Antigamente, a percepção do poder e do eleitorado no Brasil apoiava-se em uma imagem límpida e rústica. Havia os berrantes, empunhados pelos chefes políticos locais ou pelos coroneis da região. Seu toque atravessava as distâncias para reunir a manada em torno do pasto que lhe era estendido: o favor individual, a benesse temporária, a pequena quantia e a proteção pervertida. O rebanho seguia aquele som porque era o único que conhecia, aceitando o jugo com naturalidade, quase como uma fatalidade.
Será que hoje ainda vivemos sob essa mesma lógica? A resposta exige olhar além do cenário visível.
A fisionomia da política mudou, mas a tentação do rebanho fácil continua viva. A diferença crucial é que os berrantes se multiplicaram. O som já não ecoa em uma única praça ou comício, mas deságua sem trégua pelas redes sociais, pelas mídias fragmentadas e pelos algoritmos de recomendação.
Se antes o coronelismo dependia do contato físico e da troca direta de lealdade por subsistência, hoje a captura se dá no campo do afeto e da ideologia. O “pasto” ofertado ao eleitor contemporâneo nem sempre é material; muitas vezes é a validação moral, o sentimento de pertencimento a um grupo ou a oferta de narrativas prontas que alimentam o ressentimento e o confronto.
A grande ilusão do nosso tempo é a da autonomia. Convencido de que escolhe o próprio caminho por ter acesso instantâneo a uma infinidade de telas, o eleitor de hoje pode estar apenas atendendo a gatilhos psicológicos cuidadosamente desenhados para despertar sua adesão impensada. Ele marcha convicto de sua independência, sem perceber que apenas mudou de berrante.
Nesse novo ecossistema, a informação assume um duplo papel: ela é, ao mesmo tempo, a névoa que cega e a ferramenta que esclarece.
Por um lado, a distorção moderna raramente precisa inventar uma mentira absoluta. Basta o recorte cirúrgico, a descontextualização de um fato, o alarde sobre um detalhe ou enfatizar recortes e explorar vieses de confirmação. Quando o ruído é constante, a verdade acaba soterrada por narrativas sob medida para inflamar emoções e manter o rebanho disperso ou engajado na direção desejada.
Por outro lado, o mesmo ambiente digital que espalha o ruído nunca ofereceu tantas portas para expor o que antes ficava escondido nos gabinetes. Portais de transparência, dados públicos, checagens de fatos e registros históricos estão acessíveis a qualquer pessoa a um simples clique.
A verdade não deixou de existir nem perdeu seu peso objetivo. Ela continua concreta e firme, aguardando para ser resgatada sob as camadas de barulho. O que mudou foi o esforço individual necessário para alcançá-la.
Para não ser conduzido passivamente pelo som da vez, o cidadão precisa acionar instrumentos essenciais de discernimento
Entre esses instrumentos está a leitura cruzada, ou seja, confrontar fontes, buscar os dados primários e recusar a tentação de aceitar passivamente a versão que apenas confirma certezas prévias. Outro é buscar pela memória histórica, onde se relembra promessas passadas, trajetórias e fatos. A memória preservada é o melhor remédio contra a demagogia do momento. Por último fazer a indagação do propósito. Assim, diante de qualquer comoção ou pauta inflamada, perguntar: a quem interessa a existência desse barulho encanado? Este som busca me esclarecer ou busca apenas me arregimentar?
O berrante só continua guiando quem abre mão de examinar o mapa por conta própria. A verdade não desapareceu no ruído dos novos tempos; ela continua aí, pronta para orientar o rumo de quem se dispõe a buscá-la com lucidez e independência.
Para entender essa transformação, vale observar como os elementos da antiga metáfora se reorganizaram no cenário atual:
O instrumento usado antes era o berrante antigo e o emissor o coronel ou chefe político territorial. Os mecanismos usados eram a troca direta de favores e o assistencialismo físico ao qual o inconsciente eleitor se submetia por dependência direta ou resignação.
O instrumento atual é o berrante moderno movido a emissores tecnológicos como os algoritmos, as cornetas digitais e as bolhas informacionais. Já os mecanismos usados agora são os estímulos à paixão, ao pertencimento e à indignação.
Dito isso, fica claro que a narrativa contemporânea não busca apenas arregimentar por dependência física, mas capturar pela emoção. O eleitor de hoje muitas vezes marcha convicto de que guia os próprios passos, sem perceber que apenas atende a gatilhos desenhados para despertar sua adesão imediata.
