Cuiabá já é, ao mesmo tempo, uma cidade cosmopolita e um polo de gestão e serviços; em suma, uma cidade multifuncional. Assim, consolida-se, dia após dia, como o grande centro administrativo, universitário e de saúde de Mato Grosso, além de carregar, com orgulho, a importância de ser a capital do Estado. É, por natureza, uma cidade cuja relevância vem sendo lastreada em suas três vocações originais: a política, a de comércio e serviços e, por fim, a cultural e turística. Esta última, aliás, a torna o principal portal de acesso ao Pantanal, à Chapada dos Guimarães e a outras riquezas naturais da nossa região, como Nobres.
É verdade que já teve oportunidade de desenvolvimento industrial no passado, na época áurea das usinas de cana-de-açúcar e do extrativismo. Naquele período, pelo menos dois projetos de ferrovias foram considerados para cá, mas não vingaram. Faltou para isso, entre outras coisas, uma representatividade política forte; por outro lado, sobraram interesses alheios aos da sua gente, vindos do Império e dos financistas da época. Consequentemente, o isolamento decorrente das grandes distâncias e as crises econômicas sucessivas ditaram o destino daquela pretensão.
O que o passado nos ensina, com clareza, é que o caminho mais acertado para o desenvolvimento sempre será priorizar as atividades para as quais uma cidade ou região é naturalmente vocacionada, principalmente quando na condição de capital como Cuiabá. Ou seja: consolidar as atividades sociais e econômicas existentes em sustentáculos de sua solução.
Trazer para cá os trilhos de uma ferrovia com a intenção de transformar a cidade e entorno com mais um indutor de desenvolvimento é possível. Contudo, essa alternativa não se sustenta sozinha como a única e fundamental chave para a continuidade da expansão socioeconômica. Além do excelente fator geográfico, a Baixada Cuiabana não possui o mesmo volume de produção de commodities agrícolas (como a soja e o milho) que os eixos do norte do estado possuem, e é exatamente esse fluxo de grãos em alta escala que atrai o apetite imediato do grande capital logístico. Não por acaso, o desenho da Ferrovia Estadual de Mato Grosso, operada pela concessionária Rumo S.A., priorizou o corredor logístico em direção ao Médio-Norte. Embora o ramal de Cuiabá esteja formalmente previsto no projeto, a racionalidade de mercado da operadora relegou o trecho a uma posição mais para o final do cronograma, evidenciando que o coração financeiro imediato dos trilhos bate no ritmo do agro.
Isso não significa, de forma alguma, que a região seja desprovida de relevância produtiva ou de riquezas naturais. O ponto crucial é que sua inserção nessa cadeia é complementar e estratégico. Enquanto o norte planta grãos, a Baixada Cuiabana se destaca pela produção massiva de calcário, mineral essencial para fabricar o cimento da construção civil e para corrigir o solo das próprias lavouras do estado, além de contar com uma forte cadeia pecuária que alimenta nossa agroindústria. Sua posição geográfica a transformou, naturalmente, no maior polo consumidor, logístico e distribuidor de Mato Grosso. Portanto, o verdadeiro trunfo de uma ferrovia na capital não seria o de meramente escoar matérias-primas brutas, mas sim o de funcionar como um poderoso vetor de integração: um canal bidirecional capaz de transportar insumos, combustíveis e bens de alta tecnologia para abastecer e dinamizar o comércio e as indústrias de transformação locais.
A realidade se impõe nos números: os dados do IBGE mostram que mais de 80% do PIB de Cuiabá provém justamente do comércio e dos serviços. Portanto, esse novo impulso logístico a ser trazido pelos trilhos não deve ser visto como uma substituição ou um confronto com a nossa matriz consolidada, mas sim como um suporte para ela. A industrialização que cabe na capital não é a de chaminés pesadas e grandes volumes brutos, mas sim aquela de alto valor agregado, que se apoia na nossa forte infraestrutura de serviços e comércio. O caminho inovador é expandir nossa vocação educacional e de saúde, transformando nossas faculdades de Agronomia, Engenharia, Medicina e outras tantas em grandes centros de pesquisa e desenvolvimento tecnológico de ponta. É nas nossas salas de aula e laboratórios que devem ser geradas as soluções para as potencialidades e desafios de Mato Grosso e da própria região Centro-Oeste, consolidando Cuiabá como o grande cérebro coordenador regional.
Até porque, se olharmos para a dinâmica social, os dados históricos do Novo CAGED nos mostram que o setor de serviços é o que mais rapidamente absorve e qualifica a mão de obra local por milhão investido. Focar nesse ecossistema de inovação, educação e saúde atrai e retém talentos, enquanto incentivar o modelo clássico de complexos industriais de base na Baixada Cuiabana poderia induzir a fluxos migratórios abruptos e desordenados, gerando um passivo estrutural severo para a cidade. O caminho eficiente será a atração de investimentos que demandem inteligência territorial, tecnologia e refino técnico, perfeitamente compatíveis com a nossa densidade acadêmica e urbana.
O Estado deve cumprir seu papel de incentivador das cidades que estão em franco desenvolvimento no Norte, no Sul, no Leste e no Oeste, de modo a absorverem as demandas industriais e demográficas para perto de seus eixos produtivos. Cuiabá, situada no centro, deve continuar a exercer o papel de centralidade inteligente, sem, necessariamente, depender da chegada do ramal ferroviário previsto nos planos da Rumo S.A., que, quando vier, será bem-vindo, posto que estimulante.
No entanto, há que se considerar, também, que uma industrialização desalinhada com a nossa realidade viária cobraria um ônus imediato sobre sua já saturada mobilidade urbana. A infraestrutura da capital ainda lida com gargalos complexos e com as difíceis transições e obras dos modais VLT e BRT. Um aumento desmedido no fluxo contínuo de veículos de carga asfixiaria artérias vitais e históricas do nosso trânsito, a exemplo das Avenidas Coronel Duarte (Prainha), Beira Rio e Historiador Rubens de Mendonça, acelerando a degradação do pavimento urbano. Assim, os trilhos devem servir para abastecer nossa centralidade logística de forma ordenada, tendo o cuidado de preservar nossa área metropolitana das intercorrências que o escoamento fabril pode causar.
O crescimento de Cuiabá precisa acontecer de forma inteligente e integrada, considerando fortemente as lições da história e os sinais claros do mercado logístico atual. O verdadeiro progresso da cidade e, por conseguinte, da Baixada Cuiabana está na modernização de sua vocação natural, ou seja, os serviços de ponta. Nesse cenário, os trilhos da ferrovia devem ser compreendidos como um vetor complementar de integração, e não como uma solução absoluta para o nosso futuro. É no tabuleiro da inteligência territorial que somos imbatíveis. Que os investimentos e as políticas públicas sigam a bússola da realidade factual, transformando Cuiabá, definitivamente, na grande referência de centralidade, inovação e bem-estar do coração do Brasil.
Notas de Fundamentação
Matriz Econômica: Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) – Produto Interno Bruto dos Municípios. Os relatórios anuais confirmam a predominância do setor terciário (serviços e administração pública) na composição do valor adicionado bruto de Cuiabá.
Dinâmica de Empregos: Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (CAGED) / Ministério do Trabalho e Emprego. Estatísticas mensais de saldo de contratações validam o setor de serviços como o motor gerador de postos de trabalho formais na capital.
Logística Ferroviária: Relatórios de Relações com Investidores (RI) da Rumo S.A. e deliberações da Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT). Os planos de traçado da Malha Norte e da ferrovia estadual de Mato Grosso evidenciam o foco nos corredores agrícolas de exportação, atestando a falta de prioridade comercial no ramal da capital devido aos custos de transposição topográfica.

Realidade
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a capital cuiaba é um exenpro no paiz com a bio diversidade eo desbravamento garinpeiro na época e nas preparação para se torna capital e tanbem a língua típica do macuxi como máxixe com peixe e xômano são coisas que marca istoria desa jigante capital cuiaba parabéns cuiaba
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Excelente estudo sobre a realidade atual da nossa capital, perante o desenvolvimento logístico do nosso estado. Nem se.pre aquilo que sonhamos é prioridade. Mas eu ainda quero ouvir os apitos do trem, chegando em Cuiabá.
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