Mercenário, Sim Senhor

O ruído contínuo dos alto-falantes do aeroporto anunciava as chamadas de voos, enquanto o painel luminoso piscava no saguão de embarque. Sentada em uma das poltronas com o notebook sobre os joelhos, Helena acompanhava em silêncio o noticiário que corria na televisão fixada no alto da coluna. Ao seu lado, o colega de viagem ajeitava a bagagem de mão no chão.

Na tela, a imagem de um parlamentar bastante conhecido estampava a manchete de sua mais recente e ruidosa troca de partido.

Helena fechou a tampa do computador devagar e soltou uma risada discreta, sem um pingo de humor.

— É inacreditável… Ele não foi candidato pelo partido oposto na eleição passada? Não era o crítico mais ácido justamente daquele que hoje chama de “irmão de caminhada”?

O colega olhou para o monitor e deu de ombros.

— Política é dinâmica, Helena…

— Dinâmica? — atalhou ela, encarando-o com firmeza. — Na campanha passada ele discursava contra o aborto, contra a liberação de drogas e contra tudo o que hoje classifica como “progresso” em uma coleção de decepções que nós nos acostumamos a aceitar com uma naturalidade assustadora.

— No Brasil, troca-se de legenda como quem troca de roupa — comentou o colega, tentando amenizar.

— O problema não é só a sigla — retrucou Helena com tom sereno e pausado. — É o apagamento do discurso de ontem. O palanque oposto vira aliado e o que era convicção passa a ser chamado de “amadurecimento político”. O que sustenta essa metamorfose não é ideologia, é pura conveniência. E o mais triste é ver como a sociedade esquece rápido. Um bocadinho de benesses paga a conta da nossa amnésia coletiva.

— Um cargo comissionado para o sobrinho, uma secretaria prometida, uma emenda liberada… — concordou o colega.

— Exatamente. O interesse mesquinho e imediato compra o silêncio e a memória das pessoas. Transformamos os partidos em meros cartórios eleitorais de aluguel e criamos uma casta de profissionais que nunca tiveram outra profissão na vida além da própria política.

A chamada para o voo soou nos alto-falantes. Helena levantou-se, ajustou o casaco e alçou a bolsa ao ombro, mas seu pensamento continuava fixo na engrenagem que descrevera.

— E essa mesma lógica, alimentada nas eleições para o Executivo e o Legislativo, é a que hoje escolhe parte do nosso sistema de Justiça — concluiu ela, caminhando ao lado do colega em direção ao portão. — É ela que acaba por indica o ministro do STF, o ministro de Estado, o desembargador pelo Quinto Constitucional, o conselheiro do Tribunal de Contas que vai — pelo menos deveria — fiscalizar quem o indicou, e até o dirigente de classe que deveria nos representar. Quando a origem é mercenária, o destino jamais será justo.

Enquanto avançavam pela ponte de embarque em direção à aeronave, as palavras de Helena permaneciam ressoando nos ouvidos.

Não se trata mais de uma simples troca de sigla ou de um rearranjo partidário de ocasião. Estamos diante do aluguel do caráter por conveniência.

A política, que deveria ser a arte de servir e edificar o bem comum, converteu-se num balcão de negócios onde o pragmatismo rasteiro atropela princípios que outrora eram defendidos com veemência nos palanques. O cinismo tomou o lugar da coerência, e a virtude da lealdade foi substituída pela habilidade do cálculo individual.

Enquanto a memória do cidadão for curta e o seu julgamento for anestesiado por favores de ocasião, o espetáculo continuará o mesmo. O sistema continuará premiando quem vende a alma ao melhor comprador e penalizando quem mantém a honra ilesa.

Enquanto o eleitor aceitar o suborno velado das pequenas vantagens e fechar os olhos para as piruetas ideológicas dos seus representantes, o mercenário continuará no topo, no comando e com vida longa.

Vai sim senhor!

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