Até quando permaneceremos inertes?

Imaginem este cenário anos atrás.

Pessoas caminhando pelas calçadas, indivíduos indo e vindo do trabalho. De repente um grupo de jovens começam uma manifestação, jogam pedras nas vitrines, colocam fogo em sacos de lixo, correm de um lado para o outro, tudo para cobrir uma ação mais contundente. Logo tiros são trocados com os guardas da guarita colocada na frente a uma agencia bancária, clientes e funcionários são rendidos. O banco é saqueado, guardas feridos, os “assaltantes” também. Gritaria, correria,  perigo para todos e fuga.

O DOPS entra em ação.  É a repressão!

Naquela época, nos anos sessenta, setenta, e parte dos anos oitenta do século passado tínhamos um governo militar, uma ditadura, um poder autoritário e reativo quanto aos que lhe faziam oposição.

Para impedir atos que qualificavam de ação terrorista vigiavam as pessoas suspeitas, os que lutavam contra a situação política imposta. Em termos de tecnologia pouca coisa se lhes valia para as ações de antecipação e prevenção. As escutas telefônicas eram pouca eficientes. Para isto, dizem, usavam de “procedimentos não convencionais” para arrancar dos prisioneiros as informações que pretendiam. Uma barbaridade não é mesmo?

Agora transfira o cenário para hoje, mesma rua, mesmo cidade. Como seria?

Sim, porque comenta-se que naquele tempo tínhamos um governo, ditatorial e repressor para com as manifestações a ele contrárias.

E agora, que temos um governo “diferente”, democrático, (ou será republicano?) e que fará para atuar na gestão de atos dessa natureza? O que fazer com os que protestam usando métodos violentos , mas que hoje em dia não são classificados de terroristas, pois são apenas vândalos, Black Blocks, MST, MTST, Partidos Políticos e pasmem, pró-governo? De dentro do próprio palácio do governo ouvem-se palavras de ordem declarando abertamente que as residencias, as propriedades e as pessoas contrarias ao “Status Quo” serão atacadas, agredidas.

Evoluímos como civilização, mas não por que o mundo se tornou mais pacífico e sim porque ficamos mais compreensivos em relação à condição humana. Essas sandices que se afirmaram nos países ditos desenvolvidos estão todas desmoronando sozinhas. Basta assistir aos noticiários, basta lembrarmos que a principal meta do brasileiro é morar em um prédio de apartamentos ou em um condomínio, onde ele imagina terá mais segurança para sua família.

Somos diferentes em tudo e de todos. Não somos uma manada no curral obediente e condicionada a aceitar pacificamente seu cruel e inevitável destino. Somos beligerantes por natureza, basta ler nossa história. A beligerância esta na Bíblia, no Alcorão e em qualquer outros livro sagrado. Somos conquistadores e conquistados desde que o mundo é mundo.

Temos que controlar ou seremos controlados.  Infelizmente ainda não somos capazes de conviver no meio termo desse vaticínio, pois a ganância nos impede, e nossos políticos estão agindo assim a todo instante.

Graças às escutas telefônicas, às facilidades fornecidas pelos aparelhos celulares, às interceptações na internet, ao trabalho científico das polícias a situação ainda não chegou a este nível por aqui. Vejam o  possível e terrível cenário que abaixo indignado descrevo: – Um dia normal de trabalho, de repente explode uma bomba caseira em frente a uma parada de ônibus lotada. Uma bomba feita para agredir, contendo chumbo, pregos e cacos de vidro pra aumentar sua capacidade de ferir e, quem sabe, até matar. Gritaria, correria, sangue pra todo lado.. Baixada a fumaça, as pessoas vão se aproximando, acudindo os feridos, pedindo ajuda e ajudando. De repente, outra explosão próxima e mais vítimas. Agora, alcançando aqueles que correram para socorrer os que foram atingidos pelos estilhaços da primeira bomba”.

Se esta desgraça vem acontecendo mundo afora não podemos desconsiderar que podem estar tramando fazer isto aqui! Devemos deixar acontecer uma desgraça como esta, com feridos e até mortos? É este o preço que temos de pagar por aqueles que se acha no direito de protestar com violência?

E se nos próximos atos de protestos vierem pessoas com escrúpulos ainda mais beligerantes e dispostas a carregar consigo armas letais? Exagero? – Não mais…

Qual deve ser a postura da policia em situações como estas? Agir antes ou reagir depois do fato consumado?

Com a facilidade com que os “Habeas Corpus” são distribuídos a esses indivíduos a título de ampla direito de justiça, corremos riscos sim. Ele é real e possível!

Será que os defensores dos que se acham no direito de protestar desta forma consideram certo corrermos os riscos apontados acima?

Quem responde a estas perguntas?

A quem devemos responsabilizar se os atos acima citados se tornaremos fatos?

Certamente há de aparecer um ou outro sociopata/oportunista para dizer que protestos desta natureza e com estas consequências são legítimos e acreditem, poderão até  tentar justificar alegando que não só podem como precisam acontecer para que a sociedade seja sacudida e tome posturas mais democráticas, senão republicanas.

Vamos permaneceremos calados esperando acontecer – NÃO EU!

POR ISSO FAÇO AQUI O MEU PROTESTO!

Marcelo Augusto Portocarrero

Carta a meus irmãos.

Sei que somos todos irmãos, filhos e pais. Sei que fomos criados, amados e educados da mesma forma. Sei também que amamos nossos pais com a mesma intensidade e respeito. Entretanto, o fato de eu ter vivido próximo a eles minha vida inteira e só ter me afastado nesses últimos anos me deu uma visão um pouco diferente da falta que eles fazem. Daí escrever este texto para vocês.Lá de longe, frequentemente ia dormir sem saber se Deus irá chamar um deles ou ambos sem que eu pudesse me despedir pessoalmente. Sem que eu pudesse ouvir suas vozes, sentir a textura de suas mãos, de seus lábios me dando um último beijo.

Daí eu penso na vida que tivemos juntos, nos prazeres que nos foram dados quando foi possível, da forma de amar que cada um tem ou consegue transmitir. Vi e vivi situações que vocês não viram nem viveram na companhia deles. Sei também que vocês tiveram seus momentos com eles os quais nenhum de nós conhece. Bons momentos, momentos carinhosos, momentos difíceis ou mesmo tensos.

Nossos pais, como todos sabemos, nunca conseguiram transmitir seu amor por nós a não ser do modo que eles o receberam. Papai não conviveu com o seu pai, exceto em uma pequena parte de sua infância. Creio que quando ele tinha oito anos vovô Martinho morreu, e mesmo antes disso, pelo que nos contam os que o conheceram, nosso avô sempre foi uma pessoa capaz de sacrificar o pouco tempo que poderia dar à família para cumprir sua missão profissional. Assim vejo nosso pai. Um homem que, por força do ambiente em que foi criado e viveu nunca soube demonstrar amor e carinho como uma pessoa criada em um ambiente familiar diferente, onde tivesse recebido um tipo de tratamento diferente desse que nos transmitiu e ainda transmite. Não se iludam, pois queiramos ou não, herdamos dele muito de nosso comportamento com nossas próprias famílias. A genética é assim, implacável, em todos os sentidos. Ele nos deu muito, nunca nos faltou em nada do que estivesse ao seu alcance. Eu, particularmente, terei sempre em minha memória sua sinceridade. Papai nunca nos iludiu nem deu falsas esperanças. Pelo contrário, vivemos a vida que ele pôde nos dar.

Tenho guardada comigo, uma carta escrita por ele quando não passei em meu primeiro vestibular, onde sou reconfortado e animado a não desistir nunca. Nela ela demonstrou seu amor e carinho de forma intensa e reconfortante. Lembro que chorei muito com aquelas palavras. Certamente elas me conduziram até aqui.

O que falar de mamãe. Como traduzir a alma mais piedosa com que nós convivemos. Como traduzir sua abnegação, seu sacrifício, sua religiosidade. Vindo tudo isso do pouco que ela recebeu de sua avó materna. Todos sabemos que ela é esse ser humano admirável graças sua alma bondosa e ao pouco que pode receber de sua família de origem e creiam, do que papai lhe proporcionou. Assim como papai, ela também foi duramente tratada pela vida. Como não teve mãe, foi solitária desde a infância, nunca lhe foi dada qualquer oportunidade, exceto aquelas a que ela mesma, com seu pouco estudo conseguiu buscar. Casar com papai aos 16 anos, deve ter sido antes de tudo alcançar a liberdade de viver. Amar nosso pai deve ter sido um duro aprendizado em todos os sentidos.

A vida deles foi muito difícil desde o início e mamãe, graças a Deus, foi capaz de nos dar tudo de que necessitávamos. Graças a ela nada, absolutamente nada nos faltou. Sua persistência e incomparável fé nos possibilitaram sobreviver a todo tipo de dificuldade a que fomos submetidos. Sejam todas as doenças infantis e juvenis a que fomos sujeitos, aos tombos, acidentes, enfim a todo risco a que fomos expostos. Sobrevivemos e aqui estamos devido a sua luta, força e, volto a ressaltar, sua fé inabalável.

Não me lembro de algo que tenhamos pedido a eles que não nos tenha sido dado. Seja conselho, bem material ou dinheiro. Mesmo sacrificando o pouco que sempre tiveram de alguma forma eles se esforçaram e invariavelmente nos atenderam.

Mesmo as dificuldades que vimos no relacionamento entre eles devem ser encaradas como fruto de suas próprias personalidades. Alguém de nós não as tem em casa? Nossos relacionamentos com as mães de nossos filhos são diferentes do deles no que?  Eles foram capazes de sobreviver às crises muito maiores que as nossas e continuam sendo o que sempre foram, juntos. O gênio intransigente de papai só é diferente do nosso em grau, mas não em outros sentidos. Basta fazermos uma pequena introspecção.

Olhamos para nossos próprios umbigos o tempo inteiro. Acho até que em alguns momentos chegamos a considerar que nada devemos a eles além da visita semanal, das compras, de um aparelho, uma carona ao médico, passar uma noite no hospital quando eles ficam doentes. Um mínimo do nosso tempo em troca da vida que recebemos.

Hoje agimos como eles, quando pensamos em dar tudo de nós pela felicidade de nossos filhos. Não é verdade?

Será que devemos esperar de nossos filhos o mesmo que damos a nossos pais quando estivermos velhos?

Não meus irmãos, eu não estou falando nada do que nós não saibamos.

A saúde deles vem se debilitando aos poucos, como é da natureza humana, e devemos dar a eles, neste tempo que lhes resta, o que de melhor pudermos e não o pouco necessitam.

Eles precisaram morar em um ambiente menos hostil a pessoas com a idade que têm. Precisaram de companhia 24 horas por dia, alimentação e ambiente saudáveis. Esta é nossa obrigação, mesmo que agora papai insista em dizer que está tudo bem, pois sabemos que não está como sabemos que ele nunca nos pedirão nada.

Assim vamos conversar entre nós, vamos falar da realidade, vamos cuidar de dar a ele o que ele precisar.

Marcelo Augusto Portocarrero 

MENSAGEM A MEUS COLEGAS E AMIGOS.

O mundo mudou nestes últimos anos e a engenharia mudou com ele. De lá para cá, podemos afirmar que apesar dos avanços tecnológicos o que continua a valer mesmo em nossa profissão é a competência para saber utilizá-los e o discernimento entre certo e errado, mas principalmente caráter para optar pela primeira entre estas duas alternativas.

Lembro-me das lições que aprendemos com alguns de nossos mestres.  Algumas delas, a princípio não percebemos, pois se confundiam com as matérias que nos eram passadas em aula.

Uma delas, para mim em especial, foi-me dada em determinada prova, onde o professor não considerou nenhum ponto de uma questão mesmo eu tendo errado somente na anotação dos dados, mas tendo desenvolvido o raciocínio e a questão de forma correta.

Disse-me ele, na ocasião, que de nada adiantaria construir qualquer coisa sobre bases erradas. A obra, assim como a vida, deve ser pautada pela correta observação e utilização dos fatos senão terá sido em vão todo o esforço para levá-la adiante, pois ela fatalmente resultará em ruína.

Precisamos repensar o mundo em que vivemos não só como engenheiros, mas também como cidadãos, como pais e principalmente como brasileiros, pois foi-se o tempo em que caminhávamos tranquilamente pelas ruas e nossos filhos podiam ficar em frente de casa esperando retornarmos do trabalho. Hoje vivemos enclausurados sob  falsa sensação de segurança.

Marcelo Augusto Portocarrero – março/2016

Salve, salve amizade.

Eu, em especial sempre me senti grato a Deus pelas pessoas especiais que fui encontrando pela VIDA afora, aquelas que me deixam orgulhoso de dizer forte e a bom som, estes e aquelas são MEUS AMIGOS.

Tenho certeza que tudo isso que conosco aconteceu no passado e que nos é permitido viver agora não se deve somente aos esforços de alguns de nós que se envolvem mais diretamente no dia a dia uns dos outros, mas sim fruto da participação de todos.

Acredito que aqueles que não vemos com a frequência desejada, ou mesmo os que já se foram desta vida e que só voltaremos a ver quando formos ao seu encontro estão todos sintonizados em uma mesma frequência, com o pensamento uns nos outros formando aquilo que entendo como amizade, e que isto faz parte do que nos motiva a viver como vivemos.

VIVA A VIDA E VIVA A AMIZADE!

Marcelo Augusto Portocarrero – março/2016

Meu terço e minha fé em Deus.

2005 tinha sido um bom ano para mim como um todo, mas em 2006, ao chegar março, comecei a ficar preocupado com a proximidade do final do contrato de gerenciamento das obras no qual eu trabalhava e a não confirmação das expectativas relativas aos novos projetos em que estávamos trabalhado.

Naquele ano eu havia sido contratado para trabalhar na captação de novas obras e projetos. Entretanto, àquela altura todo o trabalho estava se mostrando em vão.

Houve até um reavivamento das esperanças quando uma das obras foi licitada, mas não conseguimos o contrato.

A razão disto foi a detecção de um escândalo envolvendo uma das empresas que havia vencido a concorrência para a execução da obra, o que pôs tudo a perder.

Para nossa frustração, depois de todos os esforços que haviam sido feitos desde 2004 as coisas haviam empacado e começamos a ficar preocupados com a possibilidade de não conseguirmos vencer nenhuma concorrência.

Pra complicar, começamos a perceber a provável existência de direcionamentos, e diante dessas circunstâncias as coisas costumam desandar mesmo.

Em agosto o dono de uma das empresas para as quais eu trabalhava me entregou uma carta informando que meu contrato de parceria e prestação de serviços com ele seria encerrado em outubro daquele ano devido à falta de perspectivas nos assuntos em que atuávamos juntos. Minha salvação seria reativar meu contrato de prestação de serviços com a CEF. Daria para trabalhar até conseguirmos participar das concorrências para os gerenciamentos de algumas das obras que estavam sendo anunciadas.

Enfim, entrei em setembro meio zonzo com tantas coisas dando pra trás.

A esta altura dos acontecimentos e como nosso contrato ainda estaria vigente até o final de outubro, me encarregaram de representá-los nas negociações que se seguiriam. Aconteceu então que me sai bem nesta função que, a bem da verdade, nunca em minha vida tinha imaginado vivenciar.

Foi quase um estupro, pois apesar dos meus cinqüenta e tantos anos e de já estar convivendo com aquele ambiente há bastante tempo, alem de conhecer pessoalmente todos os atores, eu ainda não tinha me envolvido tão profundamente nesse tipo de negociação. Fui uma luta intima muito grande com meus “eus” devido às características da minha formação e de meu caráter, herdados dos dois lados da minha genealogia.

A esta altura estava bastante estressado, tanto que passei a ter sintomas de síndrome de pânico. Eu sentia um enorme vazio, faltava alguma coisa pra me tranquilizar, mas não conseguia entender o que.

Foi quando minha esposa, sempre ela, meu verdadeiro anjo da guarda, disse para mim me aproximar mais de Deus.

Na realidade, durante toda a minha vida até aquele dia eu só havia me sentido realmente próximo de Deus em dois momentos: em minha infância e durante certo período de minha juventude.

Na infância frequentei muito a igreja levado por minha mãe e sua religiosidade inabalável. Naquele tempo eu e meus irmãos mais velhos fomos coroinhas e estudamos em colégios administrados por padres. Havia então todo um clima propício.

Já em minha juventude participei do que era conhecido como Encontro de Jovens na Igreja Católica. No início e durante algum tempo foi tudo bem, até que me decepcionei com algumas pessoas que frequentavam aquele ambiente.

Creio que foi aí que confundi as coisas. Ou seja, minha fé não era forte o suficiente para que eu superasse as decepções que tivera com os indivíduos e não com a igreja.

Hoje sei que não fui capaz de separar as coisas porque não estava preparado para entender minha religiosidade como ato de fé.

Esta dificuldade, creio eu, é fruto de nossa própria introspecção e não o resultado especifico de nossa convivência com as pessoas. Dentre estas, poucas têm realmente fé. Poucas sequer percebem a capacidade que a fé nos dá de que quando passarmos a acreditar em nós mesmos sermos capazes de superar as dificuldades que certamente encontraremos durante a vida.

Então, voltei a procurar Deus dentro de mim, abri meu coração a Ele e passei a ter fé em mim, pois creio que Ele está dentro de cada um de nós. Se cremos em nós, certamente assim o é por termos fé em Deus.

Fiz então o compromisso comigo mesmo de rezar o terço ao menos uma vez todos os dias, pelo resto da minha vida. Alguns chamam isto de promessa, eu prefiro o termo compromisso, pois é assim que me sinto – compromissado comigo mesmo.

Faltava-me o terço!

Uma noite então, enquanto rezava antes de dormir, pedi um sinal confirmando que eu estava no caminho certo para voltar a me “aproximar” de Deus.

Como estava perto de meu aniversário, rezei para receber de presente o terço que eu tanto queria. (Até aqueles dias eu estava rezando com um que era de minha mãe).

Pois bem, no dia 28 de novembro daquele ano, após o almoço sentamos na sala de televisão fazendo hora para ir ao trabalho.

Naquele dia eu não conseguia relaxar porque toda hora vinha a mim a espectativa de receber meu Terço, afinal era dia do meu aniversário.

Então ouvi o carteiro chegar com a correspondência e me apressei em buscá-la, pois era fim de mês, época em que chegam as cartas e as contas.

Além das contas havia uma carta da Congregação de Nossa Senhora de Fátima. Este tipo de correspondência nessa época do ano sempre traz um conjunto de Cartões de Natal para serem adquiridos como forma de contribuição voluntária.

Desanimado abri o envelope e percebi que havia, junto ao boleto e maço de cartões uma pequena caixa. Ao abri-la encontrei meu tão esperado presente. Lá estava meu terço. Uma dádiva de Deus trazido por Nossa Senhora de Fátima.

Faço aqui uma importante ressalva. Em todas as orações que vinha fazendo desde que minha esposa me trouxe de volta à fé, eu rezava frente a uma pequena imagem de Nossa Senhora Aparecida. Aquela mesma que a acompanhava desde há muito tempo em sua fé. Foi através dela e de Nossa Senhora Aparecida que recebi meu terço. Uma me aproximou da outra e esta última me atendeu.

Alguns podem até dizer que foi mera coincidência, afinal muita gente recebeu um Terço igual aquele. Eu não! Eu acredito, até porque conheço pessoas que também receberam um igualzinho a este que trago comigo. A diferença é que, no meu caso foi a pedido, tinha data marcada, foi fruto da esperança e teve muita, mas muita fé envolvida.

Naturalmente, quando vi o terço meus olhos se encheram de lágrimas e quase não consegui falar o que estava acontecendo tal era minha emoção, pois não havia contado sobre meu pedido a ninguém.

Acontecera a confirmação de minha fé e a partir de então aquele terço passou a ser meu companheiro inseparável.

Nem preciso falar da reviravolta que aconteceu na minha e em nossas vidas a partir daquele dia.

O ano de 2007 foi especial e os outros que vieram a seguir não foram diferentes, tanto quanto aqueles que ainda virão.

Eu acredito e tenho fé em mim e em nós. Por isso, volto a insistir para que tenham fé e que façam do tempo de que dispuserem durante suas vidas o combustível das vossas esperanças. Usem-no para reforçar as bases sobre as quais serão edificadas suas vidas. Ele é irrecuperável e não deve nem pode ser desperdiçado.

Por outro lado, tudo pelo que passamos embora em algumas circunstâncias possam parecer derrotas irrecuperáveis, lá na frente será percebido como mais uma etapa do permanente processo de aprendizado que receberemos da maior das escolas, a escola da vida.

Como não é possível faltar às aulas desta escola, devemos estar sempre atentos para aproveitar ao máximo o que nos é ensinado no dia a dia, pois mesmo enquanto dormimos estamos recebendo informações. São estas as ocasiões em que, conscientes ou inconscientes, repassamos em nossas mentes todos os momentos vividos.

Beijos nos corações de vocês,

Marcelo Augusto Portocarrero – fevereiro/2007

Saudades da minha Cuiabá

Imagem de 1965 – Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá

A distância só faz aumentar
O amor que a gente sente.
É algo que só se explica,
Quando longe, ausente.

Como faz falta a terra querida,
É como da mãe que cuida da gente.
Sinto falta da família, dos amigos,
Sinto falta do calor presente.

Minha Cuiabá é terra quente e calorosa.
Quente na temperatura ardente,
Calorosa no amor de sua gente.

Sinto muita saudade de lá,
Como um filho da mãe querida.
Volto tão logo possa, pelo resto da minha vida!

Escrito antes de retornar….

Marcelo Augusto Portocarrero – novembro/2015

Zé Ninguém

Impressionante como é comum a gente receber como justificativa pelos mal feitos a resposta de que ninguém respeita isso, ninguém se importa com aquilo, e por aí vai.

Quem será esse tal ninguém a que tantos e tantas se referem para justificar suas próprias posturas diante do que é correto quando estão errados.

É o caso de perguntar se a pessoa também se considera um “ninguém”.

Sim, porque quem age como tanto desdém só pode ser mesmo um… ninguém da vida.

Marcelo Augusto Portocarrero – fevereiro/2016

Hoje voltei a sentir um aperto gostoso no coração.

Tenho pensado bastante sobre a empreitada que enfrentamos para comemorar 35 anos de formatura.

Na verdade, foram quarenta e poucos anos de convivência com pessoas tão queridas, como considero todos e todas as pessoas quem tive o privilégio de conhecer, conviver, aprender a respeitar e querer desde os tempos da universidade (muitos até antes disto).

Lembro-me dos momentos inesquecíveis de estudos em sala de aula, dos bate-papos sentados na rodoviária do Bloco de Exatas, das dicas passadas sobre os professores – olha o Laerte faz questão disso e daquilo, o London é rigoroso, o Amorézio é genioso e tantos outros personagens que atuaram de maneira tão importante em nossa formação. Enfim, como não se lembrar nossos queridos mestres com muito carinho.

E os muitos casamentos que começaram naqueles corredores? Só pra citar alguns, lá começaram a pensar na vida juntos o Sidney e a Márcia, o Brito e a Vera, eu e a Clara, o Bosco e a Marisa, o Henrique e a Ivana e por ai vai…

Que dizer então dos temas polêmicos da política daquela época em que alguns colegas já começavam suas caminhadas nessa área.

Também me lembro da forma natural com que alguns de nós, como o Luiz Salvador e a Lilian já deixavam transparecer suas paixões pela carreira do ensino; daqueles outros que desde cedo apresentaram espírito empreendedor e empresarial; dos que demonstravam ter a veia política aflorando, bem como daquele que, como eu, começaram a vida profissional no serviço público acreditando que assim estaríamos contribuindo para a construção de um Estado melhor.

A engenharia tem esta característica especial de ser multiformadora de personalidades, e foi assim que ela se manifestou em nós de maneira tão marcante e maravilhosa.

Marcel Augusto Portocarrero – março/2016

O que nos faz ser tão insensatos?

Alguns têm o desplante de dizer que é devido a nossa origem ser da região a oeste da península ibérica, outros devido a inquisitiva influência religiosa e, pasmemo-nos, culpam até os nativos que aqui viviam antes do descobrimento, nossa principal, verdadeira e natural origem.

Só falta culparem nossa miscigenação. Essa mistura de raças originárias de países tão diferentes, a começar pelos portugueses, passando por espanhóis, holandeses, africanos, japoneses e etc. Será que ficamos no limbo por causa dessa miscigenação?

Perdemos o caráter patriótico que todos esses países têm por não sermos como eles de origem única, raça pura e bem definida? Não, não acredito nisso! Deveria ser o contrário, com tanta coisa boa sendo amalgamada pelo amor e pelo tempo.

Eu não posso considerar nossa extrema incompetência perante a história creditando a culpa somente em nossa origem, em nosso passado. Não podemos permanecer culpando sempre os outros, enquanto ficamos acomodados em nosso canto perante tudo, esperando que alguém venha e resolva, torcendo para que façam por nós o que não temos competência e coragem de fazer.

As vezes, como agora, nos deparamos com essas verdades nuas, duras e cruas, e mesmo assim tendemos a permanecer estáticos, como que entorpecidos.

O que nos faz permanecer assim? Será porque de vez em quando a gente ouve ser alardeado a toda voz que somos um povo abençoados por Deus e bonitos por natureza? Será que vamos continuar acreditando nessa condição especial e permanecer eternamente em berço esplendido?

Foi por agirmos assim que abrimos espaço para que títeres como esse aproveitador que acaba de mostrar sua repugnância por inteiro tenha o desplante de querer voltar a nos dizer o que é certo e o que é errado.

Chega, chega!

Precisamos ser brasileiros de fato. Sem discriminação de cor de raça, de credo, de sexo, de situação econômica e social. Sermos somente brasileiros de verdade e darmos um basta nisso.

É isso! A oportunidade está chegando, outubro está bem alí.

Mamãe – Uma vida dedicada ao amor

Falar de alguém tão especial é emocionante e desafiador.

Falar de Dona Iracy, minha mãe, melhor dizendo, da nossa mãe, em poucas linhas é isso multiplicado pela enésima vez.

É como descrever algo indescritível, imaginar coisa inimaginável, extrapolar o extraordinário e outros tantos predicados somados, e com isso tudo na cabeça contar a história das nossas vidas.

Sim porque ela nos ajudou a construir nossos mundos em torno de sua vida como esposa e mãe.

Encantou-nos com seus encantos, nos abençoou com suas orações, nos alimentou com sua seiva materna, nos curou com sua dedicação incondicional, nos ensinou magistralmente com seu pouco estudo e nos educou exemplarmente com sua bondade infinita e, principalmente, nos ensinou o que significa amar de maneira integral.

Mamãe foi dessas pessoas que vieram ao mundo com a missão definida para amar, e quando não conseguia deixar isso perceptível, sua alma misericordiosa sofria tanto a ponto de se penitenciar. Nesses momentos sua reação instantânea era recorrer a suas orações, a seu terço de todos os momentos.

Nele ela encerrava tudo, sua fé inabalável, sua crença verdadeira e seu amor infinito a Jesus Cristo na figura de Nossa Senhora, a quem ela se dedicou apaixonadamente, pois perdeu sua mãe com poucos meses de idade, como também a Santo Antônio, através de sua devoção. Erá por intermédio deste último, seu eterno protetor, que ela pedia por tudo e por todos.

Mamãe não teve mãe, a sua, Deus chamou ainda jovem. Quem a criou até a primeira infância foi sua avó, que também a deixou pouco tempo depois. Foi então que passou a viver sob a criação da segunda esposa de seu pai e a se apegar a Nossa Senhora.

Do pouco que ela nos conta sobre esta fase de sua vida tudo leva a entender sua dedicação a nós e a papai, a quem ela se entregou de corpo e alma ainda menina, quando se casou aos 16 anos de idade. Sobre isto, dizia com satisfação que tudo que aprendeu de verdade na vida devia a essas duas pessoas, sua avó materna e a seu marido.

De sua família, entenda-se pai e mãe, nada se materializou através de ensinamentos. De seu dois irmãos mais velhos sempre teve amor, proteção e dedicação desde crianças até seus últimos dias de vida. Aos demais irmãos, filhos do segundo casamento de seu pai, crianças para as quais dedicou boa parte de sua infância, sempre ofereceu e recebeu amor e carinho.

Dizia também que se não tivesse encontrado Cazuza, como ela sempre chamou papai, teria sido freira, dedicaria sua vida a servir a Deus. Disso nunca duvidamos, pois sua religiosidade foi acentuando-se com o passar do tempo através de sua abnegada devoção a religião católica, em especial a seu querido Santo Antônio o grande intermediário de seus pedidos e promessas.

Em respeito aos brasileiros de boa índole.

Se você precisa de alguém para apoia-lo, lhe dar socorro nas horas difíceis, alguém que possa salvar sua vida, a quem você recorre? Como obter este apoio de forma incondicional e despojado de retribuições, favores, pagamentos? Não estou falando de família, estou falando de amigos, colegas, pessoas que lhe tenham admiração.

Procure parceiros verdadeiros. Aquelas pessoas de todas as horas e todos os momentos e que lhe tenham respeito.

É difícil não é mesmo?

Então imagine você precisar de centenas, milhares e até milhões de pessoas com estas características, que voluntariamente, sem interesses pessoais, desapegadas de benefícios diretos e até indiretos, venham ao seu encontro quando sentirem ser necessário estar juntas a você e a outros tantos por sua causa.

É neste momento que você percebe quem sabe a diferença entre o certo e o errado, a verdade e a mentira, o que se vende e o que não se deixa comprar, quem paga por apoio e quem recebe apoio incondicional.

Esta é a diferença entre aqueles que querem um Brasil formado por pessoas livres e que por esse motivo assim se manifestam e aqueles que querem outro país, que precisa pagar pelas presenças, que oferece empregos e não se importa com os desserviços, que cobram os “favores”, que corrompe os mais humildes para que estes, qual massa de manobra, compareçam às manifestações de seu interesse.

Marcelo Augusto Portocarrero – 1/04/2016

O NEGÓCIO ANÁLOGO.

Certo professor e articulista contra o impedimento comparou as pedaladas do governo com a contratação de um projeto de arquitetura. Ao usar do mesmo “estratagema analógico” vou explicar como eu entendo o que ocorreu.

Vou ser mais explicito, de forma a que qualquer cidadão ou cidadã entenda o que aconteceu do meu ponto de vista.

Imagine um prostíbulo, uma casa de tolerância (esse último nome vem a calhar). Agora, considere que a dona ou, se preferir, cafetina do lugar, determine que as três melhores damas do pedaço façam o que bem sabem com alguns frequentadores especiais, mas só que na faixa, anotado na caderneta, como diziam antigamente.

– Vejam meninas isso só acontecerá com aqueles fregueses especiais. É que, de vez em quando, falta dinheiro para eles pagarem a comida da família, a escola dos filhos, o atendimento do hospital o seguro do carro, mas como são gente nossa, da casa, prometo que da próxima vez que vierem visitar vocês vão pagar tudo.

As visitas vão acontecendo, a história de repete, a caderneta vai se enchendo de anotações, o pessoal que “usa e abusa e não paga” vai se apertando cada vez mais, o final do ano chega e as festas de fim de ano também, e com isso tudo acumulado as dividas não podem mais ser quitadas.

Então a turma da administração do puteiro é obrigada a pedir moratória aos credores na Casa-da-Mãe-Joana (*) e têm suas contas ou débitos prorrogados para o ano seguinte. Ai começa tudo de novo.

Uma hora o negócio quebra, aliás, se continuar assim qualquer negócio quebra, não é mesmo?

(*) Casa-da-Mãe-Joana é uma expressão de língua portuguesa que significa o lugar ou situação onde vale tudo, sem ordem, onde predomina a confusão, a balburdia e a desorganização. Sua origem remonta ao século XIV.

Trazida para o Brasil serviu, por extensão, para indicar o lugar ou situação em que cada um faz o que quer, onde impera a desordem e a desorganização.

Marcelo Augusto Portocarrero – 03/04/2016

A memória da igreja

A Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá passou por várias reformas e reconstruções antes de meu retorno para cá. Por isso mesmo não vou falar do passado mais distante, mas sim do início dos anos 60, época em que a conheci e de sua maior influência sobre mim. Depois disto ela sofreu sua última, grande e decisiva transformação em agosto de 1968.

Naquela ocasião a igreja foi dinamitada para que conseguissem, a muito custo, derrubá-la totalmente e dar lugar à moderna estrutura clássica que hoje ocupa seu lugar, a qual passou a ser chamada de Catedral Basílica do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Em 1971, quando retornei, a nova igreja, a Catedral Basílica, já estava em fase final de construção. Naquela época estavam concluindo a montagem do grande painel de pastilhas coloridas que fica atrás de seu altar-mor e mostra a figura do Senhor Bom Jesus de Cuiabá. Ali onde ficava o “antigo altar-mor”, o único dos cinco que foi totalmente vendido a um antiquário que dizem, coincidentemente, por aqui passava. Algo incompreensível para aqueles que nunca vão se conformar com este “trágico incidente”, nas palavras dos pesquisadores e historiadores que trataram do assunto. Dizem também que várias peças provavelmente estão nas casas de algumas famílias, presenteadas que foram pelos responsáveis pela destruição da igreja a titulo de agradecimento pela colaboração, o que, se verdade, o torna ainda mais revoltante.

Minhas principais lembranças são dos tempos em que fui coroinha, a ponto de ainda estarem firmemente enraizadas em minha memória. Uma delas diz respeito às dimensões da edificação, pois ainda tenho a sensação que a antiga igreja era maior do que a atual. Certamente devido à noção de espaço de meus olhos infantis, vez que vou continuar vendo-a com emoção, sensação que vem mais do coração que da razão, o que sempre ira conspirar a favor da ligação sentimental que tenho por aquela que será eternamente a minha Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

De uma forma geral, ao rever as poucas fotografias que restaram de seu antigo interior, as quais estão disponíveis no Museu de Arte Sacra de Mato Grosso, recordei que seus cinco altares resplandeciam em contornos dourados sobre fundo branco, característica esta presente em todas as suas colunas, nichos, detalhes e anjos, mas principalmente nestes últimos, os anjos que frequentavam seus altares. Digo frequentavam porque a mim pareciam estar por ali passeando de um lado para o outro cantarolando músicas celestiais entre o Senhor Bom Jesus de Cuiabá, Nossa Senhora da Conceição, Nossa Senhora de Sant’Ana, Santa Terezinha e o altar do Sagrado Coração de Jesus. Em todos eles também estavam imagens de diversos outros santos e santas de devoção, todos devidamente aninhados em nichos sobre pilaretes ou mesmo apoiados nos balções dos altares.

Este último, o Altar do Sagrado Coração de Jesus, era onde todos ficávamos tristes ao ver o coração de Jesus, representado por uma peça em feltro escarlate permanecer repleto de espinhos até que crianças vestidas de anjos os retirassem em uma cerimônia dolorosa, mas ao mesmo tempo reconfortante que acontecia todos os anos durante o mês de junho.

Para mim era puro prazer caminhar por seu interior enquanto ela ainda estava na penumbra do final da tarde, naqueles momentos em que as luzes ainda não estavam acessas e as portas apenas entreabertas. Os instantes mais marcantes aconteciam enquanto percorria o caminho formado pelos ladrilhos reticulados do corredor da nave principal participando do apagar da luz do sol que aos poucos se esvaía entre as frestas para ser substituída pela iluminação das velas dos candelabros e das luminárias penduradas nos longos cabos que desciam das vigas da cobertura pairando em um local que ficava entre o céu/teto e a terra/piso da igreja.

Impossível esquecer a sensação de caminhar naquele local etéreo, mistura do celestial com o sagrado. Era como que se sentir subindo a cada passo que dava em direção ao altar-mor muito antes de chegas aos três degraus que levavam ao patamar onde ele estava instalado. Isso tudo logo abaixo e à frente da imagem do Senhor Bom Jesus de Cuiabá.

Outro momento emocionante de que me lembro era quando vestia a batina vermelha com o sobrepeliz branco para ajudar a missa como coroinha. Naquelas ocasiões me sentia como que fazendo parte de um grupo especial ungido por uma benção divina e habilitado a ficar por algum tempo mais próximo a Deus que os demais participantes da celebração.

Acabada cada cerimônia saía com uma agradável sensação de leveza, principalmente quando recebia a Sagrada Hóstia após a Eucaristia, o alimento espiritual que me protegeria até a próxima oportunidade de receber o presença de Jesus em meu coração.

Assim como a Catedral que a substituiu, a antiga Igreja Matriz estava localizada em uma quadra toda sua, com frente para a Praça da República e Rua Antônio Maria , tendo ao seu lado direito o Instituto de Ensino com uma estreita e tradicional passagem em paralelepípedos separando as duas históricas edificações. Do lado esquerdo estava a Praça Alencastro com a Avenida Getúlio Vargas a separá-las e ao fundo, do outro lada da Rua Joaquim Murtinho, o Grande Hotel.

Sua antiga fachada e boa parte das laterais seguiam o tradicional e belo estilo colonial empregado na construção da maioria das antigas igrejas do Brasil, influencia dos padres jesuítas que acompanhavam a colonização das terras ocupadas por Portugal. Entretanto, a parte de trás já havia sofrido com a intervenção dos que compactuaram com sua destruição, pois havia sido demolida e um edificação nova, sem as características originais, já a desfigurava. Creio que este fato contribuiu definitivamente para o sumiço do antigo altar-mor, aquele que ninguém sabe e ninguém viu, vez que era no fundo da nave principal da igreja que ele ficava.

Ficou em mim a desagradável sensação de que houve um grande esforço para apagar da memória dos cuiabanos a antiga e bela Igreja Matriz do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, pois no Museu de Arte Sacra nem tudo está disponível aos visitantes sobre sua história. Lá estão quatro de seus cinco altares, já que o principal, o do Senhor Bom Jesus de Cuiabá, inexplicavelmente foi “perdido” e  diversas, mas não todas as imagens e peças que deveriam ter sido preservadas para constituir seu acervo.

Somente algumas palavras e fotos contam a história de seu esplendoroso interior. Nada mais restou, só saudades.

Marcelo Augusto Portocarrero – set/2016

POESIA – Oração por nossos filhos

Jesus Cristo misericordioso,

A Ti recorro novamente,

Na busca de Vosso amparo.

Olha por nossas almas,

Que angustiadas sofrem

Com as Incertezas do amanhã.

Zela por nossos filhos,

Cuida dos nossos queridos.

Guia seus passos.

Abençoa-lhes o futuro,

Mostra a eles o caminho

Pelo qual nos trouxestes até aqui.

Marcelo Augusto Portocarrero

Em 31/03/2016

RETORNANDO À MINHA CUIABÁ

A Cuiabá de 1971 era uma cidade diferente daquela que deixei alguns anos atrás. A cidade dos casarões estava começando a dar lugar à metrópole dos edifícios, com os novos bairros transformando as distâncias. O que antes era bem ali passou a ser longe, acolá, como diziam os mais antigos e as famílias tradicionais que moravam no centro ainda não haviam percebido o crescimento vertiginoso que se avizinhava, o que iria mudar seu cotidiano para sempre. Assim, a cuiabania seguia sua vida na tranquilidade que desde sempre determinou seu caráter pacífico e receptivo.

Naquele dia, assim que acordei fui dar uma volta pelos arredores à procura dos lugares por onde havia passado boa parte de minha infância. Ansioso, sai do Edifício Maria Joaquina, prédio que estava em fase inicial de construção quando nos mudamos e desci a Rua Cândido Mariano até a esquina da Pedro Celestino, do outo lado do antigo prédio do Banco da Lavoura de Minas Gerais onde meu pai foi gerente. A visão trouxe consigo a estranha sensação das mudanças nas dimensões das coisas, aquela que a gente só percebe quando volta a um lugar onde esteve na infância e se choca com as diferenças em relação à percepção espacial que ainda guardamos do passado. A edificação ainda transmitia sua imponência, mas perdera o gigantismo ante meus olhos de adolescente.

De onde estava pude rever pela primeira vez uma boa parte do meu passado de menino. Olhando para a esquerda, na sequência da Rua Pedro Celestino, busquei as casas do Roberto, do Willian e do Ivo, meus amigos que moravam por ali, e lá estavam elas. A do Roberto então, ainda mantinha sua porta alta e janelões em madeira pintada naquele vermelhão caindo para o vinho, bem característico das edificações da parte mais antiga da cidade. Virando para a direita, passei a vista pelo prédio do banco e encontrei a Praça Alencastro com a Igreja Matriz do Bom Jesus de Cuiabá aparecendo ao fundo. Estas duas estruturas guardavam em si os maiores impactos à minha visão. Quanta mudança!

A reforma na praça havia modificado radicalmente sua aparência e na Igreja então, meu Deus, o que significava aquilo, quanta diferença. Foi como se a tristeza chegasse com a realidade até meu coração.

Confesso que quando papai me disse que voltaríamos a morar em Cuiabá elas foram as primeiras recordações que vieram a minha memória. A proximidade da Igreja Matriz e a fé católica com que fomos educados nos fizeram frequentadores assíduos de suas instalações. Lá fiz minha primeira comunhão e juntamente com meus irmãos participei como coroinha nas suas missas e eventos tradicionais. Foi nela que aprendi as primeiras lições sobre a importância de Jesus em nossas vidas.

Já a Praça Alencastro, assim como a Praça da República, eu as tinha como os play-grounds da minha infância. Eram minhas principais referências de espaço relacionado à diversão principalmente quando as comparava com as praças das outras cidades onde morei em função das mudanças que fiz com meus pais. Eu as reconhecia como os lugares onde a alegria passeava, posto que estavam a alguns passos de onde morávamos.

Na antiga Praça Alencastro encontrava os amigos para combinar o que fazer, em seus bancos e largas muretas arredondadas trocávamos figurinhas de álbuns de futebol e jogávamos bafo, suas calçadas, coreto e chafariz eram por onde nos divertíamos a correr nas brincadeiras de pique, principalmente após a missa de domingo a noite. Lá reuníamos os amigos para ir ao Cine Teatro Cuiabá e depois, já em meados de 1965, ao Cine Tropical assistir aos filmes das matinês. Foi nela que busquei refúgio para os momentos de introspecção quando as indagações inocentes de minha infância começaram a aparecer. Passeando em suas calçadas conheci como muitos daqueles tempos minhas primeiras paixões.

Algum tempo depois, em 1965 ela foi totalmente desfigurada com a justificativa de lhe dar ares de modernidade, algo que nunca encontrou nem encontrará guarida nos corações dos cuiabanos mais antigos. Por mais que a fonte luminosa com suas águas coloridas dançantes fosse um atrativo aos olhos dos curiosos não substituiu o charme que o velho chafariz e o antigo coreto, hoje residindo desajeitado, mau usado e abandonado na Praça Ipiranga lhe davam. Tão pouco a retirada do Gasômetro será esquecida vez que seu valor histórico sequer foi considerado por aqueles que o demoliram, pois lá era seu lugar. Tudo sumiu da vista, mas não da memória e não foi suficiente recoloca-los onde hoje estão porque suas raízes ficaram para trás, enterradas como tudo que havia na antiga Praça Alencastro que reside no meu coração.

Muito antes daquela reforma o antigo Jardim Alencastro, depois Praça Alencastro, já era o ponto de encontro das famílias cuiabanas. Era lá que passeavam após a missa das sete da noite dos domingos para encontrar os amigos e namorar.

Descendo mais um pouco a Cândido estava a Rua do Meio onde morei naquele outro tempo que vivi em Cuiabá. Lembro que seu nome foi motivo de interesse peculiar quando aqui chegamos pela primeira no início dos anos sessenta. A curiosidade natural frente ao fato de a chamarem por um nome diferente daquele que estava nas placas fixadas nas paredes das casas das esquinas foi respondida por meu pai falando sobre a época da fundação do antigo vilarejo, quando os nomes do arruamento estavam diretamente relacionados às suas posições na malha urbana original do vila que se tornou cidade. Dai a razão pela qual ela ficou conhecida inicialmente como a Rua do Meio e depois recebeu outros nomes até ser finalmente denominada Rua Ricardo Franco. Em Cuiabá a forma antiga de chamamento das ruas sempre foi característica marcante, tanto quanto ao costume de apelidar as pessoas em função de alguma particularidade engraçada ou mesmo de sua família. Neste caso, a Rua do Meio era assim conhecida porque ficava entre a Rua de Baixo ou Galdino Pimentel e a Rua de Cima ou Pedro Celestino.

Estreita e pavimentada em paralelepípedo como quase todas as ruas da cidade naquela época a Rua do Meio era habitada em sua maioria por comerciantes que geralmente moravam nos fundos das lojas além de outros tipos de negócios nela instalados. Era uma mescla de origens muito interessante porque além dos cuiabanos nativos ali estavam, entre outros, turcos, sírios, libaneses chilenos, portugueses, japoneses e Lázaro Papazian ou Seu Chau, um fotografo de origem armênia muito conhecido e querido que recebeu este apelido graças a forma peculiar com que cumprimentava a todos. Nós morávamos em um dos apartamentos do prédio de três andares localizado bem em frente ao Foto Chau que naturalmente também era a residência da família Papazian.

Continuando minha busca de reminiscências me vi parado na frente da porta da casa da família Boabaid, bem na esquina da Rua Cândido com a Rua do Meio e com o Armazém Chileno do outro lado da rua. Ali tive de respirar fundo enquanto meus olhos piscavam quase no mesmo compasso com que meu acelerado coração palpitava. Dali para frente a Cândido Mariano ficava ainda mais estreita, praticamente um beco, com estreitíssimas calçadas seguindo em ladeira até a Rua de Baixo, passando pela Praça Caetano de Albuquerque até chegar ao Córrego da Prainha ou Avenida Tenente Coronel Duarte. Quando mudamos de Cuiabá a Prainha ainda era um córrego onde em dias de chuva era comum encontrar pessoas procurando por ouro nos cascalhos de seu leito, resultado da lavagem das ruas pelas águas das chuvas que desembocavam nas suas margens.

A esquerda de onde eu estava a Rua do Meio seguia e logo começava a fazer uma curva suave rumo a Rua de Cima o que impedia a visão de seu final. Para lá também moravam vários de meus amigos de infância, entre eles o Henrique (Urubu) e o Raul (Zezé) , o Tércio e o Beto (Cabeça de Melancia). Eu já falei sobre a mania dos cuiabanos com apelidos, o Beto e o Henrique são um exemplo típico dessa forma pitoresca e até amável de tratar as pessoas. Ao virar para o outro lado procurei alcançar com os olhos a Praça da República onde a rua tem seu início. Nesse momento meu coração que já estava agitado ficou ainda mais acelerado. É que avistei Dona Nana e Seu Raul Vieira vindo em minha direção, provavelmente haviam acabado de sair de sua residência e estavam a caminho da casa de seu filho Augusto Mário, pai de meus inseparáveis amigos Raul e Henrique. Como que dentro de uma moldura de quadro antigo lá também estavam Seu Chau e sua esposa Dona Adelaide que vinham a ser pais do Gonçalo Papazian e do Pedro, outros dos meus inesquecíveis amigos de infância. A Praça da República aparecia por detrás deles como pano de fundo.

Fiquei ali estático enquanto Dona Nana e Seu Raul passavam sorrindo sem saber quem era aquele rapazote magricela, sorridente e visivelmente emocionado que amavelmente os cumprimentava com um abaixar de cabeça. Esperei alguns instantes até a adrenalina baixar, voltei a respirar fundo e segui na direção da Praça da República.

Recuperando o fôlego fui ao encontro dos pais do Gonçalo, nossos vizinhos muito queridos, principalmente pela grande amizade de mamãe e Dona Adelaide. No Foto Chau assistimos muitas vezes aos filmes de desenho animado que o fotógrafo passava para seus filhos e a gurizada da rua. Dona Adelaide logo me reconheceu, percebi através de seus emocionados olhos umedecidos pelas lágrimas enquanto perguntava por meus pais.

Não foi difícil começar a me sentir novamente em casa, afinal os anos haviam se passado, mas tudo estava em seu antigo lugar. Seu Raul e Dona Nana, Seu Chau e Dona Adelaide, meus amigos, o prédio onde morei, o Foto Chau, a alfaiataria do Seu Pedroso, a Casa Carmem, o Bilhar do Pinheiro, os paralelepípedos do calçamento, quase tudo daquele trecho da Rua do Meio estava lá como eu a tinha na memória.

Naquela época a maioria das ruas de Cuiabá ainda guardava o pavimento em paralelepípedo, mas em alguns trechos já começavam a desaparecer cobertos pelo asfalto. O calçamento antigo estava sendo literalmente sepultado, assim como muitas outras características da cidade que ainda restavam em minha memória.

É interessante perceber a relação da cidade com seu calçamento. Certamente os mais antigos ainda se lembram de que a cidade era bem mais fresca e segura com as ruas em paralelepípedo. Asfaltá-las foi um equivoco que poucos administradores públicos aceitariam reconhecer. Além de prejudicar as questões de segurança e temperatura ambiental pavimentar as ruas do centro da cidade com asfalto desfigura sua história e pouco traz de benefício, exceto tornar a passagem dos veículos menos trepidante.

Salvo engano, naqueles tempos, exceto por um trecho da Avenida Getúlio Vargas até hoje pavimentada em concreto e um trecho da Rua Barão do Melgaço que havia sido pavimentado em blocos sextavados de concreto as outras eram de paralelepípedos ou em pedras cristal como o trecho da Rua Campo Grande entre a Igreja da Boa Morte e a rua Comandante Costa, na esquina onde morava seu Julio Müller.

A cidade era bem menos quente e por consequência da rudeza do piso tinha o transito mais lento ou como prefiro dizer, mais tranquilo. Eram outros tempos, outra vida e porque não dizer outra cultura, pois a cidade era praticamente só dos cuiabanos, de outros mato-grossenses que aqui viviam e de alguns paus rodados como eu e minha família.

Nós que vinhamos de fora e éramos chamados de “paus rodados” (no dizer da gente da terra ao nos relacionar às galhadas que descem pela correnteza do rio Cuiabá e acabam engastadas nas praias e no saranzal, vegetação típica das margens do rio que emprestou seu nome à cidade nascida em suas margens) e aqui encontramos um povo receptivo, alegre e na sua quase totalidade despossuído dos modos e mazelas dos grandes centros do sul-sudeste. Os costumes da cuiabania sempre foram bucolicamente tranquilos, eram hábitos locais sobre os quais muitos que para cá vieram não compreendiam de início.  – Para de ser violento, isso é coisa de dgente de fora, era o sonorizado modo de dizer tipicamente cuiabano quando se referiam a necessidade de fazer alguma coisa com pressa. Esta forma de se expressar pela voz é ainda preservada nos cuiabanos mais enraizados e lhes garante charme próprio no jeito de se comunicar, característica do amor e respeito às tradições locais.

A Praça da República, diferentemente da Alencastro não tinha coreto, mas sim um monumento, um pequeno obelisco de ferro representando a justiça e cercado de uma mureta circular. De seu setor central circular partiam alamedas que se interligavam a outros setores circulares menores localizados em cada canto de seus cantos onde existiam bancos com árvores a sombreá-los. Era nela que brincávamos a correr nas tardes de chuva para nos refrescar do calor típico da cidade nos dias de verão das férias de final de ano.

Cercado por prédios importantes como o dos Correios, o Palácio da Instrução, a Escola Modelo Barão do Melgaço, o Hotel Esplanada a Praça da República também determinava o início da Rua 13 de Junho, mas seu principal papel sempre foi o de fazer as vezes de Praça da Matriz, posto que em suas largas e baixas muretas serviam e ainda servem para as pessoas aguardarem o início das funções religiosas na Catedral Metropolitana de Cuiabá.

Aqui estou desde então.

Marcelo augusto Portocarrero – jan/2015