Voltar para Cuiabá foi um verdadeiro teste de permanência. Voltei porque meus pais estavam envelhecendo e fiquei por eles, pela família e pelos amigos que tenho aqui. Foi a principal razão do meu retorno.
Sabe aquela sensação desagradável de sair do aeroporto num dia de verão? Aquele choque térmico que você toma na hora? O momento em que a temperatura do ar-condicionado perde miseravelmente em competir com a do lado de fora? As portas automáticas de vidro se abrem e, do nada, somos engolidos por uma parede sólida, invisível e pesada: um calor de 42 graus ao meio-dia batendo no rosto.
É uma situação que não só esquenta, mas parece abraçar a gente com força, como aquele parente que não vemos há anos. É sufocante. Exige que a gente respire mais devagar, mas, ao mesmo tempo, traz um quê de familiaridade. Uma recepção que não pede licença; simplesmente se impõe, e o impacto no corpo é instantâneo. O suor já brota antes mesmo de chegarmos ao carro.
Em Cuiabá, essa geografia física não é apenas pano de fundo: é a própria identidade da cuiabania. O sol de 42 graus no asfalto dita o ritmo, e a consequência direta dele é a evaporação. A água não some de uma vez; vai virando vapor de jeito contínuo e silencioso, até secar por completo.
Os grupos de amigos da nossa juventude sofrem exatamente esse mesmo processo físico na vida adulta. Não há uma ruptura cinematográfica; é só uma evaporação lenta. A presença vai, aos poucos, virando vapor. A vida adulta e o calor — seja o humano ou o físico — vão secando o convívio presencial.
Daquela vez, nos encontramos no Meats Grill, ali na Avenida Mato Grosso. Naquele ambiente, os sensores existenciais do passado se acentuavam: a cerveja e o refrigerante esquentavam na mesa em questão de minutos por causa do mormaço. E a comida — o filé acebolado com aquela mandioca frita, sequinha por fora e macia por dentro, ainda chiando na chapa — trazia sabores e momentos inesquecíveis.
Fisicamente, estávamos no Meats Grill, mas, psicologicamente, permanecíamos sentados no velho Chopão, na esquina da Avenida Getúlio Vargas. O Chopão original, o verdadeiro templo da nossa juventude, não fechou as portas, mas foi extinto. Evaporou junto com boa parte da turma. O restaurante cheio de história deu lugar a uma realidade funcional — igualzinho às pessoas que faltavam à nossa mesa.
O grupo do WhatsApp tem uma dezena de membros, com suas bolinhas verdes brilhando e trocas constantes de memes. Essa existência digital cria uma falsa sensação de presença; o aplicativo dá a conveniência, mas rouba a urgência do encontro. Porém, na hora do calor de verdade, poucos aparecem. Daquela vez, fomos poucos e teimosos.
— Você demorou, Célão — disse o Escal, entrando no carro. — Achei que tinha virado paraense de vez.
Eu havia buscado o Escalziles em casa e chegamos primeiro ao reencontro. Ele estava de boné preto com a bandeira do Brasil que eu lhe dera e vestia uma teimosa e antiga camisa do Mixto. Aposentado, lembrava o pai, o velho Oscarino, em tudo — aquele senhor que passava o tempo batendo papo e bulindo com quem cruzava o largo da Igreja da Boa Morte.
Henrique, o antigo Urubu, chegou depois e trouxe consigo o Raul (o Zezé). Como Cosme e Damião, os dois irmãos sempre andaram juntos, unidos como que por um cordão umbilical. Henrique é advogado dos bons, dono daquela mesma risada alta que fazia a professora Jovelina nos colocar de castigo na época em que a palmatória ainda era instrumento de disciplina. Zezé, por sua vez, tornou-se um observador silencioso, de poucas e certeiras palavras, um naturalista por vocação. Daqueles de cobras, lagartos e outros bichos mais.
— Olha quem apareceu! — eu disse, e Zezé sorriu.
Antônio Carlos, antigamente “Totó”, fez medicina, voltou para Cuiabá e se dedicou a curar com agulhas de acupuntura. Anda sumido, recolhido num mundo só dele, mas fez questão de estar lá. Rodolfo, o “Dofão”, andava taciturno. Era o bonitão da turma; engenheiro e empresário agora retirado, mas que nunca nega um bom bate-papo. Alberto, o Betinho, sempre envolvido com sua clínica e pacientes, deu um jeito e apareceu. Sebastião, o médico que mais cuidou das esposas dos amigos do grupo dada a sua especialidade, também marcou presença.
O Márcio Mattoso, que de um tempo para cá não tem aparecido por ter voltado ao trampo como engenheiro — e, pior, a serviço do Estado —, usa isso como desculpa, mas naquele dia estava lá, de corpo e alma presentes. Já os irmãos Márcio e Zé Antônio costumavam ser frequentes; Zé Antônio, agora vai com constância à fazenda na Bolívia e o Márcio, irmão mais velho, mesmo aposentado continua nos pareceres (quem manda ser competente?), mas ambos também fizeram questão de estar conosco no Meats.
Outros faltaram. o Roberto Tadeu, que, por conta dos meandros da política e das exigências da profissão, acabou se afastando de todos nós. Mas com ele tenho um pacto silencioso: volta e meia faço questão de entrar em contato, pois não o deixo ficar muito distante. É só uma questão de tempo até eu mandar um artigo novo e ele, prontamente, se manifesta. É um consolo caloroso tê-lo assim: mesmo distante fisicamente, mas sempre mantido perto do coração; o Juliano virou funcionário público, casou-se com a Louriza e foi morar na Chapada, deixando-nos sem o som maravilhoso do seu violão afinadíssimo. Ambos fazem uma falta danada de imensa.
Não houve tragédia ou grandes dramas. Foi só a vida, seca e quente, evaporando aos poucos as conexões pelas escolhas de cada um. O resultado prático é a cadeira vazia no bar.
— Eu fico chateado — disse naquela tarde, limpando a mão no guardanapo. — Porque a gente era daqueles que falavam: “nós nunca vamos sumir”.
O Escal, mexendo com o dedo no gelo já quase derretido no copo, respondeu: — Mas a gente tá aqui. E estar aqui, nesse calor que faz qualquer um de fora querer ir embora, já é teimosia. Persistir aqui é nossa escolha.
Rimos muito. Ficamos em silêncio por um tempo, alheios ao barulho das mesas do entorno, até que uma moto com escapamento estourado cortou a avenida e nos trouxe de volta.
Já tinha vindo com uma frase pronta na cabeça: “Não sumam, meus amigos, restam poucos de nós”. Queria falar bonito, mas só consegui dizer o simples: — Obrigado por não terem sumido.
Henrique sorriu, segurou minha mão por cima da mesa e deu um leve aperto que dizia tudo. — Enquanto tiver conversa para jogar fora e motivo para se encontrar, a gente fica — disse ele. — as vezes pode ser complicado, mas viemos. Estamos aqui.
No início da tarde, choveu. Daquelas chuvas de Cuiabá que chegam com cheiro forte de terra e vão embora em vinte minutos. Saímos do Meats rindo, todos debaixo da única razão para estarmos ali. Éramos unidos. Éramos suficientes.
Naquele dia, lembramos dos domingos da juventude: depois da missa das 19h, das voltas na praça e do tempo no Beto, de onde, depois, íamos ao clube. A turminha subia as escadarias do morro para ir ao Clube Dom Bosco, no tempo em que andar por Cuiabá não era perigoso. Hoje, o clube está fechado, abandonado no topo do morro, no Bairro Bandeirantes. Virou ruína e mato.
O simbolismo é brutal. O clube morreu, o Chopão original desapareceu, mas nós permanecemos. A amizade na maturidade é exatamente como viver em Cuiabá: uma escolha ativa. Na escola, a convivência é passiva, você é obrigado a ver as pessoas todos os dias. Na vida adulta, tudo tenta nos separar. É preciso escolher não sumir.
Nossas memórias mais fortes estão amarradas em espaços físicos que já não existem. O bar da faculdade, a padaria do bairro, o restaurante antigo. Se a gente não se encontra, a memória desmorona de vez. Vencer o cansaço do trabalho, encarar o trânsito e ir ver os velhos amigos é o que garante que a nossa história continue de pé.
É aceitar que as portas do aeroporto vão se abrir, o calor de 42 graus vai bater forte no rosto e o que realmente importa é olhar para quem não sumiu e agradecer por eles ainda estarem dividindo essa conta com a gente.

Delicia de texto, Marcelo!
Eu também sou apegada a locais, perfumes e pessoas que me trazem o passado de volta. Quando as lembranças começam a se tornar “vapor”, aciono a turminha dos anos 70, 80 e 90, e volto a sentir o calor do abraço e da amizade. E a vida segue calorosa e colorida, para o meu deleite.
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