
Não se trata de filosofia política ou ideológica — seja lá o que for isto que estamos vivenciando. Parece ser uma daquelas situações em que a realidade imita uma sombria ficção científica, onde o mal prevalece sobre o bem. Vivemos uma espécie de distopia moral, uma ocasião em que pertencer ao grupo de pessoas educadas, preparadas e formadas para a simplicidade, a honestidade e a competência faz com que nos sintamos estrangeiros em nosso próprio país. Nesses dias, a integridade parece mais um espantalho tentando afastar os corvos da plantação do que o insumo para uma boa colheita.
Meus pais, mentores e mestres me formaram para ser um competidor capaz de buscar o sucesso sem a necessidade de recorrer a meios ilegais ou imorais para alcançar uma posição estável. Ensinaram-me a buscar o mérito para, assim, ter condições de ajudar quem precisa; a saber estender a mão para dar, colaborar, receber ou, às vezes, apenas segurar firmemente a de quem a estende.
Minha vida, e a de muitas pessoas que conheço, confunde-se com esses propósitos. Às vezes penso que poderia ter me esforçado ainda mais para, talvez, ser útil de outras maneiras. No entanto, levei rasteiras e enfrentei a incompreensão justamente por ser assim: colaborador, disponível, por estender a mão e agir de forma simples; por ajudar alguém a se levantar ou mesmo por empurrar, sempre para a frente, no sentido de realizar e nunca para trás, evitando assim a frustração. O choque é inevitável quando esses valores colidem de frente com a realidade pragmática e muitas vezes cínica do mundo atual, onde a conveniência imediata soterra os princípios de longo prazo.
Espero ter transmitido esse legado aos meus filhos, embora saiba que o terreno onde eles pisarão é hostil. Saber ser bom é difícil, ao contrário da facilidade com que se pratica o mal. Fazer o mal é tão incompreensivelmente fácil e corriqueiro que, mesmo sem perceber as consequências — ou seriam inconsequências? — de seus atos, as pessoas não se contêm. A maldade praticada por ignorância, sem a percepção de que há outros a serem atingidos, não difere em resultado daquela cometida deliberadamente. De um jeito ou de outro, ela alcançará alguém com seu efeito atroz.
Exemplo claro desse cinismo é o ciúme da incompetência. Esse tipo de ressentimento, na maioria das vezes mais comum entre os homens, surge constantemente como uma reação violenta à competência e à honestidade alheias. Numa inversão de valores típica do nosso tempo, a retidão funciona como um repelente instantâneo, que renega, despreza e afasta quem possui esses predicados de forma concomitante, ao ponto de transformá-los em verdadeiros estigmas negativos.
Não é fácil ser solidário a uma pessoa que é, ao mesmo tempo, competente e honesta. Sobretudo em um mundo onde o perfil profissional frequentemente buscado por quem detém o poder é o exato oposto deste — onde o pacto da mediocridade é mais seguro para os poderosos do que o espelho desconfortável da excelência.
