DIZEM QUE A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

DIZEM QUE A PRIMEIRA IMPRESSÃO É A QUE FICA.

Quando finalmente nos conhecemos, ela diz ter tido uma péssima impressão a meu respeito. Na ocasião nós literalmente havíamos cercado as meninas em seu passeio de bicicleta bem na esquina das ruas Campo Grande com Barão de Melgaço, quase na frente da casa de Clarita.

Como era costume nos sábados pela manhã saí de casa na companhia de Henrique para dar umas voltas e nos dirigíamos à pracinha da Igreja Boa Morte para encontrar a turma e combinar o que fazer no resto do final de semana. Scalzile morava por ali e a frente se sua casa era nosso ponto de encontro.

No caminho, Henrique avistou um grupo de meninas passeando de bicicleta e entre elas viu Clarita. Havia se passado mais de um ano desde que havíamos falado sobre ela quando a mostrei da janela do apartamento onde eu morava na Praça Alencastro.

– Vamos lá, me apresenta, disse ele e assim fizemos. Passamos por elas bem devagar e Henrique, colocando a cabeça para fora do carro chamou por “Cleri”, com seu jeito peculiar de pronúncia.

As meninas pararam, mas não chegaram perto do carro, ficaram lá, à distância, olhando para nós até entender o que se passava e de quem se tratava. Só depois fomos apresentados.

– Cleri, este é Marcelo, amigo meu que quer te conhecer!

– Marcelo esta é Cleri!

Pairou então aquele lapso de tempo, silencioso, curioso e indeterminado que acontece nessas ocasiões.

– Olá, como vai? Disse eu.

– Prazer,… Clara Maria e complementou a apresentação com um sonoro tchau!

Foi assim, curto e rápido, ocasionado principalmente pela natural timidez e recato de Clarita, características que a acompanham até agora.

O rosto continuava angelical, mas a agora adolescente estava ainda mais radiante. Seus cabelos presos mantinham a franja esvoaçante, marca registrada desde criança como mostram as fotos de família. Clarita havia crescido e foi assim que ouvi sua voz pela primeira vez. Clarita, seu apelido sempre fez mais justiça a ela. A sonoridade do apelido traduz com correção sua personalidade.

Sua primeira impressão a meu respeito não foi nada boa. Afinal quem era aquele sujeito magricelo, cabeludo, barba por fazer, com espinhas no rosto e acima de tudo petulante, a ponto de cortar nosso caminho bem em frente ao portão de minha casa. O que Henrique está pensando quando vem me apresentar essa pessoa com a conversa mole de que ele queria me conhecer!

Foi assim rápido e marcante. Para mim em um sentido, para ela em outro. O que importa é que o tempo nunca apagou aquele momento de nossas memórias.

Na versão de Clarita, eu a olhei de cima embaixo com a expressão de quem concentra a visão buscando mais os detalhes fisiológicos que os aspectos sociais de uma apresentação. Quando nossos olhares se cruzaram ela já demonstrava sua irritação, e a palavra prazer veio logo acompanhada de um seco tchau, determinando o final de nossa curta conversa.

Ferrou Marcelo, ela não gostou nadinha de você! Disse Henrique com seu sorriso irônico e fomos nos encontrar com o pessoal na frente da casa do Scal.

Só voltei a encontrá-la novamente no ano seguinte quando ela passou a estudar na Escola Técnica Federal, onde eu já era aluno. Foi no intervalo das aulas que a vi em um grupo de novas alunas, todas vindas do Colégio Coração de Jesus. Clarita estava radiante, tinha os cabelos presos de um jeito que pareciam soltos, onde parecia que apenas uma pequena quantidade vinda das laterais passava por uma presilha atrás da cabeça.Vimo-nos quase que ao mesmo tempo e foi bastante intensa aquela nossa troca de olhares, deu para sentir o coração bater descompassado e os milésimos de segundos passarem lentamente, bem diferente da nosso primeiro encontro. Com certeza ela se lembrou de mim, restava saber se isto era bom ou ruim e só tinha um jeito de saber.

Decidi me aproximar enquanto elas conversavam distraídas, exceto Clarita que me acompanhava com os cantos dos olhos, passei ao lado dando um oi geral, mas olhando somente para ela, segui em frente e após me afastar alguns passos pude ouvir um longo “hummmm”, acompanhado do murmurinho que denunciou sua reação ao meu comprimento.

No final das aulas daquele dia fiquei aguardando por ela no portão de saída da escola. Daquela vez, sem desvios, nos olhamos por alguns segundos, o suficiente para ter certeza que sua segunda impressão a meu respeito era outra.

A primeira impressão não havia ficado…

Marcelo Augusto Portocarrero – 28/10/2013

CLARITA MENINA

CRONICA – I

CLARITA MENINA

Sempre ao final da tarde, caminhando lentamente, como que distraída, mas sempre atenta a tudo, ela descia a rua rumo à padaria que ficava do outro lado da Praça Alencastro. Nesta hora de fim de tarde, o pão quentinho estava saindo dos fornos das padarias para compor o lanche da tarde das famílias cuiabanas.

Às vezes Clarita vinha acompanhada de uma de suas irmãs, mas quase sempre estava só. É que também era hora do banho, assim ela, como a mais velha da prole, tinha a função de buscar o pão e o maço de cigarros do pai. Para muitas crianças essa tarefa parecia mesmo chata. Não para ela. Desde cedo Clarita gostava das saídas e toda oportunidade era encarada como um passeio, nunca como uma coisa enfadonha, bastava olhar seu jeito alegre de ser para logo perceber isto.

Eu a vi assim na primeira vez, quando retornamos para Cuiabá, passados 10 anos desde que havíamos nos mudado daqui. Estávamos acabando de nos instalar em um dos apartamentos do Edifício Maria Joaquina, bem de frente para a Praça Alencastro, esquina das ruas Candido Mariano e Pedro Celestino. Da janela dava para ver a praça em toda sua extensão e os prédios que ficavam no entorno. Lá estava a Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá, meio destruída ou meio acabada, ponto de vista que dependia de quem fosse a favor da construção da nova igreja ou da preservação da antiga edificação. Dava para ver também prédio do BEMAT (Banco do Estado de Mato Grosso), o Palácio Alencastro, sede do Governo Estadual e outras tantas edificações, entre elas a padaria.

Voltando a minha primeira visão de Clarita, lembro que na ocasião estava acompanhado de um amigo para quem perguntei se sabia quem era aquela menina que tanto chamava minha atenção. Recordo também que a pergunta foi acompanhada de uma expressão referente ao futuro, algo como que prevendo ou mesmo premeditando nossa vida em comum.

Henrique, em seu modo peculiar de pronunciar certar palavras, disse se tratar de sua amiga “Cleri”, era assim mesmo que ele pronunciava seu nome, e mostrou que da área de serviço do apartamento onde estávamos dava para ver onde ela morava. De lá avistamos um enorme quintal, encravado bem no meio da quadra formada pelas ruas Candido Mariano, Pedro Celestino, Campo Grande e Barão do Melgaço. Por esta última se chegava ao portão daquele belo espaço que tinha a casa em sua área central. Um verdadeiro parque de diversões, que muito tempo depois nossos filhos também puderam desfrutar, mas este é outro assunto.

Silhueta esguia, quase sempre de shortinho xadrez a pequena Clara Maria ou Clarita, tinha os cabelos castanhos ondulados e compridos presos em rabo de cavalo, deixando uma pequena franja solta ao vento. A pele clara, como que confirmando seu próprio nome, já emprestava a seu rosto a beleza suave e ao mesmo tempo irradiante. Seus olhos ágeis buscavam captar ao mesmo tempo tudo que se passava ao redor não lhe permitindo se concentrar mais que alguns décimos de segundo em cada imagem. A ela não interessavam os detalhes, mas sim o todo, o conjunto. Por isso não me percebia na paisagem. Naquele tempo eu era apenas uma pessoa a passar, ninguém a merecer sua atenção de menina, o que permitiu vê-la como descrevo agora.

Marcelo Augusto Portocarrero- 25/10/2013

A PERMISSIVIDADE ESTÁ NOS LEVANDO AO DESRESPEITO

A PERMISSIVIDADE ESTÁ NOS LEVANDO AO DESRESPEITO

Todas as vezes que somos tolerantes com situações as quais sabemos estar erradas somos permissivos.

É o que acontece quando observamos nosso comportamento em relação ao transito. Quanto a este assunto somos pródigos em permissividade.

A cada esquina nos a praticamos e vemos ser praticada abertamente. Seja na calçada ou na rua somos permissivos a todo instante. A total falta de respeito a que estamos sujeitos assusta e, consequentemente, mata. Acredite, a falta de respeito no transito é considerada por muitos um equívoco permissível.

Triste verdade até para os que se dizem bem instruídos. Sejamos nós de qualquer credo, raça ou situação social, ninguém respeita nada quando se trata de transito. Neste quesito todos queremos mais é ganhar tempo, como se agindo assim levássemos vantagem.

Sinceramente, é melhor reconhecer que não respeitamos nada, ante assumir que não aprendemos tudo. O resultado disto é o estado de permissividade com que nos habituamos conviver.

A começar como pedestres. Como pedestres, invariavelmente atravessamos as ruas em qualquer lugar. Para nós as faixas exclusivas são um estorvo que se prestam mais à perda de tempo.

O que dizer de nosso comportamento como usuários de transporte coletivo. Aí então, somos mais que pródigos no desrespeito a tudo e a todos. Para que esperar o ônibus no ponto de parada? Eles não costumam parar lá mesmo. Para as empresas concessionárias a parada obrigatória é uma mera formalidade, já que o sinal de transito fica bem ali na esquina e é lá que eles eventualmente param. Dai, aproveitarmos a oportunidade porque os motoristas abrem as portas tanto para quem quiser subir, como para quem quiser descer. Esta situação está tão imiscuída em nossas mentes que chegamos a reclamar quando não acontece. Não é um primor de permissividade?

Quando nos dispomos ir ao ponto de ônibus o agravante é que não vamos com a intenção de respeitar as prioridades. Nestas ocasiões vale a Lei de Gerson, aplicada pelos que primeiro correm para chegar à porta do coletivo. O pior é que o motorista vai abrir a porta para estes cidadãos exemplares de qualquer jeito. Danem-se os que ficaram no “lugar certo” do ponto, Danem-se os mais velhos, danem-se aqueles com problema de locomoção, as grávidas, mães e pais acompanhados de seus filhos menores. Danem-se todos. Que esperem o próximo ônibus!  Olha a permissividade ai, ainda mais escancarada.

Motoqueiros e ciclistas. Nestas condições, como temos certeza da impunidade seguimos rua a fora na contramão, em cima da calçada e sem dar muita importância aos sinais de transito. Aos motoqueiros e ciclista tudo é permitido,… ou será permissível? Sinal de transito é para otários. Quanto à calçada, esse espaço é nosso terreno desde sempre, os pedestres que se danem ou saiam da frente. Pra que faixas exclusivas se nós só a utilizamos quando não estamos com pressa ou passeando nos feriados e finais de semana.

Como as leis de transito consideram os veículos com quatro ou mais rodas os responsáveis pelas vidas dos mais frágeis (nestes casos os pedestres, ciclistas, motoqueiros e passageiros), cabe a eles a obrigação de dirigir para si e para todos. Pois é justamente ai que mora o maior perigo.

Alguém discorda que ao pedestre, ao ciclista e ao motoqueiro tudo e permissível?

Motoristas. Sejam condutores de veículos pequenos ou grandes, particulares ou públicos, quando dirigindo não respeitam nada que não se mostre perigoso aos seus raciocínios permissivistas.

Vejamos um caso emblemático e corriqueiro.

O sinal de transito. Quando nos deparamos como o sinal amarelo ao invés de reduzirmos a velocidade para parar antes da faixa de pedestre, é quase certo que vamos acelerar para passar antes que fique vermelho. A sensação é a de que estamos em uma corrida onde o cruzamento é a linha de chagada e precisamos atravessá-la antes que o sinal feche para ganhar o grande prêmio. Nesta ocasião nossa inversão de valores morais nos faz acreditar que ao passarmos por último seremos os primeiros, os vencedores da corrida contra a hipotética perda de tempo.

Chega a ter torcida dentro do carro, com os passageiros gritando vai, vai, vai que dá… e assim vamos. Incrível e tragicômicamente quase sempre optamos por furar o sinal. Afinal, seria uma perda de tempo inconcebível aguardar o momento correto de ir em frente. Egoisticamente alguns segundos são mais importantes para nós que nossas próprias vidas, que dizer a dos outros.

É triste constatar, mas a permissividade generalizada coloca em risco tudo e todos.

Esta situação é resultado da contaminação pela permissividade existente nos poderes executivo, legislativo e judiciário (em letras minúsculas mesmo, pois assim o são). O pior é que somos estimulados por eles à permissividade quando coíbem a aplicação das leis em benefício de seus mandatos. Basta lembrar o que aconteceu nas manifestações públicas recentes e que continua a  acontecer em qualquer dessas ocasiões que permeiam pelo país afora. Ao manifestante tudo foi e é permitido, afinal trata-se de manifestação espontânea de desagrado com o estado de permissividade reinante. Pelo visto, uma permissividade leva a outra.

Vejamos a situação em que a educação do Brasil se encontra. O conhecimento e a cultura parecem estar sendo transmitidos por uma espécie de difusão por osmose, como se para tanto bastasse frequentar as salas de aulas. Aos alunos tudo é permitido. Estes não podem ser coibidos na pratica de sua criatividade, seja ela construtiva ou destrutiva e pior, não podem repetir o ano letivo. Nossos jovens estão sendo empurrados para frente atendendo a necessidade de melhorar as estatísticas do setor.

Onde foi parar o respeito aos professores e a disciplina? Estes temas não são mais prioridade. Sem respeito e disciplina nada resta senão a falta de educação. Situação esta constatada na qualidade dos homens e mulheres que estamos formando. Há exceções, quando deveriam ser a regra.

O que dizer da saúde, onde permitimos que os parcos recursos sejam destinados a investimentos que priorizam a construções de hospitais megalômanos, preferencialmente implantados nos grandes centros urbanos em detrimento das pequenas unidades hospitalares que, se construídas mais próximas das populações localizadas no interior dos estados resolveriam a maior parte das carências deste setor e, por incrível que possa parecer, trariam benefícios até para os políticos em troca de favores financeiros e eleitorais.

De maneira geral, é isto que acontece com os investimentos públicos quando da contratação de obras públicas voltadas ás instalações e prédios próprios.

A cada dia vemos serem construído suntuosos castelos onde reinam suas excelências para nada ou muito pouco devolverem em troca. Aos milhões gastos na exuberância das edificações públicas sobram centavos destinados à saúde e educação.

No país onde tudo é permissível, o que mais podemos esperar. Respeito?

Marcelo Augusto Portocarrero

Em 27-09-2015.

 

QUANDO OLHO PARA TRÁS

QUANDO OLHO PARA TRÁS

Quando olho para trás,
Percebo a verdade do tempo, que passou gentil, até bondoso em seus instantes.

Quando olho para trás,
Vejo que Ele escreveu este romance com ternura para a cumplicidade dos amantes.

Quando olho para trás,
Sinto que ficaram marcas, mas somente as boas, aquelas que nasceram e vivem em nossos corações.

Quando olho para trás,
Sei que testemunhas existem, basta ver a ternura dos filhos, frutos nascidos no pomar de nossa paixão.

Quando olho para trás,
Recordo a história de duas almas gêmeas, que nasceram distantes e qual amálgama tornaram-se uma só, fundidas pelo amor.

Quando olho para trás,
Volta em minha memória o esforço conjunto no percurso da estrada para vencermos o vazio do futuro desconhecido.

Quando olho para trás,
Refaço nosso caminho percorrido quando um iluminava e o outro guiava os passos seguidos juntos até agora.

Quando olho para trás,
Não há como não pensar no que vem pela frente tendo a certeza de que tudo será bom, vida afora, sempre com você.

Marcelo Augusto Portocarrero 17/02/2016 (Para Clarita, com todo o meu amor)

EU TE AGRADEÇO SENHOR

Eu te agradeço Senhor

Eu te agradeço Senhor,

Pelas Almas que nos destes e pelos corpos com que as vestes.

Eu te agradeço Senhor,

Por nos mostrar que para ter fé é preciso antes acreditar.

Eu te agradeço Senhor,

Por nos fazer entender que o amor que recebermos é fruto da nossa capacidade de amar.

Eu te agradeço Senhor

Por iluminares nosso caminho e por guiares nossos passos ao percorrê-lo.

Eu te agradeço Senhor

Por termos aonde ir e por estarmos onde estamos.

Eu te agradeço Senhor,

Por chegarmos aonde chegamos e por podermos ir onde quisermos.

Eu te agradeço Senhor,

Por dar razão a nossas vidas e nos fazer entender que sem Ti nada tem sentido.

Eu te agradeço Senhor,

Por tuas bênçãos que protegem nossos corpos e acalentam nossas almas.

Eu te agradeço Senhor, enfim,

Por sermos quem somos e termos que temos.

ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

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ACABOU-SE O QUE ERA DOCE

Nas décadas de 60 e 70 o centro de Cuiabá era uma mistura de residências, comércio e serviços, além, naturalmente, dos prédios públicos municipais e estaduais, razão de ser da capital, onde tudo acontecia em torno da Igreja Matriz Catedral do Bom Jesus e demais igrejas não menos importantes. Herança do modelo de povoado que cresceu com sua origem em um garimpo e dos costumes europeus trazido para estas bandas pelos colonizadores portugueses através das “Entradas e Bandeiras”.

Diz a história, vieram bater aqui a cata de índios para escravizar e se depararam como o ouro aflorando nos pedregulhos do Rio Coxipó e Córrego da Prainha. O mesmo enredo conta que ao indagar por locais onde houvesse mais daquelas pedras amareladas foram então primeiro apresentados aos favos de mel do serrado para, só depois, ao ouro do que seriam as lavras do Sutil. Essa historia virou até enredo da Escola de Samba Mocidade Independente Universitária, dos bons tempos do Carnaval de Rua em Cuiabá.

O paralelepípedo ainda predominava no calçamento das ruas do centro, exceto pelo trecho da Avenida Getúlio Vargas na altura do Colégio Estadual. Durante o dia as calçadas eram somente dos pedestres, sem o atrapalho de barraquinhas e vendedores ambulantes. Naquela época, apenas vendedores de peixe, frutas e verduras, em seus carrinhos de madeira ou mesmo cavalo e carroças, perambulavam pelas ruas atendendo clientela certa e encomendas. Quando em vez passava alguém vendendo pixé, pirulitos, picolés e quebra-queixo.

Já o leite, este era preferencialmente buscado nas casas dos produtores. Exemplo do saudoso Júlio Müller, no casarão da família, na esquina da Rua Campo Grande com a Comandante Costa. Quem chegasse por lá para buscar leite era premiado, dependendo da época, com bocaiúvas, jabuticabas ou nacos de rapadura das mãos dele mesmo, do Seu Júlio.

O que mais importava era se divertir com a gurizada. Aproveitávamos qualquer oportunidade para passear de bicicleta, fazendo percursos pelas praças e ruas pouco movimentadas, principalmente nos fins de semana, desfrutando da temperatura amena das manhãs.

Outra diversão era esperar pela chuva do fim de tarde e correr para as Praças da República. Ipiranga e Alencastro para refrescar o calor do corpo. Era uma algazarra só, jogávamos bola, queimada, bolita (bola de gude para os paus rodados), pião e bafo. Brincamos de capa-espada, car-men (assim apelidada a brincadeira de bandido x mocinho) pegador e esconde-esconde, estas preferencialmente em volta do coreto da Alencastro.

Antes do fim da tarde de domingo não dava para perder o Cine Teatro Cuiabá, mesmo que o filme fosse repetido. A intenção maior era mesmo aproveitar a chance de trocar figurinhas e gibis com a gurizada que vinha assistir a matinê. Finalizando os fins de semana tínhamos os passeios pelas calçadas da Praça Alencastro, logo após a última missa do domingo.

Assim eram os meninos das ruas do Meio, de Cima e de Baixo. Só quem estava lá pôde aproveitar. Quem não foi coroinha não sabe da missa metade.

Pois é, acabou-se o que era doce.

Marcelo Augusto Portocarrero – 17/02/2016

UM BOM EXEMPLO A SER SEGUIDO.

UM BOM EXEMPLO A SER SEGUIDO
As obras de revitalização de parte do centro de Manaus, capital do Estado do Amazonas, começaram  em novembro de 2015. Antes de seu início a Prefeitura  se reuniu com os empresários e moradores da região sob influencia das obras e traçou estratégias para a execução dos serviços.
O objetivo é recuperar o pavimento original das vias através da remoção do pavimento asfáltico até o nível dos paralelepípedos originais, bem como sua drenagem.
De acordo com o prefeito a Avenida Eduardo Ribeiro ganhará de volta seus aspectos originais, do século XIX. “O Centro é a raiz do turismo, é a raiz da cultura e a raiz da nossa história. Manaus estava se desapegando do seu Centro Histórico e de suas raízes, por isso estamos trabalhando em sua revitalização. Essa é uma obra de grande significado para nós. É importante para quem preza todas as raízes que estão naquele Centro”.
Aprovado pelo IPHAN o projeto apresenta soluções alternativas para o transito da região, o que irá reduzir eventuais impactos junto aos moradores e frequentadores da área central da capital manauara. Entre as soluções propostas esta a implantação de tapumes para delimitar o perímetro das obras de sarjeta a sarjeta, de modo a não comprometer as calçadas.
Assim, a recuperação das calçadas será feita após o fechamento das atividades comerciais, deixando os trechos de calçada que estiverem com obra em andamento para ser atacado durante o dia protegidos por pranchões de madeira, de modo a deixar o  fluxo de pedestres liberado.
Alguns detalhes do projeto obtidos no site da prefeitura Municipal de Manaus:

  • O projeto de requalificação da Avenida Eduardo Ribeiro envolve sondagens e prospecções em toda sua extensão para o resgate das pedras de lioz e os paralelepípedos que revestiam a via de rolamento.
  • As prospecções nas calçadas serão em até dez centímetros de profundidade, resgatando, também, o meio-fio de pedra de lioz.
  • Onde não for encontrado o pavimento original, um trabalho com bloco de concreto pigmentado será executado.
  • Aproximadamente 8% das calçadas da avenida possui revestimento aparente de pedra de lioz. Por essa estimativa, o projeto reutiliza essas pedras em uma nova paginação, tipo mosaico, onde se assentam pedras inteiras em posições diferentes, ao longo de toda a avenida Eduardo Ribeiro.
  • As superfícies da calçada que não apresentarem revestimento em pedra lioz serão complementadas por pedra de quartzito, com vocação para ambientação à  moda antiga, sem uso de grafismo ou cunho moderno.
  • Com relação aos trilhos do antigo bonde, será feito um grande esforço para que sejam resgatados e colocados de forma aparente na superfície da caixa viária, sem interferir na mobilidade.
  • Serão implantados canteiros com árvores em ambos os lados na faixa da calçada com gradil de proteção em ferro.
  • Próximo às esquinas, serão adaptadas rampas e faixas para acessibilidade dos pedestres.
  • Quanto ao mobiliário, os balizadores serão de formato esférico em concreto aparente e, colocados nas esquinas de todos os cruzamentos.
  • A iluminação dessas esquinas será feita com a implantação de postes do tipo Cajado de São José nas calçadas, a 50 centímetros do meio-fio.
  • As calçadas também receberão em toda a sua extensão iluminação decorativa.

Como diz o título, é um bom exemplo a ser seguido, pois Cuiabá precisa recuperar suas características, a começar por trazer de volta o pavimento em paralelepípedo que entre outros benefícios gera segurança, na medida em que induz os veículos a trafegarem em velocidade adequada ao transito, além de contribuir decididamente para minimizar os efeitos de aumento da temperatura que o asfaltamento das ruas e avenidas da cidade trouxe desde que este procedimento passou a ser utilizado.

Marcelo Augusto Portocarrero – 30/nov/2015

A ORDEM DOS FATORES

Na aritmética a ordem dos fatores não altera o produto.

Em que pesem as discussões filosóficas sobre o axioma, a verdade é que em políticas públicas ele nem sempre é aplicado.

A essa “necessária ordem dos fatores” o governo pouco tem dado importância nos últimos anos, daí vivermos hoje o resultado dos erros insistentemente repetidos em relação a essa questão.

É fácil perceber que erraram ao promover incentivos ao consumo sem que estivéssemos preparados para produzir o que almejavam fosse consumido.

Não havendo preocupação concretas com a ordem dos fatores, de nada adiantou tentar exercitar o axioma. Quem disse que a ordem dos fatores não altera o produto certamente não estava falando em políticas públicas. No nosso caso tupiniquim foi como tentar fazer com que a flecha lançasse o arco.

O incentivo ao consumo interno deveria ser precedido ou ao menos acontecer concomitantemente ao incentivo à produção interna, a investimentos em infraestrutura e em programas de processamento das nossas commodities antes de exportá-las in natura, posto que tivemos a oportunidade e pouco fizemos neste sentido. Tivéssemos agido assim, teríamos agregado valor aos nosso produtos e gerado emprego nos processos produtivos e industriais, reduzindo proporcionalmente o risco de desabastecimento, desemprego, inflação e etc. Isto tudo, sem falar nas possibilidade de gerar divisas para investimentos nos setores prioritários, mas sempre deficitários da saúde, educação e segurança.

As cadeias produtivas deveriam ter sido incentivadas através de parcerias internas e externas, onde as nossas carências seriam minimizadas através de importação de tecnologias, equipamentos e conhecimentos de países desenvolvidos e em desenvolvimento como nós, mas infelizmente não foi isso o que aconteceu.

Com uma economia momentaneamente superavitária devido ao “boom” das commodities graças ao aumento do consumo em economias  emergentes (caso da China) o mundo se mostrava pronto para nós.

Parecia até que o país estava definitivamente resolvido, tanto que o governo  sentindo-se como uma potência econômica em ascensão, iniciou junto a economias tão ou mais deficitárias que a nossa uma política externa paternalista  ao mesmo tempo em que nos afastava das fortes economias que tradicionalmente tínhamos como parceiras.

Resumindo, entre outras coisas o que vimos foi a deterioração da indústria nacional devido a falta de políticas públicas voltadas a capacitá-la para atender a demanda interna gerada. Só assim teríamos feito frente à invasão de produtos importados para saciar o exacerbado consumo interno daqueles tempos.

Marcelo Augusto Portocarrero – Engenheiro Civil (UFMT)

DEU NO QUE DEU – O Jardim virou Praça.

pcaalencastro-0[1]Praça Alencastro – vista da Prefeitura

Agora, toda vez que passo pela Praça Alencastro me lembro do livro Tempos Idos Tempos Vividos de autoria de meu saudoso mestre e sogro, Coronel Octayde Jorge da Silva.

Relendo suas crônicas, encontrei várias referências à Praça Alencastro, rememorei que aquela praça fora antigamente um majestoso jardim antes das transformações por que passou, tanto que era conhecida pelos mais antigos como Jardim Alencastro.

Na verdade, aquele espaço começou a ser desfigurado anos atrás o que aos poucos o transformou em praça. Desde então, o “Jardim Alencastro” nunca mais foi o mesmo.

Eu o conheci no início da década de sessenta, antes de ser reformado para receber o chafariz das águas iluminadas. Daquela vez acabou por perder seu bucólico encanto, juntamente com o coreto, transladado que foi para a Praça Ipiranga.

Para completar, boa parte de suas árvores e plantas foram substituídas por outras, sem o mesmo viço e formosura, como diria o Coronel Octayde. Entretanto, creio que o que mais faz falta aos cuiabanos (escrevo isto porque a mim faz) são os bancos. Como sinto falta daqueles bancos, tão harmoniosamente distribuídos em seu entorno e nos caminhos que permeavam por seu interior. Alguns tinham até personalidade própria, vez que recebiam gravuras com propagandas e, em certos casos, os nomes das famílias doadoras. Com formato anatômico e aconchegante estavam quase que permanentemente ocupados por grupos de pessoas que neles se sentavam para passar as horas em bate-papos sem fim, Isto sem falar dos casais de namorados se aninhando em cochichos amorosos.

Eram assentos democráticos onde se tratava de tudo, mas principalmente de política, já que fazia vezes de jardim do Palácio Alencastro, sede do governo estadual e que lhe emprestava o nome. Aqueles bancos também emprestavam à praça ares de antessala das inesquecíveis calçadas cuiabanas, tal como era o costume nos fins de tarde da Cuiabá de antigamente, a Cuiabá dos tempos da antiga Praça Alencastro.

Isso sem falar das deliciosas horas de alegria e confraternização de todos que a frequentavam nas noites de domingo logo após a missa na Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá, quando íamos passear em suas inesquecíveis calçadas antes de ir para casa ou tomar outro rumo nas deliciosas noites cuiabanas daqueles tempos.

Assim como seus bancos as cadeiras nas calçadas tomaram sumiço, neste caso devido à insegurança dos tempos modernos. Vai colocar cadeira pra sentar na calçada hoje em dia pra ver o que acontece!

Pois é! Deu no que deu. Estas e outras “cousas”, como também diria o Coronel, de há muito tempo passaram a ser só saudades.

Marcelo Augusto Portocarrero – nov/2015

É POESIA

É POESIA

Falar de amor é poesia,
Escrever sobre paixão também é.
É dar vazão a nostalgia,
Em Deus crer, Nele ter fé.

Sonhei caminhar sobre as nuvens,
Parecia coisa sem explicação.
Sonhar é como escrever poesia,
Basta lembrar do amor, ter emoção.

Pra escrever um belo verso é só ouvir o coração.
É ter saudade mesmo estando junto,
Sentir amor, viver paixão.

Quem a isto dá alento sente na alma certa agonia.
Se souber traduzir este sentimento,
Logo transforma o verso em poesia.

Marcelo Augusto Portocarrero em 05/11/2015