nas nossas próprias carências e pretensões.

Uma situação recente aqui em Cuiabá me trouxe esse estalo com a força de uma constatação tardia. É o tipo de certeza que não nasce pronta, nem tolera a luz forte do dia; vai amadurecendo devagar, no silêncio pesado daquelas insônias alimentadas pelas dubiedades da natureza humana, quando a noite custa a passar e a mente se recusa a conciliar o sono.

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